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‘I May Destroy You’ retrata como experiências traumáticas impactam relações, trabalho e identidade

‘I May Destroy You’ retrata como experiências traumáticas impactam relações, trabalho e identidade

Criada por Michaela Coel, série trata abuso, memória e trauma com realismo

‘I May Destroy You’ retrata como experiências traumáticas impactam relações, trabalho e identidade

Foto: Divulgação

Por: Ismael Encarnação no dia 28 de janeiro de 2026 às 10:24

I May Destroy You é uma série dura, direta e necessária, sem fazer alarde disso o tempo todo. Criada e protagonizada por Michaela Coel, a produção acompanha a rotina de Arabella, uma jovem escritora que vive em Londres e tenta dar conta da própria vida enquanto algo começa a não se encaixar em suas lembranças recentes.

A protagonista tenta concluir um livro enquanto lida com as consequências de uma noite que ela não consegue lembrar completamente. Aos poucos, fragmentos surgem, e o que parecia apenas um apagão causado por drogas ou álcool se revela algo muito mais grave. A série constrói essa descoberta de forma fragmentada, quase confusa – exatamente como funciona a memória de quem passou por um trauma.

O grande mérito de I May Destroy You está na forma como aborda o trauma sem cair em simplificações. A série discute zonas cinzentas, relações atravessadas por poder, culpa, silêncio e normalizações perigosas. Não existe um único tipo de violência, nem uma única reação correta. Cada personagem lida com suas feridas de maneira diferente, e isso torna a narrativa ainda mais real.

Ao mesmo tempo, a obra não se resume à dor. Há espaço para humor, amizade, contradições e até leveza em alguns momentos. Arabella não é uma protagonista idealizada: ela erra, magoa, é egoísta às vezes e justamente por isso é tão humana. A história não tenta transformar a personagem em um símbolo, mas em uma pessoa.

No fim, é uma série sobre retomada de controle. Sobre tentar reconstruir a própria narrativa depois que alguém a interrompe violentamente. Dura, necessária e atual, I May Destroy You não é apenas para assistir, é para sentir e refletir.