Cidade

Menos de um mês antes do prazo: Rio Vermelho ainda vê obra longe do fim

Faltando exatos 33 dias para a tradicional festa de Iemanjá — realizada no bairro do Rio Vermelho desde 1923 —, é necessário um grande exercício de imaginação para levar fé que a terra batida, as máquinas e as dezenas de operários darão lugar ao mar de fiéis e a uma orla completamente revitalizada no dia 2 de fevereiro [Leia mais...]

[Menos de um mês antes do prazo: Rio Vermelho ainda vê obra longe do fim]
Foto : Tácio Moreira/Metropress

Por Bárbara Silveira no dia 31 de Dezembro de 2015 ⋅ 06:00

Faltando exatos 33 dias para a tradicional festa de Iemanjá — realizada no bairro do Rio Vermelho desde 1923 —, é necessário um grande exercício de imaginação para levar fé que a terra batida, as máquinas e as dezenas de operários darão lugar ao mar de fiéis e a uma orla completamente revitalizada no dia 2 de fevereiro. De acordo com o prefeito ACM Neto, a requalificação das duas primeiras etapas da obra — que abrangem a área do Largo da Mariquita até o de Santana — será entregue no dia 29 de janeiro. Porém, a sensação de quem passa pelo local é completamente diferente: se entregar a tempo, ainda haverá muitos armengues para serem resolvidos depois.

Quem passa pela região desconfia. “Estou preocupado com o 2 [de fevereiro]. Realmente preocupado que isso aqui não esteja pronto, pelo menos na totalidade. Pode até estar pronta uma parte, 70%. Mas, totalmente entregue, eu não acredito. De lá de cima até aqui, olha a quantidade de obra que tem para fazer”, afirmou, descrente, o aposentado Roque Oliveira. Apesar de benefícios inegáveis para a cidade, a obra acumula desconfiança de comerciantes da região, como Telma Santos. “Vai estar concluída só essa parte aqui da frente [Largo de Santana]. Ainda tem muita coisa para fazer e toda hora eles estão errando, quebrando de novo e isso tudo atrasa”, reclamou. 

Orçada em R$ 70 milhões, a recuperação terá ainda a sua terceira etapa, entre Rua da Paciência e Avenida Oceânica. O projeto prevê a implantação de blocos de concreto intertravado, recuperação de drenagem e construção de calçadas em concreto e piers com acesso ao mar. 

Comerciantes da região amargam prejuízo

Responsável por um dos mais movimentados bares do Largo de Santana, a comerciante Telma Santos assiste à obra de requalificação do bairro encarando as mesas vazias. “O movimento caiu muito devido a engarrafamentos e muita poeira. Não tem quem aguente”, afirma. Com o fechamento de algumas ruas, as áreas de estacionamento também escassearam. “Ai cai o fluxo. Ninguém vem mais como vinha antes. Não tem lugar para estacionar. Nem os carros para entregar mercadoria estão podendo mais encostar”, disse.

E as vendas não caíram só nos restaurantes da região. O ambulante Apolinário Silva, de 76 anos, teve que procurar outro sustento. “As vendas estão paradas. Não tem como trabalhar. Estou parado há seis meses e tive que procurar outra coisa”, contou.

Turistas e Devotos decepcionados

A tradicional Casa de Iemanjá, onde os fiéis depositavam presentes para a Rainha do Mar, deu lugar a um canteiro de obras. No lugar de flores e presentes, cimento e alvenaria. “Levei um susto. A casa está sem telhado e todas as oferendas foram retiradas. Entendo que a obra é necessária, mas o espaço poderia ter sido realocado”, opinou a turista carioca Teresa Silva, que se surpreendeu ao tentar visitar um dos seus pontos preferidos na capital baiana. 

Presidente da Colônia de pescadores Z1 e coordenador da tradicional festa de Iemanjá, Marcos Souza também está preocupado com os prazos e reconhece que o bairro perdeu, mesmo que temporariamente, um dos seus principais destinos turísticos. “Nesse momento em que está acontecendo essa obra, os devotos que procuram a casa de Iemanjá se decepcionam em não ter a possibilidade de ver a casa completamente reestabelecida”, explicou.

Apesar do receio, segundo Souza, os pescadores confiam no compromisso firmado com a Prefeitura. “Existe um cronograma apresentado pela Fundação Mário Leal Ferreira nos dando a certeza que, no dia 27 de janeiro, todo o andamento dessa primeira e segunda etapa da requalificação estará concluído, e a inauguração será no dia 29”, afirmou.

“O que ficar pronto vai ficar muito bem feito”

Procurada pelo Jornal da Metrópole, Tânia Scofield, presidente da Fundação Mário Leal Ferreira, que é responsável pelo projeto, vistoriou o andamento da obra na tarde da última terça-feira (29). De acordo com ela, não existe o risco de os trechos não ficarem prontos a tempo. “A obra é grande, não é apenas pavimentação, de embelezamento. A gente está fazendo uma obra que tem uma durabilidade de, no mínimo, 25 anos. Foi uma obra muito grande, e está assegurada no dia 29 a inauguração”, afirmou, após a análise técnica. 

Segundo Scofield, a realização da festa de Iemanjá, que dá início a comemoração do Carnaval, e a qualidade da obra estão asseguradas. “Não corre risco de ficar meia-boca. O que ficar pronto vai ficar muito bem feito. O melhor assentador de pedra portuguesa é o que está lá”, garante.

Construtura “lutando” para entregar

Ao Jornal da Metrópole, o sócio gerente da Construtora NM , Nicolau Martins, afirmou que a obra teve inúmeros problemas com a Coelba e a Embasa, mas o prazo de conclusão “deve ser entregue”. “Nós estamos fazendo o esforço total para entregar do Largo de Santana até a Mariquita, que é a parte principal (...) estamos lutando para isso, apesar dos problemas”, disse aparentando menos confiança queScofield. Ao morador do Rio Vermelho, cabe torcer para que as obras no bairro não tenham o mesmo destino do Aeroporto de Salvador, cujas obras são tocadas pela NM, mas, passados tantos prazos, já não contam com a paciência da população. De acordo com o Diário Oficial do Município, as três etapas da obra do Rio Vermelho custarão R$ 70 milhões.

Notícias relacionadas