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Gênio Descompreendido

por James Martins no dia 15 de Mai de 2012 às 09:57 em Vida Alheia

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Socorro! Psirico também virou banda evangélica

Socorro! Psirico também virou banda evangélica
Foto: Divulgação
Sou fã do Psirico. Isso pode ser surpresa para muita gente, mas quem me conhece mais de perto já sabia. De qualquer forma, acho necessário contar a história do meu entusiasmo pela banda de Márcio Victor. Bom, sempre gostei de samba e de sambar, como qualquer um com bom pé e boa cabeça. E sempre, desde o surgimento do pagode baiano com o Gera Samba, me esmerei (esmero) em separar o joio do trigo. O critério era (é) basicamente este: o balanço é verdadeiro ou não é? Se sim, maravilha! O do Gera Samba (depois É o Tchan) com certeza era. Depois veio Harmonia do Samba com uma mudança no conceito e muita qualidade também. Porém, no início fiquei desconfiado e só gostei mesmo da banda de Xanddy quando os vi tocando ao vivo, em cima de um trio elétrico. E, embora Bimba, o maestro criador daquele som, seja contrabaixista, o Harmonia sempre me pareceu um samba mais de viola enquanto o Tchan me parecia um samba mais do contrabaixo e eu sempre preferi esta tendência. Enfim, dancei bastante ao som de tudo isso e também enjoei bastante disso tudo conforme foram se desgastando até que, numa tarde, passando pela Liberdade, ouvi dos alto-falantes de um carro-de-som um pagode que dizia: "Eu quero é mais - Ai! Eu quero é mais - Ai, ai, ai!". Na hora pensei, sem maior empolgação: - Sim, este balanço é verdadeiro. Esqueci. Daí, algum tempo depois, num feriado, estava na Praça da Soledade e um porta-malas tocava uma música estranha que era um pagode com um swing que parecia ser uma versão turbinada do melhor É o Tchan + bacurinhas frenéticas + guitarras sinuosas + eletrônica. Sim, eletrônica: um sample que repetia o tempo todo "Abre, abre, abre (...) Que-é sucesso"! E mais: o bumbo do samba-pagode-baiano assumia ali uma postura viril, agressiva, diferente do bumbo quadrado e reto usual. Aliás, a percussão como um todo parecia tomar a frente, mesmo com o papel destacado das guitarras. Além de tudo, um dos vocalistas (eram dois) sorria por dentro do canto e esse riso se incorporava ao próprio cantar bem como a toda a massa sonora da música, como Elis Regina fez em 'Vou Deitar e Rolar', por exemplo. Além disso, havia ainda uma sirene que me lembrava das barracas de capeta de festa de largo, formando quase-imagens com sons, como as vozes das crianças em 'Palhaço', de Egberto Gismonti. E todo mundo dançava na praça da Soledade... E até a praça dançava, como naqueles musicais americanos. Fui dormir impressionado!

No dia seguinte, cheguei ao trabalho e perguntei a um colega pagodeiro: -"Qual é a banda que canta aquela música 'Sambadinha... sambadinha do negão...'"? Ele: - "Psirico". Eu: - "E aquela assim, 'Eu quero é mais - Ai (...)'". Ele: - "Psirico"! Pronto, comecei a caçada por uma nova banda favorita. Vê-los no palco, pela tevê, completava a revolução: se o som já dava um punch novo ao pagode, o visual completava a informação. O figurino do Psirico, em vez da emulação da tendência romântico-boêmia, gel no cabelo, etc. era ao mesmo tempo mais jovem e mais ancestral. Os caras usavam batas, colares e pés descalços e, no cenário, quartinhas de terreiro em formato gigante, atabaques coloridos como os da Timbalada, etc. O que ouvi do Psirico daí pra frente só incrementou o arsenal de características interessantes daquela música: algumas letras pareciam diretamente influenciadas pelo rap, e eram canto-faladas como no rap mesmo, o que facilitava o trabalho do Márcio Victor (agora sozinho), um evidente não-cantor. Os backing vocals entravam em bloco, com toda a banda ajudando, como nos Titãs. As convenções eram sempre arrojadas e sofisticadíssimas. Os elementos eletrônicos se faziam cada vez mais presentes, sem comprometer o orgânico do som, pelo contrário. Nessa época, o Psirico sempre me fazia pensar em John Cage (lembrem-se que ele também era percussionista); Edgard Varèse, com sua atrevida 'Ionisation' (1931), em que inclusive usa sirenes; Egberto Gismonti tocando violão de oito cordas; e em toda essa turma da libertação do som. Porém, nada disso era o mais importante. O mais importante mesmo era o que eles faziam com o nosso sambão, a putaria gostosa, a verdade. Não obstante, certa vez, impressionado por um concerto pesadíssimo do Psi, não me contive e escrevi um 'Poema Irresponsável Para o Psirico', cuja única linha diz: "a repercussão do som q ontem anton". Não me cabe analisá-lo aqui, mas creio que este poeminha repercute bem os pontos principais da revolução psiriqueira e otras cositas más.

