Domingo, 01 de agosto de 2021

A humanidade evoluída na selfie da vacina 

Garantir os likes nas redes é tão ou mais importante que a vacinação em si

A humanidade evoluída na selfie da vacina 

Foto: Reprodução

Por: Malu Fontes no dia 17 de junho de 2021 às 17:50

Dois exemplares da humanidade que, segundo os good vibes porta-vozes da positividade, sairia muito melhor e evoluída da pandemia, afinal o vírus é professor e veio para ensinar coisas, deram o ar da graça nessa semana no posto drive-thru de vacinação no campus da UFBA de Ondina. Irritadíssimas, filha e mãe ficaram furiosas porque a vacinadora não podia lhe mostrar, na fila de carros, o frasco de onde havia saído o líquido da ampola da vacina que seria aplicada. Agressivas, ao ponto de precisarem ser contidas para voltar pra dentro do automóvel, gritavam, xingavam, e a filha acusava as vacinadoras de terem batido em sua mãe. Batido. 

Sim, as pessoas, em seus carros, querem que os profissionais de saúde que aplicam as vacinas voltem para as tendas para pegar os recipientes de onde saiu o imunizante da seringa, sem que tenham que sair da fila de carros. Ancoram sua exigência nas evidências já registradas por aí de aplicação de vacinas de vento e avançam uma casinha na desconfiança: a ampola tem líquido, mas querem ver o frasco de onde aquilo saiu e querem ser atendidas nessa cobrança em seus carros. No drive-thru do McDonald’s, ninguém exige ver o saco de batatas de onde saíram as fritas, mas vacinadora é vacinadora. Tem que ir buscar o frasco, se não quiser enfrentar agressividade e escândalo. 

Se as imagens de mãe e filha sendo contidas ao descerem do carro agressivas já eram suficientemente repulsivas na tela da TV, a cena e o espanto pioram quando uma vacinadora aparece narrando para a repórter os maus tratos de que tem sido vítima por parte da população que vai se vacinar. É grande a quantidade de gente que, mais preocupada em registrar a cena para postar nas redes sociais, não presta atenção à ampola nem ao pedido das vacinadoras para que olhem a inoculação. Uma vez feita a foto, voltam à realidade e, como o procedimento é muito rápido, reagem perguntando cadê o líquido da ampola, por que foi tão rápido, cadê o frasco. 

CAPITÃ CANCELADA - E a falta de noção avança. Como garantir os likes nas redes é tão ou mais importante que a vacinação em si, a humanidade evoluída tem sido forçada a demandar da equipe de vacinação um plus. Quem nunca ficou insatisfeitíssimo com o que viu de si na tela do celular e quis repetir o close mais de uma, de duas ou de três vezes? Pois é, esse tem sido um fenômeno presenciado pelas vacinadoras. 

Em entrevista, uma delas testemunha as queixas de vacinados que, por não gostar da estética do registro fotográfico, pedem para os profissionais de saúde simularem com a agulha uma inoculação de mentirinha, só para garantir a selfie. Se vale a máxima de ‘o não já se tem, então o que custa lutar por sim’, que mal há no pedido para o faz de conta? O problema está é no fato de as equipes terem muito o que fazer, de estarem ali para fazer o seu trabalho e não cenografia para compor a cena alheia de feed das redes. Mas, por dizerem não à simulação, são os vacinadores que têm sido ofendidos e xingados. 

E por falar em ofensa, xingamento e selfie da vacina, quem recebeu a rebordosa por postar o close da imunização foi a capitã cloroquina, a médica Mayra Pinheiro, secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, do Ministério da Saúde. Após postar foto anunciando sua vacinação, ela foi objeto de cancelamento do bolsonarismo, boquiaberto e decepcionado, por vê-la recorrendo à vacina. Como assim, uma moça tão esclarecida fazendo publicidade de vacina? Mayra sentiu o peso da ira dos aliados e desativou os comentários.

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