Bahia

Ouça a segunda matéria especial sobre a trajetória política de Waldir Pires

Quando o golpe militar eclodiu no Brasil, Waldir Pires era o Consultor Geral da República do governo João Goulart, e ele foi, junto com Darcy Ribeiro, a última autoridade da democracia brasileira a deixar o Palácio do Planalto, na madrugada de 2 de abril de 1964. [Leia mais...]

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Foto : Reprodução/Memória em Jequié

Por Nardele Gomes no dia 22 de Outubro de 2016 ⋅ 16:00

Quando o golpe militar eclodiu no Brasil, Waldir Pires era o Consultor Geral da República do governo João Goulart, e ele foi, junto com Darcy Ribeiro, a última autoridade da democracia brasileira a deixar o Palácio do Planalto, na madrugada de 2 de abril de 1964. Waldir Pires passou seis anos no exílio, o primeiro deles no Uruguai e os restantes na França. Voltou ao Brasil em 1970 e seguiu para o Rio de Janeiro, onde trabalhou no setor privado e participou ativamente da luta pela volta da democracia. Com a revogação do Ato Institucional número 5, volta à Bahia em 1979, com seus direitos políticos recuperados.

Mário Kertesz fala sobre a importância que Waldir Pires teve na política baiana do período da reabertura política no Brasil. "Waldir teve uma participação importante, quando voltou ficou um tempo no Rio de Janeiro, depois veio para Salvador, e eu comecei a ter contato com ele pessoalmente quando eu tava saindo da prefeitura nomeado por Antônio Carlos Magalhães. Ele foi uma das primeiras pessoas a quem eu comuniquei meu rompimento com Antônio Carlos. A partir daí, me aproximei bastante dele e ví que ele lutou muito para a vitória das oposições. Ele aceitou deixar de ser candidato a governador para Roberto Santos ser candidato, foi candidato ao senado e apoiou Roberto em outra oportunidade", disse.

O político baiano Filemon Matos também conta como foi a batalha junto a Waldir na campanha pela força das oposições na Bahia naquele período. "A oposição no interior era vista como algo assim que criava um certo medo, receio. Waldir em nenhum momento temeu nada e nem nós temíamos nada naquele momento. Nós partíamos pra fazer comícios até em bancos de jardim e as vezes com as pessoas nos assistindo não nas praças, mas dentro das casas pelas janelas, porque era algo que podia comprometê-las. Fomos aconselhados a não entrar em algumas cidades. Foi uma batalha muito grande. Isso para marcar a presença da oposição no interior do estado", declarou.

Em 1986, já depois do fim da ditadura militar, Waldir candidatou-se ao governo da Bahia, pelo PMDB. Concorria principalmente com Josaphat Marinho, do PFL. No dia da eleição, 15 de novembro, a votação de Waldir ultrapassou o dobro da votação de seu concorrente. Ele teve 66% dos votos, enquanto Josaphat teve apenas 30%. A Bahia demonstrou nas urnas o desejo pelo fim do ciclo de poder de Antônio Carlos Magalhães, já que João Durval Carneiro, seu antecessor, havia sido eleito com o apoio de ACM, que também já tinha sido governador duas vezes.

O político baiano e ex-prefeito de Salvador, Jorge Hage, fala sobre o início de sua ligação com Waldir Pires, e sobre a dimensão da vitória dele nas eleições de 1986. "Eu comecei a militância junto com Waldir quando ele voltou do exílio. Nessa ocasião, nós começamos o trabalho de estruturação primeiro da campanha de 82, depois continuamos e em 86 ele teve aquela vitória estrondosa para o governo do estado, vencendo adversários históricos, imbatíveis", contou.

Mas mesmo tendo esta tão grandiosa vitória, Waldir Pires renunciou ao governo da Bahia em 1989. Tinha o desejo de se candidatar à presidência da República, acabou compondo a chapa com Ulysses Guimarães candidato a presidente e ele a seu vice. O jornalista baiano Emiliano José fala sobre o episódio. "Não é uma coisa tão fácil de explicar. Não creio que ele tenha resolvido isso. Se nós observadores externos olhássemos com alguma frieza hoje à distância poderíamos concluir a luz dos fatos que ele cometeu um erro. Ele diz que ele fez aquilo e creio na sinceridade do que ele diz, porque ele pensou no Brasil. Não havia solução baiana sem a resolução do problema nacional e ele acreditava que com 22 governadores que o PMDB tinha, era impossível a Ulysses não ganhar as eleições. Ele se sentiu na obrigação física, política e moral de emprestar o nome dele àquela luta. Evidentemente, os que têm uma visão crítica daquele episódio não concorda com isso e considera que aquilo foi um erro e um erro grave", disse. A chapa de Ulysses Guimarães acabou ficando em sétimo lugar, e o Brasil elegeu Fernando Collor de Mello.

Na Bahia, assumiu o vice-governador Nilo Coelho. Todas essas circunstâncias acabaram favorecendo o retorno de Antônio Carlos Magalhães ao governo da Bahia na eleição seguinte.

Na próxima e última matéria desta série especial, vamos ouvir o que o próprio Waldir Pires diz sobre sua renúncia em 89; relembrar como sua trajetória política seguiu a partir dali e ouvir as homenagens de seus amigos em seu aniversário de 90 anos de idade.

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