Cultura

Opção na pandemia, drive-in atrai público, mas não é unanimidade

Formato oferece diversão dentro dos protocolos de segurança, mas produtores relatam dificuldade para atrair grandes artistas baianos; natureza "excludente" também é uma questão

[Opção na pandemia, drive-in atrai público, mas não é unanimidade]
Foto : GB Souza / Divulgação

Por Juliana Rodrigues no dia 17 de Setembro de 2020 ⋅ 08:00

A liberação da prefeitura de Salvador para o funcionamento dos drive-ins, em 24 de julho, trouxe alento e alternativa aos produtores e artistas que viviam incertezas desde 16 de março, quando começou a valer o decreto municipal que proíbe a realização de eventos com mais de 500 pessoas em meio à pandemia de coronavírus. Até esta quinta (17), já foram mais de 20 shows e espetáculos teatrais realizados nos espaços do segmento na capital baiana, sem contar as exibições de filmes e eventos esportivos.

Os organizadores são unânimes em afirmar que a experiência tem sido um sucesso de público, embora destaquem que o modelo tem prazo de validade curto e não soluciona todos os problemas do setor cultural durante a pandemia. Desde a abertura, no final de julho, o BIG Bompreço Drive-In, instalado no Centro de Convenções, na Boca do Rio, recebeu shows de nomes de projeção nacional, como Vitão e Thiago Arancam, e atrações infantis, a exemplo da Turma da Mônica e dos palhaços Patati e Patatá. O destaque musical deste final de semana é o cantor e compositor Nando Reis.

O diretor de operações, Bruno Portela, explica que houve um esforço para estimular o público a considerar o drive-in como uma alternativa viável. "Quando iniciamos a operação, tivemos um trabalho árduo para formar essa plateia, para que as pessoas entendessem esse novo formato de entretenimento e vissem que ali havia bastante segurança. Ainda existia um receio de sair de casa por parte das pessoas que consomem cultura", diz. Ele considera que o drive-in representa um "sopro de novidade" que vai além do cinema: "Houve um impacto bem no comecinho por causa dos títulos dos filmes, porque as distribuidoras de filmes não estavam liberando os lançamentos para nenhum drive-in do Brasil. Nosso foco foi trazer filmes que estavam no coração das pessoas. O que a gente estava trazendo ali não era uma tela para substituir a televisão de casa, mas uma experiência".

Foto: Divulgação

Sócio da Oquei Entretenimento, o empresário Rafael Cal faz coro com Portela e considera que o cinema não é a atração principal, ao contrário do que acontecia antigamente. A produtora comanda um drive-in que mudou-se na última quinta (10) para a Bahia Marina, na Avenida Contorno, após temporada de um mês no estacionamento do Shopping da Bahia. Segundo Cal, os filmes não atraem tanto público quanto os shows e a programação infantil, mas o retorno, no geral, é satisfatório. "A gente literalmente se reinventou. Nunca imaginei fazer cinema ou espetáculos de teatro na vida. Houve sessões de cinema cheias e sessões medianas, mas graças a Deus nenhuma sessão foi ridícula ou vazia", explicou. Neste final de semana, o espaço recebe nomes como Danniel Vieira e Batifun.

Controvérsias

Embora o modelo do drive-in surja como opção de entretenimento para o público e nova forma de trabalho para o segmento cultural, ainda há controvérsias. Na opinião de Bruno Portela, os artistas da Bahia "não compraram a ideia". "O artista de fora, do eixo Rio-São Paulo, entendeu o projeto, entendeu como ele poderia acessar, mas os daqui da Bahia não. Fizemos de tudo para ter artistas locais, tivemos nomes como a Banda Eva e a Guig Ghetto. Mas não conseguimos atrair os nomes baianos de projeção nacional", lamenta. Rafael Cal, por outro lado, discorda. "Nesse momento de pandemia, procuramos dar prioridade aos artistas baianos, até porque o nosso formato é menor. Todos que a gente entrou em contato aceitaram numa boa, toparam o desafio e fizeram com a gente", afirma.

Foto: Florian Boccia / Divulgação

O coordenador da programação cultural do Goethe-Institut, Leonel Henckes, concorda que há maior "receio" por parte dos artistas baianos, mesmo no segmento alternativo. Localizado no Corredor da Vitória, o instituto realiza exibições de filmes independentes em formato drive-in desde 6 de agosto, sempre com casa cheia, e estuda a possibilidade de abrigar outros tipos de espetáculo. "Estamos pensando em dividir o drive-in ou criar um cinema ao ar livre, como existe na Alemanha, se a gente perceber que mesmo com a reabertura há demanda para atividades deste tipo. É importante pensar em formatos híbridos, formas criativas de fazer arte e cultura. Gostaríamos muito que os artistas de Salvador tivessem mais ímpeto de arriscar nessas propostas". Henckes ainda ressalta o aspecto excludente do drive-in, que torna necessário o acesso por meio de um veículo particular: "O drive-in não é uma coisa com acesso democrático, você precisa ter o seu carro. Nessa temporada de setembro, até alugamos um carro que fica à disposição. Pessoas que são da mesma família, ou moram juntas, e que tiverem vontade de ver um filme em drive-in, mas não têm carro, podem solicitar, e a gente disponibiliza por ordem de solicitação".

