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Especialistas avaliam BRT de Salvador como solução “ultrapassada” que “vai se esgotar”

Se os planos da Prefeitura se cumprirem, até o final de 2019, Salvador terá a primeira parte do Bus Rapid Transit (BRT) em funcionamento. De acordo com o anteprojeto encomendado pelo Município e criado pela empresa Prado Valladares [Leia mais...]

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Foto : Divulgação

Por Bárbara Silveira no dia 27 de Abril de 2017 ⋅ 08:51

Se os planos da Prefeitura se cumprirem, até o final de 2019, Salvador terá a primeira parte do Bus Rapid Transit (BRT) em funcionamento. De acordo com o anteprojeto encomendado pelo Município e criado pela empresa Prado Valladares, a primeira fase terá investimento de R$ 408 milhões e construção de corredores exclusivos que vão ligar o Parque da Cidade à região da rodoviária, fazendo a integração com os modais.

No total, já incluindo a segunda fase do projeto, serão construídas 12 estações, 12 km de via e oito conjuntos de viadutos ao longo da Av. Vasco da Gama, Rua Lucaia, Av. Juracy Magalhães e Av. ACM, desde a entrada da Estação da Lapa até a Estação de Integração Iguatemi. Mas grandes arquitetos baianos questionam a real utilidade do modal e dos viadutos, que estão sendo abandonados por cidades do Brasil e do mundo.

Colômbia: BRT vai ficar no passado
O BRT deve chegar em Salvador com 19 anos de atraso em relação a Bogotá, na Colômbia. Por lá, o chamado Transmilênio, instalado em 2000, durante a gestão do prefeito Enrique Peñalosa, já é considerado defasado e não atende mais os 2 milhões passageiros diários da cidade.

De acordo com o governo, apesar de grandes fisicamente, os veículos possuem poucos assentos. Em pé, viajam 190 passageiros, totalizando uma capacidade de 291 pessoas. Para tentar solucionar a questão, a gestão estuda implantar o SITP (Sistema Integrado de Transporte), também formado por ônibus e micro-ônibus.

“As coisas que são feitas a curto prazo, mais baratas, viram muito caras no futuro”
Membro do Conselho de Arquitetura e Urbanismo da Bahia (CAU/BA), Paulo Ormindo avaliou o BRT de Salvador como uma ideia defasada. “Hoje, no primeiro mundo você tem linhas de ônibus expressas que correm em faixa exclusiva, mas que não se precisa fazer viaduto. Essa solução, como está concebida, é um pouco ultrapassada”, avaliou.

Carl Von Hauenschild, membro do Instituto de Arquitetos do Brasil, afirmou que a instituição também tem ressalvas sobre o projeto. “Muitas vezes, as coisas que se faz a curto prazo, mais baratas, viram muito caras no futuro”, pontuou.

Viadutos na contramão de de RJ e SP: 'Desvalorização'
O chamado “emaranhado de viadutos” previstos também foi criticado por Paulo Ormindo, que lembrou o movimento de retirada de viadutos que começa a ser feito por Rio de Janeiro e São Paulo.

“O Rio tirou os viadutos ali na Praça Mauá e botou como túnel para permitir essa circulação da população em direção ao mar, a paisagem. Um viaduto desse gera uma desvalorização tremenda dos imóveis ao lado, porque cria uma zona de sombreamento, onde, inevitavelmente, vão dormir mendigos e pessoas sem teto. E isso acaba criando uma desvalorização do uso social. Em São Paulo, eles estão querendo demolir o Minhocão”, comparou.

BRT vai se esgotar como modal
Hauenschild explica ainda que o BRT de Salvador, assim como em Bogotá e em Curitiba, vai se esgotar. Ainda segundo o membro do Instituto de Arquitetura, Salvador peca em não planejar o futuro.

“No Plano Salvador 500, que é um plano com visão de médio e longo prazo, a gente teria a visão do que a cidade precisa, até uma rede de transporte coletivo de alta e média capacidade — tudo que a gente não tem. Hoje ninguém pode calcular [o esgotamento], essa base técnica de dados não está definida. Até um plano de mobilidade, que está sendo iniciado, tem um enorme problema de não ter esse plano para dizer em quanto tempo se esgota”, criticou.

Empresa será escolhida em breve
Procurado pelo Jornal da Metrópole, o secretário municipal de Mobilidade, Fábio Mota, que havia afirmado desconhecer a autoria do projeto, afirmou que a escolha da empresa que será responsável pela execução da obra vai acontecer em breve, já que o edital de licitação já foi publicado.
O processo de seleção é o Regime Diferenciado de Contratações (RDC), que determina a escolha pelo critério de menor preço, melhores tecnologias e maior e melhor retorno econômico.

Prefeitura rebate número
Gerente de Projetos Estratégicos da Semob, Roberto Mussalem coordenou a elaboração do anteprojeto do BRT. À Metrópole, ele rebateu as denúncias sobre os inúmeros viadutos. “Esse anteprojeto é de responsabilidade da Prefeitura, no qual houve uma grande participação da Semob, coordenado pela Casa Civil. Não serão 12 viadutos, porque contamos mão e contramão. No primeiro trecho são três pares de viadutos, mais uma alça de ligação. Em vez de 12, são 7”, disse.

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