Cultura

Inventor pede apoio para botar o Trio Genérico na rua

Sérgio Paixão é um verdadeiro seguidor da linhagem que se inicia em Nelson Maleiro e passa por Dodô & Osmar e Orlando Tapajós, só não tem dinheiro

[Inventor pede apoio para botar o Trio Genérico na rua]
Foto : Tácio Moreira/Metropress

Por James Martins no dia 06 de Dezembro de 2018 ⋅ 11:30

Nelson Maleiro, Dodô & Osmar e Orlando Tapajós são nomes bem conhecidos da engenharia carnavalesca da Bahia. Já o anônimo Sérgio Paixão, de 53 anos, e legítimo seguidor dessa linhagem de inventores, é a prova viva de que "a tecnologia do povo é a vontade". Morador do Engenho Velho de Brotas, ele é o criador do Trio Genérico: veículo feito com sucata que faz cair o queixo de quem vê e balançar os quadris de quem ouve. “Genérico porque não é original, mas faz o mesmo efeito”, explica.

E, de fato, está tudo lá: desde som e luz até o bar de um trio de verdade. Se fosse um carrinho-de-café, seria um carrinho gigante. Sendo, como é, um trio elétrico, trata-se de um classudo mini-trio. “Eu vendia água na porta do Extra, na Vasco da Gama, e tinha um colega que botou som em um carrinho-de-mão. Eu, que sempre gostei de som, peguei aquela inspiração e também fiz um, que está lá até hoje. Depois, resolvi fazer um carrinho para eventos e, em 2010, terminei de construir o Trio Genérico, que parece sob medida para o Furdunço, por exemplo, mas é bastante anterior", explica Sérgio.

No Trio Genérico muita coisa é adaptada: a corneta é um copo de liquidificador industrial; a antena, um pau-de-selfie; o bar é um isopor com direito a dobradiças, divisão por seções e torneira para degelo. E tudo funciona maravilhosamente! "Tem amassador de latinhas também, que dá um toque ecológico e evita desperdícios", orgulha-se o inventor, manuseando a engrenagem. Ele mostra ainda o balanço da cabine, conseguido com molas de cadeiras-de-rodas que iriam para o lixo: "Do lixo eu fiz esse luxo! A balançadinha lembra aqueles trios do Chiclete com Banana, que agitavam a Praça Castro Alves, né?". Pelo que se ouve e se vê, atrás do Trio Genérico iria até quem já morreu...


O amassador de latinhas: preocupação ecológica e sustentabilidade em uma tacada só

...Iria porque, infelizmente, o Trio Genérico está há 1 ano e meio parado. "Eu já puxei o bloco Gaiola da Loucas, de travestidos, fiz eventos na ilha em natal e réveillon, mas, nesse período estou inativo", lamenta Sérgio, que tem um pequeno comércio em casa, faz faxinas e é compositor. Segundo ele, o veículo precisa de alguns reparos para ficar 100% pronto para enfrentar e enfeitar as ruas. "Tenho que ajeitar toda a parte elétrica, o módulo do grave está quebrado, e também quero fazer adaptações. Sonho colocar uma máquina de fumaça acoplada a dois canos, o efeito, com a luzes, será sensacional!", diz ele, arrepiado, que calcula em R$ 5 mil o custo total da obra. "Se algum empresário se interessasse em patrocinar, seria ótimo", sonha.

Aliás, a história pessoal de Antônio Sérgio da Paixão Santos é roteiro para um épico. "Com 16 dias de vida eu fui jogado no lixo pela mulher que me pariu (não consigo chamar de mãe). Passei muita fome, comi muito peixinho do Dique, muita banana verde, para não morrer, mas dou graças a Deus por ser quem eu sou", diz ele, sem revolta. Pelo contrário, nem a miséria o impediu de se apaixonar pelas discotecas (d'onde tirou parte das inspirações estéticas do Trio Genérico), nem a pouca instrução ("estudei só até a 2ª série") o vedou de ser, de fato, um engenheiro. As soluções encontradas por ele, funcional e esteticamente, para o veículo, falam mais que mil diplomas no país dos bacharéis.


Uma motocicleta achada no lixo é o verdadeiro estandarte do Trio Genérico (Foto: Tácio Moreira)

E se o Trio Genérico tem, entre tantos adereços, um estandarte, é a motocicleta que traz no topo dianteiro. "Achei essa moto no lixo, toda desmontada, ali na Santa Cruz e consertei. Os bancos, por exemplo, são espelhos femininos que eu adaptei, porque não tinha", conta. Se antes ele confessou que, na infância, sentia vergonha até do lixo de sua casa, agora o engenheiro informal revela orgulho da transformação que deu ao lixo das casas alheias: "Essa motinha aí me lembra aquela que Durval Lelys entrava nos shows, sabe? Ela fica no Trio Genérico como um símbolo". 

Por falar em Durval Lelys, Sérgio Paixão, que tem verdadeira paixão por som ("Com meu primeiro salário, como serviços gerais do Hotel Bahia do Sol, eu comprei uma Sonata"), tem também um gosto musical variado, que inclui Dire Straits e outras bandas estrangeiras, mas faz questão de elencar seus preferidos da Axé Music: o próprio Durvalino e Daniela Mercury! "Gosto de vários, é claro, mas esses são os que mais me emocionam. Durval pelas alegorias e Daniela eu passei a ser fã depois que ela veio com música eletrônica no Carnaval", explica.


Molas reaproveitadas garantem o balança (ou o suingue) da frente do Trio Genérico


A mesa Beringher é um xodó do inventor: potência e qualidade atestadas pela reportagem 

Parado, o Trio Genérico é como que um totem da capacidade que o Brasil, em geral, e Salvador em especial têm para desperdiçar suas potencialidades. O próprio Sérgio, criativo e carente como é, simboliza bem esse que talvez seja o pior defeito do subdesenvolvimento: o desencontro entre os talentos e os meios. Com o crescimento dos carnavais de bairro, a exemplo do Santo Antônio Além do Carmo, talvez esse aleijão seja superado já em fevereiro próximo. “Eu estou disponível, quero botar o trio na rua, mas preciso mesmo fazer os reparos porque não dá para confiar no gerador do jeito que está. E a coisa mais feia é uma festa acabar por defeito no som”, diz. E, pela demonstração, feita para a reportagem, no quintal da casa do criador, o Genérico tem potência sonora, visual e de repertório para lá de originais. Agora só falta você!

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