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Com AP atrasado, medalhista olímpica roda Uber e pensa em deixar boxe

“Estou no Brasil. Infelizmente, o país não nos dá a condição de viver apenas do esporte. A gente tem que sobreviver, pagar as nossas contas. Triste, lamentável, mas é isso”, declarou a atleta, em conversa com o Metro1, durante uma corrida. [Leia mais...]

[Com AP atrasado, medalhista olímpica roda Uber e pensa em deixar boxe]
Foto : Roberto Viana/ Sudesb

Por Evilásio Júnior no dia 12 de Janeiro de 2018 ⋅ 13:10

Única mulher brasileira a ganhar uma medalha olímpica no boxe – bronze nos Jogos de Londres, na categoria leve, em 2012 –, aos 36 anos, a pugilista Adriana Araújo pensa em abandonar a carreira. Sem treinar desde o fim de novembro do ano passado, atualmente ela sobrevive com a renda obtida como motorista do Uber na capital baiana e de outros trabalhos informais.

“Estou no Brasil. Infelizmente, o país não nos dá a condição de viver apenas do esporte. A gente tem que sobreviver, pagar as nossas contas. Triste, lamentável, mas é isso”, declarou a atleta, em conversa com o Metro1, durante uma corrida em seu Nissan Sentra branco, onde atua há três meses e ostenta uma avaliação de 4,8, que a coloca na plataforma VIP do aplicativo. “É uma vergonha. Olha, meu amigo, a minha indignação é tanta que você não tem noção da vontade que eu tenho de sair desse meio, do esporte, e caminhar para outra vida, outra área, outras coisas que eu gosto de fazer. É um meio muito sacana”, critica.

Para não deixar os ringues, a boxeadora mantém conversas com um agente de São Paulo, mas o cenário é desanimador. “Eu estou fazendo alguns bicos. Estou esperando apenas marcar umas audiências que eu vou ter com umas pessoas. Eu vou falar com um empresário novamente e, a partir da resposta que ele me der, vou para São Paulo ou encerro a minha carreira de atleta e toco a minha vida. Trabalhar, meu irmão. Preciso pagar minhas contas. Tenho dois meses sem pagar meu apartamento [na Avenida Dom João VI, em Brotas]. Preciso gerar dinheiro. Não posso treinar… e a minha vida pessoal? Cansei de levar meu estado e meu país nas costas e a retribuição é zero. Foram 18 anos dedicados a isso”, lamenta Adriana, ao revelar que o também soteropolitano Robenilson de Jesus – medalha de bronze da modalidade peso-galo no Pan-Americano de Guadalajara, em 2011, no México – também estuda parar.

Falta de investimento – Adriana e Robenilson são vítimas da falta de políticas públicas de incentivo ao esporte no país. Para ela, o problema é nacional, mas no estado a situação é ainda mais difícil. “A Bahia é uma província, infelizmente. O boxe é o carro-chefe do estado, é o esporte que trouxe mais resultados, mesmo assim a gente continua não tendo um apoio digno como a gente deveria ter. Eu garanto que, se eu for para São Paulo, eu vou ter mais retorno”, aposta.

Ela conta que só ganhou dinheiro como lutadora após 10 anos de carreira, quando obteve uma bolsa de R$ 1,5 mil do programa Faz Atleta, do qual também já não faz parte. “Me ajudou muito na época, porque eu recebia um salário de R$ 980 na Coelba [Companhia de Eletricidade do Estado da Bahia], como terceirizada”, relata.

Ela diz ter “sorte” por não ter gerado filhos, mas a situação financeira piorou esta semana quando um dos seis cachorros que cria caiu doente. “Ele está internado no hospital veterinário. Aí só ontem eu já gastei R$ 1,2 mil. Eu não vou deixar o meu bichinho morrer. Ele só tem oito meses”, queixou-se.

Reconhecimento – O alento para Adriana é a receptividade dos passageiros que conduz. Muita gente não só a reconhece, como sempre pede para tirar fotos. “O que eu fiz ficou na história, mas ficou no passado. Infelizmente o nosso país não foi educado para isso, de ter um medalhista olímpico como herói e ser respeitado como tem que ser respeitado. Em qualquer outro país, todo atleta que foi medalhista olímpico tem seu salário vitalício, tem seu lugar na política do esporte”, analisa.

Além da possibilidade de obter um contrato na capital paulista, Adriana Araújo aguarda uma proposta da prefeitura de Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador.

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