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Gênio Descompreendido

por James Martins no dia 15 de Ago de 2012 às 13:04 em Vida Alheia

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Guimarães Rosa assessorou generais da ditadura, e daí?

Guimarães Rosa assessorou generais da ditadura, e daí?
Foto: Reprodução da Internet
Ontem compartilhei no Facebook a seguinte frase: "A função da universidade hoje é esta, tapar o acesso das pessoas à grande cultura do mundo". Compartilhei e dei o crédito ao autor: Olavo de Carvalho. Embora tenha muitas divergências com o pensamento do filósofo brasileiro, concordo com a frase ao ponto de compartilhá-la no Facebook (risos)! Aí, vem um rapazinho e comenta assim: "Olavo de Carvalho amigo dos torturadores da ditadura militar...". É o caso de se perguntar: sim, mas e daí? Pincei a citada de um vídeo em que Olavo comenta o atraso do mercado editorial brasileiro, segundo ele, em 70 anos. Ali, ele reflete ainda sobre o efeito que este atraso tem em nossa capacidade média de argumentação e sobre o, digamos, desserviço prestado pelo nosso sistema universitário -cheio de buracos- ademais já muito criticado por pessoas inclusive do outro lado da trincheira em que se coloca o filósofo católico apostólico romano, como o antropólogo Antonio Risério, por exemplo. Enfim, após comentar a autoridade excessiva que os professores exercem sobre os alunos ("quanto mais analfabeto o professor, mais sua palavra é tomada como coisa final") e o baixo nível cultural vigente hoje no país, Olavo de Carvalho conclui citando um dado de pesquisa: 38% dos universitários são analfabetos funcionais. Pronto. Em vez de criticar, comentar, discutir ou desmentir tudo que o velho apresentou como argumentação, vem o jovem universitário e diz simplesmente: "Olavo de Carvalho amigo dos torturadores da ditadura militar...". Eis a pergunta que ainda faço, sem achar resposta: e daí? Eu, que nunca fui amigo dos torturadores, concordo, compartilho e curto a frase. Então vejamos, se o fato de OC ser amigo dos militares invalida seus argumentos, o fato de eu não ser e endossá-los  os revalida automaticamente?

Mas, eu estou falando de Olavo de Carvalho quando o meu assunto, de fato, é João Guimarães Rosa, o grande romancista brasileiro autor de 'Grande Sertão: Veredas'. Dá-se que encontraram esta semana alguns documentos referentes à atuação diplomática de Rosa. Bom, como o escritor esteve no Itamaraty do final da década de 1930 até falecer em 1967, os documentos mostram (provam?) o óbvio: "Guimarães Rosa assessorou generais em conflito com Paraguai", alardeia a manchete do Estadão. Já esse é o caso de se dizer o seguinte: eu já sabia, Bial! No dia 11 de março de 1966 o Conselho de Segurança Nacional reuniu os principais integrantes do governo militar, incluindo o presidente Humberto Castello Branco e seus futuros sucessores, os generais Arthur da Costa e Silva (então ministro da Guerra) e Ernesto Geisel (secretário-geral do conselho), para discutir questões de fronteira entre o Brasil e o Paraguai. Entre generais, como o chefe do Serviço Nacional de Informações, Golbery do Couto e Silva (aquele mesmo que Glauber Rocha chamaria depois de 'gênio da raça'), estava Guimarães Rosa, talvez com sua indefectível gravata borboleta, discutindo o conflito territorial que, afinal, com intensa colaboração do escritor-diplomata, pendeu para o lado do Brasil dos militares. Escrevo sobre este artigo como antecipação de um contraponto a possíveis idiotas que queiram ver nisso algum motivo para tentar macular a grande obra do grande artista. Não duvido muito de ler, aqui ou alhures, bobagem do tipo: "Guimarães Rosa, o que colaborou com os militares e por isso escreveu aquele livro imbecil e bélico que deve ser proibido nas escolas públicas, etc. etc.".

De fato, abomino esse tipo de simplificação pelo enorme prejuízo que costuma resultar de tal postura. Afinal, se lembrarmos bem, os mesmos militares execrados adotavam lógica semelhante: nãoseiquem é assim, então também é assado; fulano é viado, então é subversivo; foi visto ao lado de..., então prende; e assim por diante. "A função da universidade hoje é esta, tapar o acesso das pessoas à grande cultura do mundo". Tudo o que se pode depreender e discutir tomando como mote apenas esta frase é importante demais para ignorarmos apenas porque seu autor foi amigo de quem quer que seja, ou por ele ser reacionário, ou careta, ou maluco, ou sei lá o que. Aliás, tudo o que o Olavo de Carvalho diz no vídeo de onde a tirei é digno de atenção, ainda que discordante. Inclusive, eu mesmo posso me considerar vítima do processo que ele denuncia ali. Ora, entre as poucas coisas que gosto de ler estão, além de poesia, estudos antropológicos e ensaios científicos, mormente de física teórica. Pois bem, para mim Einstein é rei. E agora vem o Olavo de Carvalho dizer que "toda a história das origens da ciência moderna é empulhação". E completa: "O que estou dizendo é resultado de estudos que fiz em livros publicados nos últimos 70 anos e que maciçamente confirmam essa tese. Como ninguém no Brasil lê esses livros, então a minha afirmação parece chocante". Parece mesmo. E, de fato, a ser verdade que tais livros existem, tenho que me confessar extremamente ignorante. Valha-me nossenhora, que papo é esse de que a terra não gira em torno do sol? Porém, não é por não ter comido a pilha do filósofo que a descarto peremptoriamente com o pobre e podre argumento de que ele é um reaça de direita amigo de torturadores do serviço militar obrigatório. Ou seria da Ditadura Militar? Não tenho tais certezas imbatíveis. Deixo isso aos ditadores e falsos profetas.

Mas, por falar em amigo de militares, Nelson Rodrigues foi talvez o mais declarado entre os artistas. E seu filho, Nelson Rodrigues Filho, um dos torturados. E eu não cesso de retomar seus escritos geniais e iluminados. Ora, como era inteligente o autor de 'Anjo Negro'. Mas voltemos a falar em Guimarães Rosa e sua carreira diplomática. Outros dois grandes nomes de nossa literatura também pertenceram ao quadro do Itamaraty, João Cabral de Melo Neto e Vinícius de Moraes. Este, "o branco mais preto do Brasil", exerceu a solene função de censor de filmes. Ressalve-se que nunca vetou uma película sequer, mas era censor. E mais, por falar em centenários famosos, Jorge Amado, o comunista, colaborou em publicação nazista e foi amigo de ACM na Bahia. Devemos rechaçar tudo o que ele disse e/ou fez por qual motivo? Por ser amigo do ex-senador que violou o painel de votação ou por ter apoiado o partido que matou tantos na Polônia? O meu querido amigo e mestre Germano Machado está há anos chamando a atenção dos jovens para o perigo de uma análise assim superficial. "O homem sempre vai cometer falhas, e pode ser até que muitas, mas isso não invalida tudo o que faça", repete. Heidegger também pertenceu ao Partido Nazista. E agora, o que fazer com 'O Ser e o Nada', do marxista João Paulo Sartre, evidentemente devedor do pensamento do alemão? Contra argumentos, argumentos. E vamos depressa, meninos, que esse lance de que o Einstein reformulou toda a física apenas como um golpe para escamotear a verdade, sabida, que depõe a favor do teocentrismo, está me tirando o sono. E eu não tô afim de ficar insone só por causa das bobagens de um velho católico mal-intencionado.

Veja o tal vídeo abaixo:

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