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'Fracassamos miseravelmente', diz Delfim Netto sobre combate à pandemia no Brasil

Em entrevista à Rádio Metrópole, ex-ministro também criticou falta de estratégia do governo para lidar com a crise: "Estamos numa guerra em que o exército briga com ele mesmo"

['Fracassamos miseravelmente', diz Delfim Netto sobre combate à pandemia no Brasil]
Foto : Reprodução / TV Cultura

Por Juliana Rodrigues no dia 02 de Julho de 2020 ⋅ 09:29

O economista, professor e ex-ministro Antônio Delfim Netto avaliou como "desastrosas" as medidas do governo de Jair Bolsonaro no combate à pandemia de coronavírus. Em entrevista a Mário Kertész na Rádio Metrópole, na manhã de hoje (2), Delfim Netto afirmou que o Brasil "fracassou miseravelmente" em frear o avanço da Covid-19, mesmo elogiando a política de socorro para a economia.

"Desde o início enfrentamos a pandemia muito mais com discurso do que com fatos. (...) Infelizmente, mesmo sendo feita uma politica de saúde de péssima qualidade, tivemos que paralisar também uma boa parte da economia. Por outro lado, o Banco Central foi autorizado com medidas para poder financiar toda a produção do começo ao fim. Então, do ponto de vista do ataque à área econômica, à atividade, nós fizemos muito parecido ou até melhor do que a maioria dos países. Agora, sobre o combate à pandemia, infelizmente eu acho que nós fracassamos miseravelmente. Até agora não temos uma política de saúde razoável, apesar de termos o SUS, que é talvez o melhor seguro saúde do mundo, que só não funcionou melhor porque não fomos capazes de aplacar o crescimento da infecção. Acho que continuamos muito mal", analisou.

Fazendo alusão à expressão "Orçamento de Guerra", que dá nome à PEC 106, promulgada para facilitar os gastos públicos no combate ao coronavírus, Delfim Netto criticou a falta de estratégia do governo federal para lidar com a pandemia.

"Em um momento como esse você tem que transpor os interesses da sociedade acima das suas preferências partidárias. (...) O presidente Bolsonaro tem preconceitos identitários, religiosos, sociológicos, horríveis. Essa ideia de que se tratava de uma gripezinha, uma coisa ridícula, diante dos fatos que estavam visíveis, prejudicou fortemente o combate à pandemia. Nesse sentido, foi um desastre. O Brasil tá enfrentando realmente como se fosse uma guerra, tanto é verdade que a PEC aprovada se chama PEC do orçamento de guerra. Ou seja, como numa guerra, no combate à pandemia, estamos mobilizando todos os recursos. (...) Só que estamos numa guerra em que o exército briga com ele mesmo. Não tem inimigo. O inimigo é a pandemia, mas o poder central, que devia estar coordenando tudo isso, pra que esse efeito de guerra produzisse um resultado de vitória, está sendo mal conduzido", afirmou, acrescentando que a Bahia "administra a guerra" contra o coronavírus de forma "muito superior" à União.

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