por James Martins no dia 16 de Jul de 2012 às 15:20 em Entretenimento
A torcida do Bahia não torce por ninguém
Foto: Reprodução da Internet
Antes de tudo, devo dizer mais uma vez: eu sou Bahia! Sou Bahia desde pequenininho e mais, antes mesmo de nascer já era tricolor. Passei grande parte da infância na Fonte Nova e outra parte no rádio, me informando sobre tudo do time. Houve um tempo em que eu sabia até quanto ganhava um roupeiro do Esporte Clube Bahia, de tanto ouvir aquele programa de Odemar Seixas, 'Bahia, Campeão dos Campões'. E na sequência vinha 'A Bola é Nossa'. Houve um tempo em que meu apelido era Marcelo, por causa da camisa do Bahia, número 9, que eu me recusava a tirar. Nessa época o Marcelo era apenas Marcelo, e não Marcelo Ramos. E meu ídolo. Assisti várias rodadas duplas, com meu pai, na Fonte Nova, quando o Vitória ainda não tinha o Barradão e também jogava lá. Assim, nomes como Leônico, Serrano e Catuense faziam parte do meu vocabulário futebolístico com naturalidade. Tanto, que quando meu pai anunciou que me compraria times de futebol de botão e perguntou quais eu queria, não vacilei: - Bahia e Fluminense de Feira! E ganhei. Naturalmente o Fluminense era o do Rio, mas eu não sabia e, na lousa em que anotava o placar, escrevia assim: 'Bahia x Flu/FS', imitando o placar eletrônico da Fonte Nova. Meus ídolos no esporte eram, além de Bebeto, Careca, Romário e Maradona, evidentemente, Charles, Bobô, Zé Carlos, Ronaldo (o goleiro) e Paulo Rodrigues, entre outros. Lembro de uma vez em que o Vice enfiou três a zero, os três de Hugo, aquele centroavante de cabelo encaracolado. Mas, tirando isso, só dava Bahia. São Paulo era freguês (aqui e lá). Flamengo também. Finalmente, em fevereiro de 1989, mas valendo pelo campeonato de 88, o tricolor de aço foi campeão brasileiro e todo mundo dançou lambada. O Bahia fazia parte do 'Clube dos 13' e, já em 1990 conseguia um quarto lugar, com Charles artilheiro do Brasileirão: 11 gols! Enquanto isso, o pobre Vitória vinha mal das pernas até que em 1991 finalmente caiu pra segundona. Lembro exatamente o que pensei: o Bahia nunca vai cair. Mas o Bahia caiu: em 1997.
Mas o pior não foi cair. O pior é que, desde então, o Bahia nunca mais foi o mesmo. Voltando a falar na infância, a relação com o time de futebol era também tomada como traço distintivo de caráter. O Vira-Folha, por exemplo, era tomado como um sem caráter típico. Eu tinha um vizinho, Igor, que era muito deplorado porque sempre que o Bahia perdia ía correndo pra casa tirar a camisa do time e vestir uma civil. "Torcedor de verdade é o que continua com a camisa mesmo após a derrota", era o que dizíamos. O cara não tirava a camisa, mesmo que isso o fizesse sofrer terríveis gozações. Uma espécie de heroísmo em nome do amor clubístico. Alguns faziam questão de vestir a camisa do time ainda no dia seguinte. Acontece que essa atitude também tinha seu bônus, cada vez mais evidente. Era bonito mostrar seu amor fanático pelo time daquela maneira, de modo que, mesmo os adversários respeitavam os torcedores capazes de tal devoção. E o que era conduta individual, passou a ser uma marca coletiva de toda a torcida do Bahêa. Em plena sucessão de más campanhas, a turma tricolor lotava o estádio (e como era fácil e gostoso ir à Fonte Nova!) e incentivava o time como uma esposa fiel ao marido recém-falido. E eu junto. Naquele campeonato da Série B de 2004 fui a praticamente todos os jogos na Fonte Nova, crente que Robert & Cia. nos reconduziriam ao lugar de onde nunca deveríamos ter saído. Mas o gol olímpico do Brasiliense foi uma tijolada em nossas cabeças. E daí pro inferno da terceirona! E, somado a tudo isso, no plano regional, o Vitória ganhando praticamente tudo e nos impondo um jejum inédito. Mesmo assim, a torcida fiel sempre fiel. Matérias, inclusive em rede nacional, louvaram essa atitude tão inabitual que virou nossa marca. Mas, essa marca se tornou um clichê e a torcida do Bahia começou se tornar uma personagem de si mesma, uma auto-imitação, um embuste.
