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Em debate na Metropole, vereador diz que nome de Milton Santos em avenida de Ondina é “reparação histórica"

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Em debate na Metropole, vereador diz que nome de Milton Santos em avenida de Ondina é “reparação histórica"

Augusto Vasconcelos (PCdoB) é autor de projeto que propõe alteração

Em debate na Metropole, vereador diz que nome de Milton Santos em avenida de Ondina é “reparação histórica"

Foto: Reprodução/YouTube

Por: Alexandre Santos no dia 13 de outubro de 2021 às 14:12

Ao trocar o nome da Avenida Adhemar de Barros para Avenida Milton Santos, a cidade faz uma reparação histórica à trajetória de um dos maiores geógrafos do planeta. A afirmação do vereador Augusto Vasconcelos (PCdoB), autor de um projeto de lei que busca efetivar a mudança, foi feita nesta quarta-feira (13) durante um debate no Jornal da Metropole no Ar, da Rádio Metropole.

Conduzida pelo apresentador Mário Kertész, a discussão também contou com a participação do vereador Sílvio Humberto (PSB), da jornalista Christiane Gurgel e do professor e historiador Murilo Mello.

Tema que avança em países como os EUA  —onde monumentos e equipamentos públicos que homenageiam pessoas ligadas à escravidão, à ditadura e a outros períodos sensíveis do passado vêm sendo postos literalmente abaixo—, trata-se de uma questão que ainda engatinha no Brasil, especialmente em Salvador, apesar de uma luta antiga.

"Lamentavelmente, várias ruas da cidade levam nomes de pessoas que não têm nenhuma ligação com nossa história ou até mesmo tiveram uma ligação fortemente negativa, como escravagistas, pessoas ligadas às opressões do passado, ditadores. Ou seja, nós estamos lutando pela disputa do simbólico da cidade", enfatiza Augusto Vasconcelos. 

"[A proposta] Corrige uma distorção em uma cidade de maioria negra e que tem pouquíssimos logradouros públicos homenageado pessoas negras e que têm grandes contribuições para a história e formação do nosso povo. Não se trata apenas da uma mudança de nome de rua."

Para o vereador, a maioria dos logradouros da capital faz menção a personagens ligados aos interesses das famílias tradicionais e que sempre ocuparam grupos de mando. 

Entusiasta da renomeação da via que abriga o campus da Ufba onde justamente onde Milton Santos formou-se em Direito, em 1948, a jornalista Christiane Gurgel diz nunca encontrado registros oficiais que apontem relação entre Ahdemar de Barros e a capital soteropolitana.

"Eu moro numa transversal na Ademar de Barros há 26 anos e, desde que eu me mudei pra cá, eu achei muito estranho que um governador de São Paulo estaria nomeando uma avenida muito importante aqui da cidade”, disse.

Ela afirma que, ao tentar levantar o passado de Adhemar de Barros com a cidade, não identificou nada além do que o descreva como um político paulista com atuação nas décadas de 1950 e 1960.

Segundo o vereador Sílvio Humberto, o projeto de Vasconcelos é importante sobretudo por desconstruir narrativas já postas.

"À medida que os subalternizados começam a ganhar voz e vez, passam a reivindicar o seu lugar. Passam a reivindicar o que parece com ele contando uma narrativa pra evitar o que a gente chama de história única. De pessoas que não têm nenhuma ligação conosco e a forma como o colonizador, aquele que se colocou como hegemônico, tem pensado as ruas", analisa.

O professor e historiador Murilo Mello, por sua vez, explicou que o movimento de mudanças de símbolos e monumentos históricos faz parte de um processo que remonta ao Egito antigo.

“Desde que a humanidade passou a viver em sociedade, ou seja, em grupos maiores, sempre houve disputas. Disputa política, disputa por poder, disputa ideológica fazem parte do passar humano. Desde o Egito, a gente tem mudanças de monumentos, mudanças de esculturas. O Egito, a mais de 30 mil anos atrás, teve uma reforma religiosa na qual [o faraó] Aquenáton vai retirar uma série de monumentos, de construções simbólicas que remetiam a outros deuses”, disse.