Sábado, 02 de julho de 2022

A Amazônia morre e mata

Em 2022, a floresta amazônica está muito mais destruída e o volume de crimes perpetrados sob o olhar complacente do estado inchou como bolo com excesso de fermento.

A Amazônia morre e mata

Foto: Reprodução

Por: Malu Fontes no dia 09 de junho de 2022 às 09:50

Em dezembro de 1988, Chico Mendes foi assassinado, em Xapuri, no Acre. Em fevereiro de 2005, a missionária Dorothy Stang foi assassinada, em Anapu, no Pará. Entre a morte de Chico Mendes e a da irmã Dorothy, por razões muito parecidas, e entre as duas e o estado de coisas em que se encontram os santuários ambientais brasileiros, sua fauna, sua flora e a vida das populações para quem é fundamental o equilíbrio de tudo isso, as coisas pioraram. E muito.

O Estado brasileiro, se não fizesse nada para prejudicar os biomas mais importantes do país, já estaria errado. E dizer o quê, quando faz muita coisa, para muito além da omissão, para piorar as coisas? O que dizer dos gestores públicos que, no processo de destruição, ficam ao lado dos protagonistas dos combos de crimes perpetrados no Pantanal e, principalmente, na Amazônia? Estão aí, em falas públicas, em documentos oficiais, em discursos no Congresso, em eventos televisivos de entidades do agro, da mineração e da extração de madeira, as certezas todas de que os crimes ambientais sempre compensam, sob a ótica de quem os comete.

Mais de 30 anos depois do assassinato de Chico Mendes, e mesmo com seu nome inscrito nos mais ilustres memoriais do ambientalismo internacional, a racionalidade pede que deixemos de lado os idealismos e as hipocrisias good vibes e admitir: sua morte foi em vão. Do mesmo modo, a de irmã Dorothy também foi. Em 2022, a floresta amazônica está muito mais destruída e o volume de crimes perpetrados sob o olhar complacente do estado inchou como bolo com excesso de fermento.

Enquanto este texto é escrito, um jornalista inglês, Dom Phillips, que há mais de 15 anos dedica sua vida a fazer coberturas dos problemas da Amazônia para todo o mundo, e o indigenista brasileiro Bruno Ferreira, funcionário licenciado da Funai, estão desaparecidos há quatro dias, no Vale do Javari, no estado do Amazonas. O Vale é uma área equivalente à Áustria, em hectares, e uma das maiores concentrações da floresta de povos isolados. Essa denominação é dada a aldeias indígenas que voluntariamente optaram, nos últimos anos, a isolarem-se na floresta, a rechaçar o contato com os brancos, em nome da autoproteção.

Um acidente com o barco novo e abastecido em que navegavam nas primeiras horas de domingo em um trajeto de apenas duas horas é possível? Sim, mas improvável, para todo mundo que vive e circula todos os dias nos rios e ‘furos de rios’ da região, com barcos ou avoadeiras. Varreduras, modo de dizer, já foram feitas e refeitas ininterruptamente desde o atraso da chegada da dupla onde era esperada.

TRAFICANTES PERUANOS

A junção da Marinha, da Polícia Federal e de organismos internacionais elevou as buscas por água, terra e ar. Podem estar vivos, feridos, sequestrados e sobreviverem, reaparecerem, claro. Mas, no cenário brasileiro, e não por uma questão de pessimismo, mas de senso de realismo, o que se espera inicialmente é o pior, a repetição covarde dos crimes que silenciaram Dorothy e Chico Mendes.

Pesquisadores, lideranças comunitárias, indigenistas e ambientalistas há tempos vêm denunciando o que chamam de combo de crimes no Vale do Javari. São pescadores invasores, em grupos organizados, madeireiros e traficantes de madeira derrubada ilegalmente, garimpeiros ilegais, grileiros das terras indígenas, tudo junto contando com muito mais apoio do poder público federal e algum do poder local do que com punição dos órgãos que tentam fazer o pouco que conseguem. E diz-se que recentemente há um agravante, bem novo nos métodos de violência aplicados contra ambientalistas e indigenistas: os traficantes de drogas peruanos ou a eles associados. 

Uma das linhas de investigação adotadas desde as primeiras informações do desaparecimento de Dom Phillips e Bruno Ferreira é ancorada na possibilidade de os traficantes os terem interceptado numa emboscada. Pelos rios e furos dos rios da região, o tráfico de drogas escoa a pasta base de cocaína extraída no lado peruano da floresta para o Brasil, onde parte abastece o mercado interno e parte segue para o mercado internacional. Se for o caso, as mortes de lideranças na Amazônia profunda atingiram um outro patamar. Enquanto isso, em nosso confortinho inflacionado de classe média urbana, o desconsolo mistura-se ao desejo de dar mute quando um desses especialistas cheios de títulos afirma em horário nobre que droga… ah, droga, é só falta de informação e falta de acolhimento familiar. Falta combinar com um traficante de pasta de cocaína peruana,
não é senhores?
 

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