Eis o que eu quero dizer: da mesma forma que aquele pessoal que aplaude o pôr-do-sol não me parece ter relação nenhuma com o fenômeno natural, mas louvar de fato a própria sensibilidade diante do acontecimento, a torcida do Bahia hoje em dia não torce mais pra ninguém, a não ser por ela mesma e sua incrível capacidade de vibrar até nas derrotas. Aliás, pelo futebol jogado pelo time nos últimos anos, principalmente nas derrotas. Virou uma patologia ser Bahia. E, o que é pior, essa doença não entende nada de futebol e muitas vezes parece nem sequer gostar da matéria. Ora, o Bahia vem sendo um clube, digamos claramente, ridículo, nos últimos 10 anos, e a torcida parece sempre satisfeita com isso. Tão satisfeita que não vacilo em afirmar que esse comportamento, se em algum momento ajudou o tricolor (e ajudou), hoje em dia atrapalha. A diretoria não precisa se preocupar em fazer um trabalho sério que nos devolva a alegria de ser Bahêa, afinal a gente já está alegre. É aquele caso, se você vender bosta e todo mundo comprar, vai passar a vender algodão doce por quê? Neste domingo (15), por exemplo, estava eu em casa quando ouvi os gritos de "Bora Bahêa Minha Porra", etc. etc. Quando saí encontrei Isac, um vizinho também tricolor. Pergunto: - "Quanto foi hoje?". Ele: - "Dois a um!". Eu: -"Então ganhou na tora!". Ele: -"Não. Dois a um Flamengo". Eu: "E aquela agonia toda foi o quê? Porque pelo menos fez um?". Bom, como diria o nosso belo hino: "Ninguém nos vence em vibração". Porém, nunca como nessa fase esse verso me soou tão mal. E sabem por que eu nem sabia o placar até ele já estar consumado? Simples: porque não acompanho mais o Bahia. Minha toalha de banho e meu relógio de mesa são do Bahia (presentes de minha mãe), mas eu, mesmo com esforço, não dou um centavo sequer a essa diretoria. Se o Bahia vier jogar em minha casa, eu saio e só volto quando o baba acabar. E acho que se a torcida em geral agisse de maneira semelhante, os homens já tinham tomado uma atitude. Mas que nada, ontem mesmo, no Sieiro, um cara botava o Hino do Esporte Clube Bahia pra tocar, em alto e bom som, no porta-malas do carro (devia estar comemorando): "(...) Ninguém nos vence em vibração".
Eu disse que devia estar comemorando, mas corrijo: é capaz de que ele nem soubesse o resultado do jogo. Afinal, ser Bahia não tem mais nada a ver com o time, só com a torcida. A torcida do Bahia torce por torcer e pra torcer. E só. Reparem uma coisa: líder de torcida organizada fica de costas pro campo, agitando a galera. Ou seja, eles nem veem o jogo. Talvez por isso consigam gostar do que se passa quando o Bahia joga. Mas, permitam-me a sinceridade: nosso futebol é um lixo! Eu, que vi Maílson e Paulo Rodrigues, não consigo gostar de Madson e Fahel. Tem time que privilegia o jogo feio e eficaz. Pois o nosso jogo consegue ser horroroso e ineficiente. Eis a pergunta que faço, sem achar resposta: por quê? Permitam-me um palpite: o time campeão em 88 não tinha nenhum jogador de nível nacional. O nível nacional (e mesmo internacional) veio depois, com inclusive Maradona comprando o passe de Charles. Eram jogadores daqui, revelados no próprio E. C. Bahia e no interior e muito bons de bola. Atletas identificados com nosso futebol, nossas cores e coisas. Atletas que não saíam do time com meia hora de revelados, como hoje em dia. Agora vejamos a política atual: o menino acertou dois chutes, vende. E qual o pretexto para vender? O de que o futebol nordestino não tem grana pra competir com o do Sul/Sudeste. Porém, o mesmo clube gasta uma fortuna para pagar salários milionários a jogadores do tal nível nacional, velhos e/ou acabados, e que não estão nem aí para o Tricolaço. Vide os exemplos de Carlos Alberto, Ricardinho e Cia. Não seria mais lógico aplicar esta grana pra segurar as 'pratas da casa' por mais de uma temporada pelo menos? Porque não pagar a Gabriel e Lomba o mesmo que se paga a um medalhão enferrujado? É o pensamento de sardinha. O Bahia, que sempre foi grande, hoje em dia se comporta como clube pequeno, deslumbrado com 'nomões' do futebol nacional que não estão nem um pouco deslumbrados com nossa tradição. E, ademais, nome não joga bola.