Esta revolução do Psirico foi diretamente responsável pela inserção de temas sociais nas letras do pagodão. De fato: após 'Contregum', com sua levada rap (Rapaziada se ligue no groove / No samba seu corpo balança / Ouvir a sonora suingueira / Cordão de viola, um show de quebrança / Hoje tem festa no gueto / Convido o povo pra zoar / A porrada já tá temperada / Com o corpo fechado é só se jogar // No contregum / No contregum (...)", as senhas estavam dadas para o pagode se ligar à outra manifestação musical das favelas: o Hip Hop / Rap. E aconteceu: da mesma forma que É o Tchan foi um caminho estético seguido por tantas outras bandas e o Harmonia o segundo caminho, o Psirico representa a terceira tendência. E as bandas que derivaram dessa radiação, como Parangolé e Fantasmão, incluíram e até radicalizaram a pegada Hip Hop, inclusive nos temas da letras. Lembro de uma época em que o Fantasmão, ainda com Ed no vocal, cantava uma música inteira dos Racionais Mc's no show. Mas, enfim, é importante ressaltar uma vez mais que, como sempre na história da arte, a revolução foi estética (esta moral artística) e não meramente moralística. Maiakovski: "Sem forma revolucionária não há arte revolucionária". Acontece que a música do Psirico foi cansando (até por falta de campo de jogo, de interlocutores à altura), Márcio Victor entrou numas de ser animador de auditório (de cinco em cinco minutos larga um: "Cadê a torcida do Bahia?") e eu cada vez mais acho chatas aquelas versões de música frevo-axé que ele faz e que fazem-no chamar a galera pra tirar o pé do chão. Inclusive brinco dizendo que o mínimo que se espera do samba é que as pessoas fiquem com (finquem) os pés no chão, e vem o Márcio Victor pedir pra tirar. Enfim, faz tempo que eles não me empolgam, mas o que eu quero falar mesmo é sobre o que esperar do samba. Muita gente fala mal das letras de pagode porque elas seriam, supostamente, banais, não têm conteúdo, etc. Curioso é como essas mesmas pessoas não sustentam as mesmas críticas a respeito do samba de roda tradicional, cujas letras dizem coisas tão literárias quanto "Eu vim aqui foi pra vadiar / Vadeia, vadeia, vadeia (...)" ou "Pega na galha do boi / Segura na galha do boi ô Mané (...)". Enfim, parecem ainda não entender que a mensagem, o conteúdo de uma obra de arte é ela mesma e não um reles conteúdo exterior, como numa reportagem ou receita de bolo. Aliás, dentro da premissa poundiana de eliminar palavras assessórias e só manter as essenciais, aquele pagode que diz apenas "chão-chão, chão / chão-chão / chão (...)", é um exemplo super bem sucedido.

É com base nesta confusão, que infelizmente não poderei esquadrinhar aqui por falta de espaço, que muito sub-intelectual acha que, em vez de tudo o que descrevi acima, a primeira coisa artisticamente digna que o Psirico fez foi a letra de 'Firme e Forte', onde descreve as mazelas de quem tem a moradia arrastada pelas chuvas. Pois eu acho justamente o contrário. Esta letra, em que pese a nobreza do tema, é uma das mais mal realizadas da banda, por ser inadequada ao formato pagode, que é afeito a letras nucleares, de concentração vocabular (como a poesia concreta) e de organização paratática (orações coordenadas), não hipotática (orações subordinadas). Resumindo: não cabe ao pagode contar historinhas de forma lógico-discursiva como numa música do Los Hermanos ou num livro dos Irmãos Grimm. A base normativa aqui é outra. As letras de pagode (como as do funk carioca), para se adequarem ao som, têm que seguir a um padrão que vem da poesia africana, dos orikis - cujo funcionamento se dá por montagem, ligação direta, sem conectivos que enfraqueçam as síncopes. Têm que ser viola. Uma prova é que, enquanto canta a parte mais engajada (e de supostamente mais 'conteúdo') da tal 'Firme e Forte' ("Na encosta da favela tá difícil de viver / E além de ter o drama de não ter o que comer (...)"), a música nem sequer é um pagode, mas um arremedo de outra coisa (e Márcio Victor deixa patentes as suas limitações como cantor). Ou seja, essa letra pode até ser mais engajada politicamente, mas é muito menos eficaz para a desestruturação do sistema político dominante. Parece de esquerda, mas é de direita. Parece protesto, mas é conformação. Por reproduzir os códigos de beleza das classes dominantes, ela serve aos mecanismos criados pelos mesmos donos do poder que obrigam a tantos morarem nas encostas. E por isso mesmo semi-agrada aos semi-cultos, ou seja, os que no Brasil tiveram semi-educação por serem de classe-média. Mas até aí ainda dava pra aguentar, afinal o refrão com seu "ê-chuá-chuá" salva a pátria. Até que me chega a notícia da nova música do Psi, 'Dor de Mãe'. Fui ouvir e doeu mesmo. Puxa vida, lamentei, até o Psirico virou banda evangélica. Deus nos acuda!

