Bahia

Emissora 14,8% baiana: TVE é basicamente uma retransmissora da TV Brasil

Oferecer à população conteúdos com a cara da Bahia que pudessem valorizar — de uma forma que as outras emissoras de TV não faziam — a identidade local e difundir a educação através da televisão. Essas foram as justificativas do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (Irdeb) para a criação da TV Educativa da Bahia, em novembro de 1985 [Leia mais...]

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Foto : Tácio Moreira/Metropress

Por Bárbara Silveira no dia 17 de Julho de 2015 ⋅ 14:45

Oferecer à população conteúdos com a cara da Bahia que pudessem valorizar — de uma forma que as outras emissoras de TV não faziam — a identidade local e difundir a educação através da televisão. Essas foram as justificativas do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (Irdeb) para a criação da TV Educativa da Bahia, em novembro de 1985, durante a gestão de João Durval Carneiro. 30 anos se passaram e a intenção de transformar o equipamento em referência na produção de conteúdo de interesse público e — o mais importante — na identificação do telespectador com a programação ainda não conseguiu se cumprir.

O vasto aparato tecnológico aliado à mão de obra qualificada, que conta com 298 funcionário custando mais de R$ 9 milhões ao ano para os cofres do governo do estado, são contrapostos com o pequeno volume de conteúdo regional produzido, tendo como maior parte da  programação conteúdos cedidos pela TV Brasil, que não representam a cultura e características do estado.

Baianidade tem direito a só 25 horas de programação na semana inteira

Apesar de a TVE Bahia ressaltar a todo momento a sua baianidade, o telespectador que resolve assisti-la encontra pouquíssimo conteúdo local. Como analisou a Metrópole, das 168 horas de exibição semanal, 25 são de produções feitas no estado — o equivalente a 14,8% da programação.

Para o diretor do Irdeb, José Araripe, a 25 horas não são ideais, mas são suficientes para retratarem o estado. “As emissoras locais produzem muito pouco, e nós produzimos mais que todas as outras juntas. Temos o objetivo de chegar a até 70% de programação local em 2019. Estamos dentro da média nacional, que é 25%, mas a gente chega a bater 30% somada toda a nossa interprogramação”, diz, referindo-se a intervenções locais na programação nacional. Apesar de Araripe falar em 25% de conteúdo local, por meio da programação divulgada nesta semana pela própria TVE, esse número não passa de 15%.

TV com pouca Bahia e muito Sudeste

Para Laurindo Leal Filho, sociólogo, professor aposentado da Universidade de São Paulo e apresentador da TV Brasil — justamente a maior alimentadora da TVE Bahia —, a televisão tem o poder de se tornar difusora da educação e cultura, o que não acontece na maioria dos casos. “Mais de 90% dos brasileiros só se informam pela televisão, então, ela tem um papel muito forte nessa moldagem de comportamento e atitude”, explica.

Segundo o especialista, é fundamental que o estado tenha uma emissora regional presente. “Não quer dizer que não tem que ter a TV pública nacional. Tem que ter. Mas deve existir a regional, com recursos para mostrar para a Bahia o que ela produz. Falo da Bahia, mas serve para todos os estados: é um absurdo que a população fique refém de uma produção de TV produzida no eixo Rio-São Paulo”, explica.

Reuniões exigidas por Rui já começaram

Em entrevista à Metrópole em junho, o governador Rui Costa (PT) adiantou que um estudo estava sendo feito para que mudanças em todo o Irdeb comecem a ser implantadas. “É a única área que não consegui iniciar a mudança que pretendo. Estive em São Paulo para conversar com pessoas de grandes emissoras para pedir apoio. Quero montar aqui a TV Educativa de referência para o país, com viés cultural e de promoção do esporte”, declarou.

De acordo com o diretor do Irdeb, as primeiras reuniões entre a instituição e os secretá- rios de Educação e Comunicação já foram realizadas. “Essa intenção do governador é real, legítima e já estávamos preparados para isso”, diz Araripe. A Metrópole entrou em contato com o secretário de Educação, Osvaldo Barreto, para saber quais as mudanças planejadas, mas nossas ligações não foram retornadas por “motivos de agenda”.

Programas novos

Apesar de adiantar que não são modificações para implantação imediata, o diretor do Irdeb, José Araripe, garante que alterações já estão sendo feitas na grade de programação da TVE Bahia. “Estamos preparando programas novos. As aulas voltadas ao Enem começaram ontem [segunda-feira], e estaremos lançando, até outubro, o campeonato dos jogos estudantis, com jogos ao vivo do ginásio de esportes de Cajazeiras e de Pituaçu, vendo o esporte como uma forma de educação, para incentivar o jovem a ter bons hábitos”, explica.

Formar público que exija qualidade

Para Araripe, a produção local não pode ser medida somente pela grade de programação divulgada. “Vivemos em um mundo em que as pessoas querem programação pequena. Esse sonho de ter uma televisão 100% baiana não é uma obrigação. Porque se a gente faz parte de uma rede pública, e você tem o investimento de todo o país com a rede pública, não tem razão para ser 100% programação baiana. Nós temos que espelhar o Brasil”, afirma.

Segundo Laurindo Leal Filho, a TVE Bahia deve formar um público que exija programação de qualidade das demais emissoras. “Com a digitalização, é fundamental que tenhamos emissoras fortes em todos os estados”, opina.


Editorial por Mário Kertész

Eu tenho há algum tempo feito uma luta no sentido de que o Irdeb, que eu considero um órgão importantíssimo do governo, esteja mais próximo dos objetivos do governador atual, Rui Costa, no sentido de ele servir a esse projeto educacional e cultural do governo. E eu acho que hoje não serve.

Eu fiz questão de chamar a atenção disso quando o governdaor veio pessoalmente aqui na rádio. Mas os atuais dirigentes e a turma lá do Irdeb estão pensando que é uma coisa de ordem pessoal, que eu quero colocar alguém ou tirar alguém. Eu não tenho o menor interesse em ninguém ou em cargo nenhum do governo. Nenhum. Agora, não adianta ir por aí, porque eu vou continuar lutando para que o Irdeb se transforme em um instrumento importante da nossa comunidade, o que hoje não é.

O governo gasta muito, gastou muito em equipamentos ótimos e em um pessoal de ótima qualidade, mas que não está bem orientado. Eu vou continuar nessa luta. E não adianta ficar dizendo que é interesse pessoal, que eu quero nomear alguém ou desnomear alguém. Não tenho nada com isso. Não me interessa. Mas vou continuar, porque acho que o Irdeb está muito mal aproveitado há muito tempo.

Irdeb contesta tempo de programação local

Apesar da programação disponibilizada no site da TVE informar apenas 25 horas de programação local por semana, ou 100 horas mensais, o diretor do Irdeb, José Araripe contesta a informação disponibilizada pelo próprio Instituto.
De acordo com Araripe, são exibidos mensalmente 124 horas de programas produzidos pela TVE por mês, e a diferença no cálculo seria justificada pela interprogramação exibida no intervalo de cada atração.

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