Os três espaços têm previsão de encerramento das operações até outubro, com possibilidade de renovação. A autorização da reabertura dos teatros e casas de espetáculo pela prefeitura de Salvador, anunciada na última sexta (11), lança dúvidas sobre a continuidade dos drive-ins. Os operadores afirmam que é preciso avaliar o cenário para tomar decisões, mas confiam na sobrevivência do formato. "Você não fecha agenda de um dia para o outro. Até essa atividade ter uma retomada de forma mais contínua, vai levar ainda um ou dois meses, lembrando que ainda não temos vacina. Acho que ainda não tem nenhum formato que seja tão seguro quanto o drive-in, porque conseguimos controlar o acesso do início ao fim", diz Portela. Na opinião de Cal, drive-ins e espaços tradicionais poderão coexistir em meio à pandemia: "De coração, eu acho que vai ter pra todo mundo".

A visão dos produtores: "reinvenção" e "empobrecimento"

Para os produtores de shows e espetáculos, o drive-in traz novos desafios. O principal deles está nas questões técnicas, como explica o dramaturgo Ricardo Carvalho, diretor da produtora Escritório do Pensamento, que reestreia nesta quinta a peça "5 Segundos" no BIG Bompreço Drive-In. "Eu gosto muito do formato, é grego, remonta aos teatros de arena e tem uma coisa vintage. A adaptação é muito mais técnica, de estar em um espaço aberto, ter elementos de cena que precisam ser adaptados. A captação da voz precisa ser mecânica, temos que usar projeções visuais", pontua. Carvalho frisa que as condições do drive-in não são as ideais para um espetáculo teatral, mas oferecem a possibilidade de reinvenção.

Outros produtores baianos preferem não trabalhar com o formato. É o caso de Fernanda Bezerra, da Maré Produções Culturais, que já realizou eventos como o Festival Sangue Novo e o projeto Padrinhos da Música. Para Fernanda, o drive-in pode ser uma boa solução para shows musicais, mas não oferece uma experiência estética completa. "Não é tudo que funciona [no drive-in]. As condições de execução de um produto artístico precisam ser bem acabadas. No drive-in, a gente empobrece a apresentação de um produto cultural", opina. Outro ponto levantado pela produtora é que a necessidade de ter um carro para acessar o espaço cria um novo obstáculo para o consumo cultural.

A visão do público: elogios e críticas

Quem já viu espetáculos e filmes em drive-in durante a pandemia ressalta o aspecto de "novidade" da experiência. A estudante Monique Marinho esteve em uma sessão de cinema do BIG Bompreço Drive-In e destacou a organização do espaço, bem como os protocolos de segurança. "Gostei do QR-Code que fica do lado do carro para pedir comida e agendar a ida ao banheiro", afirmou Monique, que pretende repetir a dose neste final de semana para ver o show de Nando Reis. Já a bancária Daniela Ribeiro, que levou a filha para o espetáculo da Turma da Mônica, queixou-se da visibilidade do palco. "De onde eu estava não dava para ver nada, não tinha boa iluminação, palco muito baixo. Fui para um evento teatral, se fosse 'cinema' tudo bem", disse.

Programação - 17 a 20 de setembro

BIG Drive-In Salvador

  • Teatro
    • 5 Segundos: Espetáculo-Aula
      • Quinta (17), 19h
      • Ingressos por carro: R$ 60 (professores) e R$ 120  
    • Leandro Hassum: Drive-in Show
      • Sexta (18), 21h30
      • Ingressos por carro: entre R$ 144 e R$ 200
  • Cinema
    • Big Pai, Big Filho
      • Sexta (18), 17h
      • Ingresso por carro: R$ 60
    • Bugigangue no Espaço
      • Sábado (19), 17h
      • Ingresso por carro: R$ 60
    • Paris Pode Esperar
      • Sábado (19), 19h
      • Ingresso por carro: R$ 85
    • Maria do Caritó
      • Domingo (20), 18h
      • Ingresso por carro: R$ 85
    • O Jantar
      • Domingo (20), 18h
      • Ingresso por carro: R$ 85
  • Música
    • Nando Reis : Voz e Violão
      • Sábado (19), 22h
      • Ingressos por carro: entre R$ 200 e R$400

Cine Drive-In Bahia Marina

  • Cinema
    • Desaparecidos
      • Quinta (17), 18h30
      • Ingresso por carro: R$ 88
    • Entrando numa Roubada
      • Sexta (18), 18h30
      • Ingresso por carro: R$ 88
    • Prova de Coragem
      • Sexta (18), 20h45
      • Ingresso por carro: R$ 88
    • Jogo de Xadrez
      • Domingo (20), 19h
      • Ingresso por carro: R$ 88
  • Música
    • Danniel Vieira e Batifun
      • Sábado (19), 17h
      • Ingresso por carro: R$ 121
    • Espaço Musical – Musicalização Infantil
      • Domingo (20), 16h
      • Ingresso por carro: R$ 88

Cinema Drive-In do Goethe-Institut

  • Dorivando Saravá: O Preto que Virou Mar
    • Quinta (17), 20h
    • Ingresso por carro: R$ 10
  • Na Cidade Vazia
    • Sexta (18), 20h
    • Ingresso por carro: R$ 10

Créditos das fotografias - Foto 1: Cine Drive-In Bahia Marina: Divulgação / Foto 2: Cinema Drive-In do Goethe-Institut: Florian Boccia

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