A nova música do Psirico segue a trilha aberta por 'Firme e Forte', mas ganha desta em pieguice, com frases como: "As crianças que se foram, vão estar pra sempre no meu coração", dignas da Xuxa. Talvez seja fruto de uma preocupação real de Márcio Victor. Talvez ele tenha visto nisso um caminho confortável para se destacar do pagodão baixaria e até fazer uma moral com Luiza Maia. Talvez seja a mais pura demagogia. O certo é que a música, que tem direito até a "Aleluia, Deus te ama" e "Aleluia, fé em Deus", faz parte do mesmo rol do recém-lançado programa 'Brasil Carinhoso', da presidenta Dilma, e creio que dificilmente venha ajudar de fato ao povo: é mais fácil ajudarem ao PT e a MV. No caso do Psirico, o que de melhor eles fizeram pelo povo brasileiro, pobre e suado, foi demonstrar outra vez (e com destaque) a capacidade de beleza e sofisticação que existe ali. E, da mesma forma que eles nem precisam falar em xereca e pica para presentificarem a sensualidade, também não precisam falar em justiça social ou o que seja para participarem na dança da luta de classes. Acreditar, Márcio Victor, que é mais revolucionário, em música, falar em pão para os pobres do que cultivar um código estético distinto da caretice, é como achar que Vandré era mais anti-ditadura militar que Caetano. E a gente já sabe que não era. Por falar em chuva, o último impacto que o Psi me deu foi justamente com aquela música do "olhei pro céu, chuva caiu", com seu backing vocal doidíssimo (U-uuu) e caixas algo marciais. Escândalo. Agora, vejam bem, não quero dizer com isso que é desprezível fazer música de protesto: ao contrário. Inclusive valorizo a inserção desses temas na bossa nova, por Carlos Lyra. Adoro Racionais Mc's e sei que "um homem roubado nunca se engana". Só acho que, com esses vocais semi-gospel de 'Dor de Mãe' e a letra chorumelenta, a grande banda está comprometendo o lado mais ácido e rebelde de sua arte. A regularidade é católica, espiritual e europeia. A síncope é africana, sensual e demoníaca. Foi com os ritmos bárbaros da Rússia que Stravinsky ofendeu a Condessa de Pourtalés. E não pensem que é descabido citar o maestro num texto sobre o 'Furacão'. Foi sob o calor da música do Psirico (é útil comparar a versão deles de 'É Fogo', do Harmonia, com a do próprio Harmonia) que escrevi, por exemplo, o meu 'RaPierrot Lunar' - de Schoenberg a Mike Tyson. E já fiz também um arranjo de Cidade (de Augusto de Campos) casando o poema com o "passa levando tudo, arrastando todo mundo", tão conhecido. Arranjo que agrada ao eruditíssimo Augusto.

E acaba que este artigo ficou o maior que já postei aqui e eu ainda não disse tudo o que queria. O assunto é realmente complexo. Mas, eis o quero dizer: dentro da mediocridade total, geleia geral brasileira, em que tudo parece ser meio-evangélico-meio-sertanejo-meio-poprock-meio-axé (inclusive uns gravando a música de outros e tudo soando igual porque igual é) o rojão criativo do exímio percussionista era (é) um oásis. Prefiro acreditar que essas derrapadas sejam apenas uma má-fase. E atribuo esta má-fase, como ademais até Djavan enfrenta sua má-fase como compositor, à má-fase do Brasil, em que todas as discussões são cretinas e cretinizadas e cretinizantes. Espero, então, que esta minha crítica seja considerada por Márcio Victor e que ele possa dar as suas respostas criativas: sempre torço pelo artista, mesmo que o crítico seja eu. Por ora, fica aqui a minha reprovação a essa 'Dor de Mãe', que a meu ver, se soma, pela contramão, ao momento ruim do pagode baixaria baiano. Aliás, tenho brincado que a única coisa pior que o pagode baixaria, na Bahia de hoje em dia, é a nefasta 'Lei Anti-Baixaria' (tri-rimou!). Essa amolecida do Psirico também. Márcio, faça música sobre o que você quiser, mas, pelamordedeus, encontre o tom. Como é preciso redizer sempre o óbvio, repito que minhas ressalvas não são de ordem moral, mas estética. Música de duplo sentido, de triplo sentido, nonsense, protesto, pretexto... tudo tá valendo se a alma não é pequena. Está na contracapa de Chega de Saudade, de João Gilberto: "Ele não subestima a sensibilidade do povo". Assinado: Antonio Carlos Jobim. PS: Caymmi também acha.

Ouça abaixo a nova música do Psirico:

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