Política

Jolivaldo Freitas: "Dormindo no ponto"

Há tempos que não ouço uma frase que os baianos usavam por demais quando alguém era roubado. Quando perdia alguma coisa; no momento em que levava corno; naquele instante em que levava um drible digno de Garrincha ou Messi e principalmente quando era passado para trás em suas aspirações: “Dormiu no ponto”. Dormir no ponto foi o que aconteceu com os estudantes que se municiaram de buzina, apitos, cartazes, faixas, tinta, ovo, água e gritos de guerra para admoestar e protestar contra o presidente Michel Temer lá na Usp em São Paulo no domingo passado, dia de eleições para prefeitos e vereadores.[Leia mais...]

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Foto : Reprodução/Agência Brasil

Por Jolivaldo Freitas no dia 05 de Outubro de 2016 ⋅ 19:31

Há tempos que não ouço uma frase que os baianos usavam por demais quando alguém era roubado. Quando perdia alguma coisa; no momento em que levava corno; naquele instante em que levava um drible digno de Garrincha ou Messi e principalmente quando era passado para trás em suas aspirações: “Dormiu no ponto”. 

Dormir no ponto foi o que aconteceu com os estudantes que se municiaram de buzina, apitos, cartazes, faixas, tinta, ovo, água e gritos de guerra para admoestar e protestar contra o presidente Michel Temer lá na Usp em São Paulo no domingo passado, dia de eleições para prefeitos e vereadores.

A assessoria de Temer jogou o barro e colou. Anunciou que ele iria votar no meio da manhã. Os estudantes acreditaram e ficaram em casa dormindo. Quando deu a hora seguiram caminho para a zona de votação do presidente e levaram um a zero. Temer já tinha votado desde a abertura da seção, manhãzinha cedo. Como dizia outra frase famosa: “Quem cedo madruga Deus ajuda”. E o presidente com seu entourage madrugou e atropelou os manifestantes.

Quando estudante, nos idos dos anos 1960 antes da entrada em vigor (vigoração existe? Deveria existir) do AI 5 perpetrado pelos elementos da ditadura militar, as manifestações, os protestos contra o governo eram feitos com as passeatas saindo dos colégios Central, Duque de Caxias, Anísio Melhor, Severino Vieira, João Florêncio Gomes e tantos outros de tantos pontos da cidade. Hoje os protestos se realizam na área do Shopping Iguatemi e na Paralela. Naquele tempo os estudantes convergiam para a Praça da Sé.

Os primeiros grupos chegavam na Sé antes da polícia, horas antes do batalhão de choque se postar junto com cavalos e cães. Ficavam ali disfarçando, assegurando o “ponto” para as hordas de estudantes que iam chegando subindo a Ladeira da Praça, a Montanha, a Conceição da Praia, Pelourinho e tantas ruas que desse para enganar os policiais que estavam prontos para dar de fanta (cassetete longo de madeira) e cassetete de borracha no lombo de quem dormisse no ponto. E tome gás lacrimogêneo e jatos de água.

Era certo que se dormisse no ponto – como fizeram os estudantes paulistanos – não haveria como adentrar a Praça da Sé e esticar as faixas e os cartazes com dizeres, protestos e palavras de ordem: “Abaixo a ditadura”. Quem chegava antes dominava o cenário. Agora, imagine se o acontecido tivesse ocorrido em Salvador. Os paulistanos iam rir e dizer que só na Bahia os manifestantes ficavam dormindo na rede esperando a hora para sair em protesto.

Mas foram os paulistanos que acordaram tarde, dormiram no ponto e da cama mesmo perguntaram:
- Manhêee! Quando for perto de Temer votar me avise que nós vai protestar.
- Já votou seu mané – responde a mãe.
- Ô. Mano! Demorô – desabafou o dorminhoco.

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