
Brasil
PF deflagra nova fase de operação que investiga fraude bilionária nas Americanas
Perícias estimam prejuízo de até R$ 54 bilhões causado por fraudes contábeis descobertas em 2023

Foto: Bruno Peres/Agência Brasil
A Polícia Federal (PF) deflagrou nesta quinta-feira (25) a segunda fase da Operação Disclosure, que apura a fraude contábil envolvendo a Americanas. Com apoio do Ministério Público Federal, agentes cumpriram nove mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro e em São Paulo. A Justiça Federal também determinou o bloqueio de bens e valores que podem alcançar R$ 54 bilhões, montante apontado por perícias como o tamanho estimado do prejuízo provocado pelo esquema. As informações são do g1.
A nova etapa da investigação busca esclarecer se acionistas da varejista e representantes de instituições financeiras tiveram participação nas irregularidades. Entre os alvos estão os acionistas Carlos Alberto da Veiga Sicupira e Paulo Alberto Lemann, além de Eduardo Saggioro Garcia, apontado pelos investigadores como operador ligado aos sócios. Executivos de bancos privados também foram incluídos nas medidas autorizadas pela Justiça. Paulo Alberto Lemann é filho do empresário Jorge Paulo Lemann, que não é alvo da operação. Até a publicação da reportagem, as defesas dos citados não haviam se manifestado. A Americanas informou que não foi alvo das buscas.
Como funcionava o esquema
Segundo a PF e o MPF, ex-dirigentes da companhia teriam criado um mecanismo para apresentar resultados financeiros superiores aos reais, esconder dívidas e alterar demonstrações contábeis. A prática teria elevado artificialmente o valor das ações negociadas na Bolsa e permitido o pagamento de bônus milionários vinculados ao desempenho financeiro da empresa.
“Os suspeitos teriam conhecimento de supostas fraudes contábeis praticadas ao longo de anos, relacionadas a operações de risco sacado e a contratos de verba de propaganda cooperada (VPC) supostamente contabilizados sem lastro econômico”, afirmou a PF. “As apurações apontam indícios, em tese, dos crimes de manipulação de mercado e associação criminosa”, acrescentou o órgão.
O principal mecanismo investigado é o chamado risco sacado, operação comum no varejo em que dívidas com fornecedores são transferidas para bancos ou outras instituições financeiras. De acordo com as investigações, a Americanas retirava esses débitos dos registros contábeis ao transferi-los, mas deixava de registrar que a obrigação passava a existir junto ao sistema financeiro. Dessa forma, a empresa aparentava ter menos dívidas do que realmente possuía. Outro ponto investigado envolve as verbas de propaganda cooperada (VPCs), incentivos concedidos por fornecedores para ações promocionais. A suspeita é de que valores inexistentes ou inflados tenham sido lançados nos balanços para melhorar artificialmente os resultados.
Escândalo veio à tona em 2023
A fraude foi revelada em janeiro de 2023, quando a Americanas informou ter identificado inconsistências contábeis inicialmente estimadas em cerca de R$ 20 bilhões. A descoberta levou a empresa a ingressar com pedido de recuperação judicial. Em junho de 2024, a PF iniciou a primeira fase da Operação Disclosure, com prisões e buscas contra ex-executivos. O ex-CEO Miguel Gutierrez chegou a ser preso em Madri, na Espanha, mas teve a prisão preventiva revogada posteriormente.
Em março deste ano, o Ministério Público Federal denunciou 13 ex-executivos e ex-funcionários, acusados de integrar uma estrutura voltada à manipulação de resultados financeiros, ocultação da situação patrimonial da empresa e indução de investidores ao erro. Também em 2025, a Americanas informou à Justiça ter solicitado o encerramento do processo de recuperação judicial após cumprir as exigências previstas no plano aprovado pelos credores.
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