Mas eu quero voltar a falar na torcida. Torcer, futebolisticamente falando, é se relacionar intimamente com um clube/time. E essa relação é feita de vibrações e revoltas, quenturas e friezas, como um casamento. Pois a torcida do Bahia se comporta como uma mulher ou marido traído que não apenas se orgulha das gozações sofridas na rua, mas exibe-as como um troféu. Que sempre perdoa e ainda empresta a chave do carro para o outro ir ao motel. Pior: parece nem sequer tomar mais conhecimento das atitudes do outro e viver o seu amor como um totem autossuficiente. A torcida do Bahia parece anestesiada para as demandas do time: perca ou ganhe a galera festeja... Pior ainda: quando o time vence um jogo, no outro dia as ruas estão cheias de malucos dizendo que o Bahêa vai ser campeão brasileiro, da Libertadores e Mundial. No meio da boa campanha do Baianão 2012, o marido de minha tia tentou de todas as formas me convencer que o nosso time era o melhor do Brasil. Lembro que ainda perguntei: -"E o Santos?". Ele: -"Que Santos? Esqueceu que o Santos perdeu pro Bahia no Campeonato Brasileiro ano passado? A gente vai ser campeão da Copa do Brasil, não tem nem pra onde correr!". Deu no que deu. O Bahia é estragado pela torcida complacente e deslumbrada. Numa palavra: louca. Não estou falando em quebrar estádio, apedrejar buzu ou fazer outras merdas. Muito pelo contrário. Mas esvaziar o estádio e discutir com serenidade a gestão e o futebol apresentado pelo time ajuda. Pensei em ir à estreia no Brasileiro, contra o Santos. Mas pra ver o Santos. Quando soube que seria o reserva, desisti. E quando soube que deu empate, afirmei que estamos rumo à Série B. Continuo achando. Não pensem com isso que sou um ingrato, apenas não sou abestalhado. Lembro que cheguei a ir à Fonte Nove em plena Série C, mesmo tendo prometido que não iria jamais. Era Bahia x Ipatinga e eu passava perto do estádio. O jogo já tinha começado havia uns 10 minutos quando resolvi saltar do buzu e seguir o canto de cisne. Não existe nada mais encantador que ver o Bahia numa tarde ensolarada avançando pela lateral na grama verde da Fonte Nova. Comprei meu ingresso na mão de um cambista (vide foto abaixo).

Fiquei bem abaixo da Bamor (onde, aliás, nunca fico). Note-se que aquele time do Bahia, se tentasse participar do Campeonato do Tejo, no IAPI, seria 'café-com-leite' de tão ruim. Resultado: o Ipatinga meteu 2 x 0 já no início do segundo-tempo. Antes disso, a torcida já ameaçava "A-E-I a Bamor Vai Invadir"! Eu também gritava e um velhinho ao meu lado também. Mas o velhinho, dada hora, virou-se para mim e confessou: -"Eu não vou invadir é nada, meu filho". Ao que eu respondi: -"Nem eu, meu velho. Tenho medo de cachorro". Mas a torcida invadiu assim mesmo. O pau comeu. Pedradas e bombas. Policiais e rottweillers latindo. Mulheres e crianças chorando. Eu nunca tinha passado por algo parecido, mas costumo ser calmo, então fiquei só observando o pegapacapá e aguardando uma brecha pra sair tranquilamente. Ao meu lado, uma mulher chorava muito, mas seu marido, também calmo, tentava tranquilizar. Eu mesmo virei pra ela e disse que dali a pouco os portões estariam mais acessíveis e sairíamos sem problemas. Foi quando vi outra mulher chorando ainda mais e usei a mesma técnica. Só que esta, para minha grande surpresa, chorava por outro motivo: -" O problema não é esse não moço. O problema é que acabaram meu Bahia (...)". E ela se desmanchava em lágrimas azuis, vermelhas e brancas. Bom, para esse problema eu não tinha solução. Só restava chorar. Desde então não fui mais ao estádio ver o Bahia. E não vou. Só quando o Bahia voltar a ser o Bahia. É preciso esclarecer que, quando a gente pede 'Devolva o Meu Bahia', não estamos pedindo um time do Sul/Sudeste, estamos pedindo o Bahia, com todas as limitações que sempre teve e todo o brio, valentia e bom futebol que o consagrou. Não queremos Cristiano Ronaldo, queremos Naldinho, Luis Henrique, Vandick, Beijoca, Lima Sergipano, João Marcelo, Jean, Emerson, Baiaco, Beijoca, Jorge Wagner, Uéslei, Osni, Tirson, etc. etc. etc. Mas, pra isso, a torcida também precisa entender que torcer não se faz só por ação, mas também por inação. Um músculo não apenas expande, também contrai. Senão não é um músculo, é um osso. E um osso quebra mais fácil. Acabar com as ilusões e as festinhas fora de hora faz-se extremamente necessário para a gente poder voltar a festejar de verdade. BBMP!
