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Jolivaldo Freitas: pobre perde o que não tem quando vem a chuva

A casa que caiu ontem em Pituaçu matando duas crianças, dois adultos e soterrando outros três da família, tenho plena certa que tinha três andares de altura e não possuía a mínima condição sequer de ter um único andar. Tenho absoluta convicção que nada foi feito de forma técnica: um radiê, uma laje, uma parede, uma alvenaria. [Leia mais...]

[Jolivaldo Freitas: pobre perde o que não tem quando vem a chuva]
Foto : Metropress

Por Jolivaldo Freitas no dia 14 de Março de 2018 ⋅ 12:00

“Pobre não tem nada, mas quando chove perde tudo”, foi a frase feita de brincadeira por um colega, certa vez em uma certa redação, em um dia terrível de chuva e tempestade em Salvador, o que gerou um profundo mal-estar e um mal-entendido que acho até hoje queimou a imagem dele perante os colegas que acharam que ele estava agindo como elitista e um escroto do maior galardão. Ele tentou explicar que foi uma brincadeira, que reconhecia de mal gosto, mas o povo da esquerda irada, alguns assessores de ONGs ou organismos oficiais ligados à área social, sequer deixaram explicar e já saíram todos sentando a pua.

Me veio à cabeça esta história depois de ter visto e ouvido na TV uma reportagem mostrando as fortes chuvas que literalmente desabaram na cidade na madrugada de ontem e que alagou, arrastou e derrubou casas, e se não fosse o trabalho que Rui Costa e ACM Neto vêm fazendo nas encostas, cada um mostrando que é mais benfeitor que outro, e enquanto estivermos neste período de eleição é bom para todo mundo e se tivesse eleição a cada seis meses, viraríamos uma Suíça com asfalto da qualidade do norte-americano e casas mais bonitas e firmes que de Nova Jersey, sem falar que teríamos mais hospitais que Tóquio ou Otawa. Na TV uma senhora diz justamente o que falou o colega:

– Eu já não tinha nada e perdi tudo!

Mas o que será que acontece nessa nossa cidade que basta chover uma cusparada, um espirro, um assoar que casas vêm abaixo? A casa que caiu ontem em Pituaçu matando duas crianças, dois adultos e soterrando outros três da família, tenho plena certa que tinha três andares de altura e não possuía a mínima condição sequer de ter um único andar. Tenho absoluta convicção que nada foi feito de forma técnica: um radiê, uma laje, uma parede, uma alvenaria.

Mas você sabe o porquê. Por que pobre não tem dinheiro para pagar a um arquiteto para fazer um projeto. Não tem como arrumar um engenheiro para fazer os cálculos e não dá para pagar a um bom mestre de obras para tocar o sonho. Junta as nicas em um cofrinho e vai comprar cimento aos poucos, ferro nem pensar, tijolos e areia e, quando dá tempo, chama o compadre, o vizinho mais chegado e um amigo e levanta a parede. Vi outro dia no YouTube uma cena típica. Uma senhora levantando sozinha um muro para fazer sua casa. O muro não tinha pilastra, pilares e quando se olhava a parede parecia uma sucuri se contorcendo. Bastaria uma sopro do lobo mau para que a casa – pior que a dos três porquinhos da história infantil – caísse.

Então eu pergunto, onde estão os técnicos da Prefeitura Municipal, dos organismos a quem cabe fiscalizar as obras, que não passam para ver e dizer que assim não dá, que a casa vai cair, que é proibido fazer assim? Quando cai uma casa a prefeitura também tem culpa por omissão de fiscalização, de pedir um parecer técnico, por exemplo. E onde estão entidades que poderiam ajudar e não ajudam? Nos anos 1970, o Instituto dos Arquitetos do Brasil e o Clube de Engenharia, que eram geridos por uma esquerda lúdica e de empatia realmente social, ofereciam ajuda para quem ia lá e pedia para ver se o projeto de construção de uma casa em uma invasão qualquer corria o risco de desabar quando chegasse o vento Noroeste que sempre destelhou tudo e derruba até coqueiro. Mas o que era doce se acabou.

Há outros organismos e instituições que nem vou falar para não me cansar. Quer ver um caso: em vez de os alunos de arquitetura e engenharia ficarem presos nos laboratórios de uma Universidade Federal da Bahia apreendendo as coisas mais de forma teórica que prática, eles não poderiam ser levados a ajudar ao povo que não tem recursos a fazer projetos perenes e adequados, com a supervisão dos professores? Ou será que ninguém mais quer melar o pé de barro? Enquanto assim for, o que vem de cima… Lembrando que ainda faltam chegar as águas de março, a maré de março e as chuvas de inverno. Estou avisando.

jolivaldo.freitas@yahoo.com.br

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