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A prisão da omissa

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professora da Facom/UFBA e colaboradora da Rádio Metrópole

[A prisão da omissa]
Foto : Angeluci Figueiredo

Por Malu Fontes no dia 26 de Novembro de 2020 ⋅ 08:04

A prisão e o indiciamento, por homicídio, de Adriana Alves Dutra, agente de fiscalização do Carrefour de Porto Alegre, a mulher que aparece filmando ou usando um radiocomunicador durante as agressões que mataram João Alberto Silveira Freitas, soou como um alento para quem se pergunta por que ninguém em torno daquela cena tentou impedir o desfecho que se viu. Adriana parecia um misto de personagem perversa de Black Mirror e de um juiz equivocado num ringue. Seus gestos corporais e as poucas palavras que pronunciou durante a barbárie eram não apenas de alguém omisso, mas de quem tinha lado e não arredaria o pé de sua função até ter certeza do esmagamento da vítima.

Além de gravar, indiferente e de bem perto, toda a selvageria, Adriana ainda adverte a vítima e ameaça uma testemunha que filmava o ato. A João Alberto, já de bruços no chão e com os dois seguranças que o mataram apoiados sobre suas custas, Adriana avisa que a brigada irá levá-lo e exige: “e sem cena, tá?” a um motoboy que registrava tudo com o celular, identificado pelo fato de ele ser entregador de aplicativo e frequentar a loja trabalhando, Adriana avisa: “não faz isso [filmar] que eu vou te queimar na loja”.

No depoimento à polícia, Adriana continuou cometendo erros. Ao narrar os fatos na delegacia, ela referiu-se aos seguranças Magno Braz Borges, 30 anos, e Giovane Gaspar da Silva, 24, também Policial Militar, ambos subordinados a ela, como clientes da loja. Os dois foram presos em flagrante na noite do crime. Para a polícia, ela teve participação decisiva nas agressões e, consequentemente, na morte de João Alberto porque tinha poder de comando sobre os agressores, o que equivale a coautoria do crime.

A morte de João Alberto não para de gerar prejuízos para a rede Carrefour. Embora um dia após o episódio as ações da empresa na bolsa de valores tenham subido, logo depois a curva mudou de rumo. As ações caíram, continuam em queda, e desde então a Carrefour Brasil já perdeu cerca de R$ 2,2 bilhões em valor de mercado. Outras reações negativas continuam se espraiando. Nessa segunda-feira, a editora Ediouro anunciou a suspensão da distribuição do livro “A empresa antirracista: como CEOs e altas lideranças estão agindo para incluir negros e negras nas Grandes Corporações”, uma compilação de iniciativas de grandes marcas globais para combater o racismo. A razão da suspensão é o fato de um dos entrevistados ser o CEO do Carrefour no Brasil, Noël Prioux.

João Alberto está morto, o Carrefour está usando seus bilhões para gerenciar a crise de imagem e Adriana está presa por lavar as mãos numa cena de assassinato. E, agora, já temos outra tragédia brasileira para preencher as páginas dos jornais e novas imagens para ilustrar os telejornais. Vamos agora para um outro episódio: contar os corpos e as histórias da pilha de cadáveres do acidente de trânsito no interior de São Paulo. E como 2020 veio para marcar tudo a ferro, fogo e morte, a mão invisível de Deus levou Maradona embora. 

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