Mas o pior não foi cair. O pior é que, desde então, o Bahia nunca mais foi o mesmo. Voltando a falar na infância, a relação com o time de futebol era também tomada como traço distintivo de caráter. O Vira-Folha, por exemplo, era tomado como um sem caráter típico. Eu tinha um vizinho, Igor, que era muito deplorado porque sempre que o Bahia perdia ía correndo pra casa tirar a camisa do time e vestir uma civil. "Torcedor de verdade é o que continua com a camisa mesmo após a derrota", era o que dizíamos. O cara não tirava a camisa, mesmo que isso o fizesse sofrer terríveis gozações. Uma espécie de heroísmo em nome do amor clubístico. Alguns faziam questão de vestir a camisa do time ainda no dia seguinte. Acontece que essa atitude também tinha seu bônus, cada vez mais evidente. Era bonito mostrar seu amor fanático pelo time daquela maneira, de modo que, mesmo os adversários respeitavam os torcedores capazes de tal devoção. E o que era conduta individual, passou a ser uma marca coletiva de toda a torcida do Bahêa. Em plena sucessão de más campanhas, a turma tricolor lotava o estádio (e como era fácil e gostoso ir à Fonte Nova!) e incentivava o time como uma esposa fiel ao marido recém-falido. E eu junto. Naquele campeonato da Série B de 2004 fui a praticamente todos os jogos na Fonte Nova, crente que Robert & Cia. nos reconduziriam ao lugar de onde nunca deveríamos ter saído. Mas o gol olímpico do Brasiliense foi uma tijolada em nossas cabeças. E daí pro inferno da terceirona! E, somado a tudo isso, no plano regional, o Vitória ganhando praticamente tudo e nos impondo um jejum inédito. Mesmo assim, a torcida fiel sempre fiel. Matérias, inclusive em rede nacional, louvaram essa atitude tão inabitual que virou nossa marca. Mas, essa marca se tornou um clichê e a torcida do Bahia começou se tornar uma personagem de si mesma, uma auto-imitação, um embuste.
