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"Albergaria ligou o foda-se às patrulhas. E merece reverência", diz Malu Fontes

O corpo do professor e antropólogo Roberto Albergaria, um dos maiores nomes da história da Universidade Federal da Bahia e parte importantíssima dos 15 anos da Rádio Metrópole, foi sepultado no fim da manhã deste domingo (4). Amiga de 'Albreguinha' — como ele mesmo se chamava — há 27 anos, a jornalista Malu Fontes falou ao Metro1 sobre o tamanho da lacuna que fica na inteligência baiana. [Leia mais...]

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Foto : Matheus Morais/Metropress

Por Felipe Paranhos* no dia 05 de Julho de 2015 ⋅ 12:31

O corpo do professor e antropólogo Roberto Albergaria, um dos maiores nomes da história da Universidade Federal da Bahia e parte importantíssima dos 15 anos da Rádio Metrópole, foi sepultado no fim da manhã deste domingo (4). Amiga de 'Albreguinha' — como ele mesmo se chamava — há 27 anos, a jornalista Malu Fontes falou ao Metro1 sobre o tamanho da lacuna que fica na inteligência baiana.

Veja o que disse Malu, professora e jornalista, sobre Albergaria:

Mais triste do que a gente ficar mais burro, porque a burrice às vezes faz um pouco de bem, é ficar mais triste. Albergaria, através daquele jeito amolecado dele, informal ao extremo, com linguagem popular, com palavrão no ar — que ele não tava nem aí —, nos fazia pensar de uma maneira inteligente, mas também gargalhar. O humor é uma das formas mais inteligentes de provocação. É como se a coisa entrasse por osmose na cabeça da gente. A gente está achando aquilo engraçado e não se dá conta, e ao mesmo tempo registra quanto aquilo é profundo para questionar. O humor é ambíguo. É uma faca que entra sem machucar, sem cortar, e, neste sentido, Albergaria tinha um talento nato. 

Eu me lembro recentemente de alguams polêmicas dele na rádio, no último Carnaval, em relação à cultura, aos usos políticos do marketing, essa questão em torno de Igor Kannário... Eu me lembro de como ele falava com humor, mas não como algo contra as pessoas, como contra o próprio Kannário. Mas de como funcionam os mecanismos da cultura, do poder, do marketing eleitoral, em torno da apropriação do que está acontecendo. E ele fazia isso com muita picardia, com muito humor, dando risada, com aqueles termos dele — miseravão, piriguete, putoso... Embora ele descontruísse essa linguagem teórica dos livros, ele era extremamente lido, um homem culto, bem-informado. O que ele fazia era desconstruir a linguagem; ele transformava em uma coisa aparentemente chula, mas o conteúdo dela de chulo não tinha absolutamente nada. 

Eu vou sentir muitas saudades. A gente tinha um afeto pessoal de mais de 27 anos. Eu tinha um carinho muito grande por ele. Uma espécie de professor mais velho. E olha que ele não era tão mais velho assim. Parecia, mas era novo do ponto de vista etário. É muito triste saber que pessoas que têm determinadas características são insubstituíveis. Eu sei que todos os seres humanos são insubstituíveis. Mas, do ponto de vista da universidade, da academia, dos meios de comunicação, quem é capaz de fazer uma leitura crítica da sociologia e do comportamento cotidiano como Albergaria? E coragem também. Ninguém quer se queimar. Todo mundo quer ficar bem com todo mundo, todo mundo é politicamente correto, tem medo das patrulhas. Ele ligou o foda-se para as patrulhas há muito tempo. E isso merece reverência. Hoje, é uma coisa quase judicializada. E ele fazia isso sem ofender ninguém. Não me lembro de Albergaria ofender ninguém. Ele fazia isso com humor, e não com ofensa. 

 

* Com informações de Matheus Morais

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