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"Farinha pela hora da morte": confira o artigo de Jolivaldo Freitas

Semana passada minha crônica saiu assinada no sítio errado. Foi editada no local do jornalista, radialista, escritor e tribuno exemplar França Teixeira, o que não deixa de ser uma honra. Perdi espaço, mas o texto ganhou galardão. [Leia mais...]

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Foto : Divulgação

Por Jolivaldo Freitas no dia 27 de Outubro de 2016 ⋅ 14:00

Semana passada minha crônica saiu assinada no sítio errado. Foi editada no local do jornalista, radialista, escritor e tribuno exemplar França Teixeira, o que não deixa de ser uma honra. Perdi espaço, mas o texto ganhou galardão. Três pessoas me levaram a escolher a profissão de escriba: Carlos Eduardo Novaes, brilhante cronista que passou pelo Jornal do Brasil e pela Tribuna da Bahia. João Ubaldo Ribeiro, meu chefe aqui neste jornal, que antes da fama compartilhou comigo, emocionado,  a primeira prova impressa do seu livro Sargento Getúlio em inglês e também repartiu a alegria de ler os elogios ao mesmo livro saído no New York Times à época. E outra pessoa que me despertou para a escrita foi Carlito Pereira de Brito amigo mais velho do meu grupo lá da Boa Viagem /Mont Serrat/ Imperatriz, que nos ajudou a criar o jornal “O Pegâncio”, de edição única elaborada no melhor estilo big hand, ou seja, na mão.

Carlito, um dos caras mais inteligentes que esta Bahia já teve, trazia sequela da hanseníase da juventude e foi descoberto como redator de textos lúdicos por França Teixeira que o levou para o seu programa esportivo de inteira liderança nos anos 60/70. Aliás, rádio na Bahia teve três grandes momentos que foram a PRA4 – Sociedade da Bahia com seus programas de calouros e novelas; Zé Veneno - esquete dentro do programa de França Teixeira que ajudou a dar fama aos Novos Baianos e a última guinada da Metrópole com Mário Kertész.


Se fosse naquele tempo da rádio França Teixeira estaria esbravejando contra algumas coisas que fazem da Bahia um lugar diferente. Tão atípico quanto meu texto dentro do seu espaço de aforismos e fragmentos modernista/barroco. Com certeza que ele iria achar estranho termos tanto sol e o governo fazendo parque eólico que é mais caro. Importarmos coco de Sergipe e caranguejo do Maranhão. Ver esta Roma negra que é Salvador sem a força política da raça e por aí vai.

Mas queria ver sua cara e seu esbravejar quando soubesse que a farinha – e não é a de copioba, aquela produzida no Morro do Copioba em Maragogipe – que está sendo responsável pelo crescimento nos índices da inflação. Acredite que o quilo da farinha está custando R$ 8 na Feira de São Joaquim; R$ 6 em Santaluz e Feira de Santana e R$ 10 na Ceasa do Rio Vermelho e nas melhores casas do ramo. Os mercadores culpam a seca. Sabe quanto está o quilo do aipim? Variando de R$ 5 a R$ 10, a depender da cara do freguês e de onde você mora. E o caju, que é fruto da época? Em Itaparica, onde se produz caju a dar de pau cada unidade saiu pechinchando a R$ 040.

Um comerciante de São Joaquim garantiu que o baiano não está comendo tanta farinha assim. Revela que houve uma queda muito grande nos últimos tempos, pois as novas gerações preferem outros tipos de produto. Talvez esteja certo. Lá em casa só quem come com farinha sou eu. E ainda sofro gozação, pois meu povo de origem sulista ou raciado diz que sou o último dos baianos farofeiros.

E pensar que a farinha já foi produto tão barato que servia para matar a fome do povo pobre. Quando não tinha pão as mães faziam aquele famoso pirão de café (ensino: faz o café, adoça e quando ele estiver fervendo vai jogando farinha aos poucos. Mexendo a colher sem parar, até ele virar o pirão). Também se fazia bolinho de punheta substituindo a tapioca (ensino: pega a farinha, mistura com açúcar, vai jogando água até ficar uma massa nem muito mole e nem muito seca, amassa no formato de dedo. Enquanto isso bota azeite doce para ferver numa panela e vai colocando os bolinhos na fritura um por um. Depois tira com uma escumadeira e coloca no papel jornal para “chupar” o excesso de óleo. Na hora de servir passa no açúcar com canela. Bom é comer ainda quente).

Farinha também fazia a comida crescer e ninguém ficar com fome. O pirão com ovo era a saída para acabar com a fome quando não tinha mais nada na despensa do pobre (ensino: coloca a água com sal numa panela para ferver. Enquanto isso se pega o ovo e frita mexido numa caçarola. Quando a água ferver vai jogando a farinha aos poucos até formar o pirão. Daí se pega o ovo mexido e com óleo e tudo joga no pirão e mistura. Depois é só dividir). Hoje, nem isso o pobre pode mais fazer. Ovo caro. Farinha cara. Azeite caro. Mais um pouco e o pirão alcança o índice McDonald (Big Mac) de economia, riqueza e desenvolvimento. Como se dizia: farinha pouca meu pirão primeiro.

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