Eis o que eu quero dizer: da mesma forma que aquele pessoal que aplaude o pôr-do-sol não me parece ter relação nenhuma com o fenômeno natural, mas louvar de fato a própria sensibilidade diante do acontecimento, a torcida do Bahia hoje em dia não torce mais pra ninguém, a não ser por ela mesma e sua incrível capacidade de vibrar até nas derrotas. Aliás, pelo futebol jogado pelo time nos últimos anos, principalmente nas derrotas. Virou uma patologia ser Bahia. E, o que é pior, essa doença não entende nada de futebol e muitas vezes parece nem sequer gostar da matéria. Ora, o Bahia vem sendo um clube, digamos claramente, ridículo, nos últimos 10 anos, e a torcida parece sempre satisfeita com isso. Tão satisfeita que não vacilo em afirmar que esse comportamento, se em algum momento ajudou o tricolor (e ajudou), hoje em dia atrapalha. A diretoria não precisa se preocupar em fazer um trabalho sério que nos devolva a alegria de ser Bahêa, afinal a gente já está alegre. É aquele caso, se você vender bosta e todo mundo comprar, vai passar a vender algodão doce por quê? Neste domingo (15), por exemplo, estava eu em casa quando ouvi os gritos de "Bora Bahêa Minha Porra", etc. etc. Quando saí encontrei Isac, um vizinho também tricolor. Pergunto: - "Quanto foi hoje?". Ele: - "Dois a um!". Eu: -"Então ganhou na tora!". Ele: -"Não. Dois a um Flamengo". Eu: "E aquela agonia toda foi o quê? Porque pelo menos fez um?". Bom, como diria o nosso belo hino: "Ninguém nos vence em vibração". Porém, nunca como nessa fase esse verso me soou tão mal. E sabem por que eu nem sabia o placar até ele já estar consumado? Simples: porque não acompanho mais o Bahia. Minha toalha de banho e meu relógio de mesa são do Bahia (presentes de minha mãe), mas eu, mesmo com esforço, não dou um centavo sequer a essa diretoria. Se o Bahia vier jogar em minha casa, eu saio e só volto quando o baba acabar. E acho que se a torcida em geral agisse de maneira semelhante, os homens já tinham tomado uma atitude. Mas que nada, ontem mesmo, no Sieiro, um cara botava o Hino do Esporte Clube Bahia pra tocar, em alto e bom som, no porta-malas do carro (devia estar comemorando): "(...) Ninguém nos vence em vibração".
Eu disse que devia estar comemorando, mas corrijo: é capaz de que ele nem soubesse o resultado do jogo. Afinal, ser Bahia não tem mais nada a ver com o time, só com a torcida. A torcida do Bahia torce por torcer e pra torcer. E só. Reparem uma coisa: líder de torcida organizada fica de costas pro campo, agitando a galera. Ou seja, eles nem veem o jogo. Talvez por isso consigam gostar do que se passa quando o Bahia joga. Mas, permitam-me a sinceridade: nosso futebol é um lixo! Eu, que vi Maílson e Paulo Rodrigues, não consigo gostar de Madson e Fahel. Tem time que privilegia o jogo feio e eficaz. Pois o nosso jogo consegue ser horroroso e ineficiente. Eis a pergunta que faço, sem achar resposta: por quê? Permitam-me um palpite: o time campeão em 88 não tinha nenhum jogador de nível nacional. O nível nacional (e mesmo internacional) veio depois, com inclusive Maradona comprando o passe de Charles. Eram jogadores daqui, revelados no próprio E. C. Bahia e no interior e muito bons de bola. Atletas identificados com nosso futebol, nossas cores e coisas. Atletas que não saíam do time com meia hora de revelados, como hoje em dia. Agora vejamos a política atual: o menino acertou dois chutes, vende. E qual o pretexto para vender? O de que o futebol nordestino não tem grana pra competir com o do Sul/Sudeste. Porém, o mesmo clube gasta uma fortuna para pagar salários milionários a jogadores do tal nível nacional, velhos e/ou acabados, e que não estão nem aí para o Tricolaço. Vide os exemplos de Carlos Alberto, Ricardinho e Cia. Não seria mais lógico aplicar esta grana pra segurar as 'pratas da casa' por mais de uma temporada pelo menos? Porque não pagar a Gabriel e Lomba o mesmo que se paga a um medalhão enferrujado? É o pensamento de sardinha. O Bahia, que sempre foi grande, hoje em dia se comporta como clube pequeno, deslumbrado com 'nomões' do futebol nacional que não estão nem um pouco deslumbrados com nossa tradição. E, ademais, nome não joga bola.
