Segunda-feira, 08 de agosto de 2022

Uma bala no meio do caminho

Onde vamos parar? A cada crime desses que parecem insuperáveis na escala da barbárie, repete-se essa pergunta

Uma bala no meio do caminho

Foto: Reprodução

Por: Malu Fontes no dia 04 de agosto de 2022 às 13:35

Onde vamos parar? A cada crime desses que parecem insuperáveis na escala da barbárie, repete-se essa pergunta. Não vamos parar. E esse é o problema. Não é Salvador. É o país inteiro que continua em movimento rápido rumo ao narcotráfico, às mortes violentas, às gangues, aos zumbis e à insegurança pública, distanciando-se de qualquer perspectiva de solução

As duas mulheres que avançaram sobre duas meninas e a mãe que as levava à escola e uma atira praticamente à queima-roupa, matando Cristal Rodrigues, o ladrão que baleou na cabeça a nutricionista Esperança Cedraz, a bala perdida que achou e matou a senhora que caminhava na Barros Reis, os homens a cavalo que perseguiram e arrombaram a porta de um ônibus na Avenida Brasil e as agressões da gangue do mata-leão no centro de São Paulo são extrato do mesmo país incapaz de apresentar soluções mínimas para seus tumores sociais. A gente continua pedindo polícia, justiça e leis enquanto vai sentindo mais medo, sangrando mais e enterrando mais gente.

Para boa parte das classes médias e altas que se armaram até os dentes nos últimos quatro anos e dos ardorosos cristãos contrários ao aborto, essa perspectiva não faz sentido, pois, se fizesse, fariam eco à pergunta. Por que os patriotas com Deus, pela família e pela liberdade e as pessoas de bem não cobram aos seus líderes que briguem por coisas elementares, como construção de espaços para creches e escolas de tempo integral, com comida e higiene para socorrer famílias pobres com crianças em casa? Isso tem custo irrelevante diante do custo médico, policial, jurídico e penitenciário representado pelas consequências da criminalidade. 

O noiado e as crianças pobres

Os conservadores têm respostas na ponta da língua. Criminalidade e violência não têm, segundo eles, nada a ver com pobreza. Ah, tá. Com o narcotráfico azeitando as engrenagens, organizado em facções e arregimentando mão de obra para substituir os milhares que morrem em confrontos, operações e queimas de arquivo, é nas classes médias e altas que vão ser recrutados os soldados de reposição? E os zumbis que indiferenciam a vida e a nóia nas cracolândias das grandes cidades devem ser, a maioria, para quem não acredita na relação entre pobreza e insegurança pública, descendentes da classe média e bem formados. 

Não se enfrenta tráfico, violência e miséria só com polícia e assombro. Todo assaltante, traficante ou noiado jovem ou adulto jovem um dia já foi criança, a maioria crianças sem nada, nem mesmo família. Quem não se importa com a infância miserável de hoje e se assombra só com a bala que nos espreita no meio do caminho nunca entendeu o que está acontecendo ao redor.

Não é mais sobre as crianças pobres. É sobre todo mundo e a redução das chances de qualquer um andar pela rua sem medo do encontro com um tiro no peito, na cabeça. Terça-feira uma bala interrompeu Cristal. Vão prender as duas mulheres que a mataram. Mas a história vai se repetir, bem parecida, com outras pessoas sob as mesmas circunstâncias.

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