Cultura

'Não é ciúme, é ódio do desejo feminino', diz Contardo Calligaris sobre feminicídio

Escritor e psicanalista italiano lança em conjunto com a também psicanalista Maria Lucia Homem, o novo livro "Coisa de Menina?"

['Não é ciúme, é ódio do desejo feminino', diz Contardo Calligaris sobre feminicídio]
Foto : Divulgação

Por Juliana Almirante no dia 20 de Setembro de 2019 ⋅ 09:11

O escritor e psicanalista italiano Contardo Calligaris afirmou, em entrevista à Rádio Metrópole hoje (20), que casos de feminicídio cometidos por ex-companheiros de mulheres acontecem por conta do ódio ao desejo feminino, não por conta do ciúme. 

Ele lança, na segunda-feira (23), em conjunto com a também psicanalista Maria Lucia Homem, o novo livro "Coisa de Menina?", que revela um diálogo sobre gênero e feminismo.

"Essa 'moda', que só os homens fazem isso, de matar a ex, só os homens fazem isso, o marido ou namorado. Só o homem que vai atrás da ex, seis ou quatro meses depois, anos depois, mata ela, a família dela e a pessoa que ela se juntou. Tem essa coisa de imaginar que a mulher que vivia comigo tinha esse desejo e agora está desejando outro. Não é ciúme, é ódio do desejo feminino. É coisa que precisa ser anulada. Ele vai lá e mata a mulher", avalia.

Para ele, os homens ainda precisam fazer muito esforço para desconstruir a repressão do desejo feminino.  "Temos muito trabalho pela frente. Os homens têm que reconhecer que a mulher não só existe como tem desejo próprio. É um trabalho árduo, mas que certamente vale a pena", considera. 

Contardo acredita que a questão feminina é a grande questão política do século XXI. "Não haverá mudanças e não estou falando de mudanças verdadeiramente de comportamento importantes, sem mudanças radicais da posição da mulher, não apenas na sociedade - isso é a parte fácil, mas claro que tem luta -. A parte mais difícil é mudar a posição da mulher na cabeça dos homens e, às vezes, das próprias mulheres", considera. 

O escritor argumenta quem, por muitos anos e até hoje, a mulher é representada como preposto da tentação sexual. 

"Porque nós saímos de quase 3 mil anos de história, em que a mulher foi a representante do mal e da tentação. Em que o desejo feminino foi considerado como algo que dá medo e que tem que ser reprimido. Isso continua em um número de estupros e violência contra a mulher no país e no número afora", avalia. 

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