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A eleição interminável

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professora da Facom/UFBA e colaboradora da Rádio Metrópole

[A eleição interminável]
Foto : Angeluci Figueiredo

Por Malu Fontes no dia 05 de Novembro de 2020 ⋅ 08:07

Delegados, desproporcionalidade entre os estados, cinturão da ferrugem, estados estratégicos, voto indireto, latinos conservadores, evangélicos da Flórida, interferências tecnológicas suspeitas da Rússia e da Estônia, votos pelo correio, judiciliazação dos resultados, risco de vitória do derrotado pelo voto popular e o fim da tinta da impressora dos resultados num condado deixando o mundo em suspense. Todos esses elementos fazem a democracia da nação mais poderosa do mundo ter a eleição mais confusa e anacrônica que se conhece. 

Desde 1788 regida pela mesma Constituição, a eleição desta semana elege o 59º presidente dos Estados Unidos. As coisas andam tão mal no mundo que, nos últimos meses, a impressão era a de que estávamos diante de uma eleição para presidente do mundo. De um lado, os pró-Trump, conservadores e defensores das teses mais estapafúrdias, essas que levam analistas políticos a desenharem como morrem as democracias. São mentiras de estado, teorias conspiratórias, ameaças de um comunismo fantasma que vai dominar o mundo, prisão de crianças filhos de imigrantes, negação da ciência e retrocesso de direitos civis.

Do outro lado, um senhorzinho de 77 anos, Joe Biden, democrata, com carisma equivalente ao de uma planta de plástico e de quem os humoristas fazem piadas que beiram o mórbido: ah, ainda está respirando após o debate. O máximo do entusiamo a que  chegavam os torcedores de Biden eram desabafos admitindo o fim de mundo a que chegamos. Ter que torcer para o velhinho democrata e campeão de gafes vencer o fanfarrão estúpido que caiu por um acidente na Casa Branca em 2016.

FORMIGA - E, apesar da torcida por Biden em nome de algum apreço pela democracia, na prática, excluindo-se as aberrações de Donald Trump, o papel dos Estados Unidos no mundo muda muito pouco com um democrata ou um conservador eleito. Um meme recente traduzia o que muda no comportamento do país. Dois aviões dividem a tela. Ambos soturnos e cuspindo bombas e mísseis em algum lugar do planeta. O primeiro, um avião republicano, sem qualquer imagem em sua estrutura. O segundo, um avião democrata, tem 3 palavras de ordem adesivadas: ‘black lives matter’, ‘yes, we can’ e o arco íris símbolo da diversidade sexual do movimento LGBTQI+. É ironia trágica, mas bem próxima do real. Seja quem for o ocupante da Casa Branca, os Estados Unidos continuarão a ser o que acreditam ser: a polícia do mundo.

Fora de lá, deve ser consenso: como um país tão rico e detentor de tecnologias que mudam, há décadas, o jeito das pessoas estarem e viverem, um país que manda gente para a lua, foguetes para tudo quanto é teto e buraco do universo, constrói satélites capazes de, do espaço, localizarem uma formiga, continua votando em 2020 como votava em 1788? E não se trata de manter o que funciona e dá certo. A cada eleição é a mesma confusão, interna, quando se sabe que qualquer país do mundo é capaz, hoje, de realizar uma eleição em um dia e fazer o óbvio: fazer cada cidadão apto a participar do sistema eleitoral valer um voto, e pronto. 

 

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