Mas eu quero voltar a falar na torcida. Torcer, futebolisticamente falando, é se relacionar intimamente com um clube/time. E essa relação é feita de vibrações e revoltas, quenturas e friezas, como um casamento. Pois a torcida do Bahia se comporta como uma mulher ou marido traído que não apenas se orgulha das gozações sofridas na rua, mas exibe-as como um troféu. Que sempre perdoa e ainda empresta a chave do carro para o outro ir ao motel. Pior: parece nem sequer tomar mais conhecimento das atitudes do outro e viver o seu amor como um totem autossuficiente. A torcida do Bahia parece anestesiada para as demandas do time: perca ou ganhe a galera festeja... Pior ainda: quando o time vence um jogo, no outro dia as ruas estão cheias de malucos dizendo que o Bahêa vai ser campeão brasileiro, da Libertadores e Mundial. No meio da boa campanha do Baianão 2012, o marido de minha tia tentou de todas as formas me convencer que o nosso time era o melhor do Brasil. Lembro que ainda perguntei: -"E o Santos?". Ele: -"Que Santos? Esqueceu que o Santos perdeu pro Bahia no Campeonato Brasileiro ano passado? A gente vai ser campeão da Copa do Brasil, não tem nem pra onde correr!". Deu no que deu. O Bahia é estragado pela torcida complacente e deslumbrada. Numa palavra: louca. Não estou falando em quebrar estádio, apedrejar buzu ou fazer outras merdas. Muito pelo contrário. Mas esvaziar o estádio e discutir com serenidade a gestão e o futebol apresentado pelo time ajuda. Pensei em ir à estreia no Brasileiro, contra o Santos. Mas pra ver o Santos. Quando soube que seria o reserva, desisti. E quando soube que deu empate, afirmei que estamos rumo à Série B. Continuo achando. Não pensem com isso que sou um ingrato, apenas não sou abestalhado. Lembro que cheguei a ir à Fonte Nove em plena Série C, mesmo tendo prometido que não iria jamais. Era Bahia x Ipatinga e eu passava perto do estádio. O jogo já tinha começado havia uns 10 minutos quando resolvi saltar do buzu e seguir o canto de cisne. Não existe nada mais encantador que ver o Bahia numa tarde ensolarada avançando pela lateral na grama verde da Fonte Nova. Comprei meu ingresso na mão de um cambista (vide foto abaixo).

Fiquei bem abaixo da Bamor (onde, aliás, nunca fico). Note-se que aquele time do Bahia, se tentasse participar do Campeonato do Tejo, no IAPI, seria 'café-com-leite' de tão ruim. Resultado: o Ipatinga meteu 2 x 0 já no início do segundo-tempo. Antes disso, a torcida já ameaçava "A-E-I a Bamor Vai Invadir"! Eu também gritava e um velhinho ao meu lado também. Mas o velhinho, dada hora, virou-se para mim e confessou: -"Eu não vou invadir é nada, meu filho". Ao que eu respondi: -"Nem eu, meu velho. Tenho medo de cachorro". Mas a torcida invadiu assim mesmo. O pau comeu. Pedradas e bombas. Policiais e rottweillers latindo. Mulheres e crianças chorando. Eu nunca tinha passado por algo parecido, mas costumo ser calmo, então fiquei só observando o pegapacapá e aguardando uma brecha pra sair tranquilamente. Ao meu lado, uma mulher chorava muito, mas seu marido, também calmo, tentava tranquilizar. Eu mesmo virei pra ela e disse que dali a pouco os portões estariam mais acessíveis e sairíamos sem problemas. Foi quando vi outra mulher chorando ainda mais e usei a mesma técnica. Só que esta, para minha grande surpresa, chorava por outro motivo: -" O problema não é esse não moço. O problema é que acabaram meu Bahia (...)". E ela se desmanchava em lágrimas azuis, vermelhas e brancas. Bom, para esse problema eu não tinha solução. Só restava chorar. Desde então não fui mais ao estádio ver o Bahia. E não vou. Só quando o Bahia voltar a ser o Bahia. É preciso esclarecer que, quando a gente pede 'Devolva o Meu Bahia', não estamos pedindo um time do Sul/Sudeste, estamos pedindo o Bahia, com todas as limitações que sempre teve e todo o brio, valentia e bom futebol que o consagrou. Não queremos Cristiano Ronaldo, queremos Naldinho, Luis Henrique, Vandick, Beijoca, Lima Sergipano, João Marcelo, Jean, Emerson, Baiaco, Beijoca, Jorge Wagner, Uéslei, Osni, Tirson, etc. etc. etc. Mas, pra isso, a torcida também precisa entender que torcer não se faz só por ação, mas também por inação. Um músculo não apenas expande, também contrai. Senão não é um músculo, é um osso. E um osso quebra mais fácil. Acabar com as ilusões e as festinhas fora de hora faz-se extremamente necessário para a gente poder voltar a festejar de verdade. BBMP!





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