Quarta-feira, 17 de junho de 2026

Faça parte do canal da Metropole no WhatsApp

Home

/

Notícias

/

Cidade

/

Prestes a ser reaberta com o VLT, Estação da Calçada atravessa 166 anos da história de Salvador

Cidade

Prestes a ser reaberta com o VLT, Estação da Calçada atravessa 166 anos da história de Salvador

Primeira estação ferroviária da Bahia, inaugurada em 1860, terminal acompanhou a expansão da capital, a chegada da modernidade e a transformação dos transportes na cidade

Prestes a ser reaberta com o VLT, Estação da Calçada atravessa 166 anos da história de Salvador

Foto: Divulgação/CTB

Por: Duda Matos no dia 17 de junho de 2026 às 12:19

Atualizado: no dia 17 de junho de 2026 às 12:35

Por mais de um século, quem chegava a Salvador de trem passava por ela. A Estação da Calçada recebeu trabalhadores, comerciantes, estudantes e passageiros vindos de diferentes regiões da Bahia, tornando-se a principal porta de entrada ferroviária da capital. Inaugurado em 1860, o terminal acompanhou a expansão urbana da capital, conectou a cidade ao interior do estado e se consolidou como um dos principais marcos da história dos transportes baianos.

Primeiro terminal ferroviário da Bahia, inspirado em modelos europeus, a Estação da Calçada acompanhou transformações que marcaram o desenvolvimento do estado e da própria capital. Mais de 166 anos após sua inauguração, o prédio histórico se prepara para ganhar uma nova função na mobilidade urbana. A estação será a primeira parada do VLT, projeto que marca o retorno do transporte sobre trilhos à região e abre um novo capítulo em sua trajetória.

Pioneirismo na Bahia

A história da Estação da Calçada está diretamente ligada à chegada da ferrovia ao estado. Em 23 de junho de 1860, a então Bahia and San Francisco Railway Company, empresa de capital inglês, inaugurou o primeiro trecho ferroviário da Bahia, ligando a Calçada a Paripe. Na mesma data, entrou em operação a estação, inicialmente chamada de Jequitaia.

Fotógrafo: Benjamin R. Mulock, Bahia, 5 jun. 1861. Collection Vignoles of Institution of Civil Engineers, London, ICE ACC 1335.

O empreendimento representou um marco para a época. A nova linha ampliava a capacidade de transporte de passageiros e mercadorias em um período em que o deslocamento ainda dependia principalmente de embarcações e estradas precárias.

Nas décadas seguintes, os trilhos avançaram pelo interior. Em 1896, a ferrovia alcançou as margens do Rio São Francisco, cumprindo o objetivo inicial do projeto e chegando a 572 quilômetros de extensão. A linha tornou-se a primeira ferrovia baiana e a quarta do Brasil.

Terminal ajudou a moldar a cidade

A implantação da estação durante o reinado de D. Pedro II, transformou a região da Cidade Baixa. O bairro da Calçada cresceu ao redor do terminal ferroviário, atraindo comércio, serviços e atividades ligadas à operação dos trens. O edifício também se destacou pela arquitetura. Projetada por engenheiros ingleses, a estação foi construída com estruturas metálicas importadas da Inglaterra, um modelo considerado moderno para o Século 19. Muitas dessas características foram preservadas ao longo do tempo, fazendo do prédio um dos principais exemplares da arquitetura industrial em Salvador.

Para milhares de moradores do interior, a Estação da Calçada representava o primeiro contato com a capital baiana. Por décadas, ela foi o principal ponto de chegada e partida de passageiros que circulavam entre Salvador e diversas regiões do estado.

A era da "Leste"

Ao longo do Século 20, a estação consolidou sua posição como principal terminal ferroviário da Bahia. Sob a administração da Viação Férrea Federal Leste Brasileiro (VFFLB), a malha ferroviária passou por importantes investimentos. Entre as obras realizadas estavam a duplicação do trecho entre Calçada e Paripe, iniciada em 1937, e a introdução das primeiras locomotivas diesel-elétricas em operação no Brasil, em 1938. Também foram executadas intervenções como a construção da Ponte São João, na Enseada do Cabrito, e a eletrificação de trechos da linha. Foi nesse período que surgiu o apelido "Estação da Leste", em referência à antiga empresa ferroviária.

Um dos episódios históricos registrados no terminal ocorreu em 1925, quando tropas baianas que participaram da batalha de Catanduvas, no Paraná, desembarcaram na estação ao retornar ao estado, sendo recepcionadas pelo então governador Góes Calmon.

Ligação direta com o porto

Além do transporte de passageiros, a Estação da Calçada teve papel importante na movimentação de cargas. Durante décadas, um ramal ferroviário conectou o terminal ao Porto de Salvador. A linha seguia pela Cidade Baixa e permitia o transporte de produtos destinados à exportação. Nas décadas de 1970 e 1980, trens carregados de minério de magnesita ainda utilizavam o trecho nas madrugadas para chegar à área portuária.

Com a criação de novas estruturas logísticas e a transferência de operações para o Porto de Aratu, o ramal perdeu importância e foi desativado na segunda metade da década de 1990.

Novo capítulo com o VLT

A partir da segunda metade do século passado , o crescimento do transporte rodoviário reduziu a importância das ferrovias em todo o país. Em Salvador, o processo culminou na desativação gradual de diversas linhas, restando apenas o Trem do Subúrbio como principal serviço de passageiros.

A operação foi encerrada em 2021 para dar lugar ao projeto do VLT Salvador–Simões Filho. Com a implantação do novo sistema, a Estação da Calçada, que será reinaugurada nesta quarta-feira (17), voltará a receber passageiros e retomará o papel de porta de entrada do transporte sobre trilhos na capital. Em 2026, a Calçada renasce como um símbolo da modernização da Bahia e da expansão de Salvador. 

Foto: Metropress