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'Preto desvaloriza o produto anunciado', disse publicitário Ênio Mainardi em 1988

Em documentário sobre a abolição, ele, que morreu em agosto desse ano, disse ainda que "o negro não quer ser negro"

['Preto desvaloriza o produto anunciado', disse publicitário Ênio Mainardi em 1988]
Foto : Divulgação

Por James Martins no dia 26 de Outubro de 2020 ⋅ 10:16

A discussão sobre representatividade racial na publicidade não começou hoje no Brasil. É um dado óbvio do racismo nosso de cada dia que, no país de maioria negromestiça, os comerciais sejam quase invariavelmente estrelados por pessoas brancas. Em 1988, por ocasião do centenário da abolição da escravatura, a Fundação Padre Anchieta produziu o documentário "O Brasil Negro" e ali o publicitário Ênio Mainardi dá sua versão dos fatos: "Eu, pessoalmente, não botaria um preto nos meus comerciais porque eu acho que o preto desvaloriza o produto anunciado", diz tranquilamente.

Diante da mão preta que segura o microfone no plano, o pai do escritor e roteirista Diogo Mainardi continua: "Eu acho que as poucas vezes que o preto apareceu num comercial, ele apareceu pra compor politicamente... E mais: o negro não quer ser negro, né?", pergunta, como que buscando a concordância da repórter. 

E conclui: "Se você anunciar o produto mostrando um negro, eu duvido que ele se vendo retratado ele diga 'ai, que legal!'. Tanto que não sou eu que faço restrição a negro. É a propaganda que não usa o negro de maneira normal, rotineira".

A fala, que não dura nem um minuto, é material para páginas e páginas de análise. Me lembrou, por exemplo, o anúncio norte-americano do Cadillac Fleetwood Borigham 1974, que exibia a fotografia de um cirurgião negro e os dizeres: "Eu não dirijo o carro pelo prestígio. Eu o dirijo pelos meus próprios sentimentos de satisfação". E também o Centro de Informação e Documentação do Artista Negro (Cidan), criado por Zezé Mota em 1984 justamente visando furar o bloqueio para modelos e atores negros no Brasil.

Em sua grossa franqueza, porém, o publicitário Ênio Mainardi, que morreu em agosto, de Covid-19, criador do slogan "Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?", me fez pensar ainda em outra figura polêmica, também divulgador de gêneros alimentícios. Aquele Luiz dos Santos Vilhena, helenista e cronista de costumes da Cidade da Bahia do entresséculos XVIII/XIX, o primeiro, que se saiba, a grafar a palavra acarajé.

Em sua "Recopilação de Notícias Soteropolitanas e Brasílicas", ele anotou: "Não deixa de ser digno de reparo ver que das casas mais opulentas desta cidade, onde andam os contratos e negociações de maior porte, saem oito, dez e mais negros a vender pelas ruas, a pregão, as coisas mais insignificantes e vis, como sejam mocotós (isto é, mãos-de-vaca), carurus, vatapás, mingaus, pamonhas, canjicas, acassás, acarajés, abarás (...) ótimos, muitos, pelo seu asseio, para tomar por vomitórios".

Pois, por seu asseio, a fala de Ênio também se mostrou ótima para tomar por vomitório. Dá nojo, náuseas. E, sem necessariamente precisar reacender polêmicas pessoais (hoje em dia ele seria cancelado? bi-cancelado?), a voz do morto serve para reacender e reforçar a discussão sobre capital, representatividade e racismo. Esse sim bem vivo no país. Veja:

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