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Cidade

Projeto de Elevatória de Esgoto na Lagoa do Abaeté gera protestos

Coletivos locais denunciam irregularidades e apontam soluções alternativas para preservar a Área de Proteção Ambiental

[Projeto de Elevatória de Esgoto na Lagoa do Abaeté gera protestos]
Foto : Elói Corrêa/GOVBA

Por James Martins no dia 10 de Setembro de 2020 ⋅ 08:52

Abaeté é um vocábulo tupi-guarani e significa funesto, medonho. Dizem que a palavra foi empregada à lagoa porque esta metia medo na gente. Aliás, aquela mesma música de Dorival Caymmi que levou a palavra pro mundo diz também, além da conhecida justaposição “lagoa escura-areia branca”, que “o pescador deixa que seu filhinho tome jangada, faça o que quisé, mas dá pancada se o filhinho brinca perto da Lagoa do Abaeté”. Hoje, porém, sofrendo descaso gritante dos poderes públicos, abandonada pela população, e ameaçada com uma Estação Elevatória de Esgoto que pode emporcalhar ainda mais suas águas e dunas, parece que é Abaeté que sente medo da gente.

Morador de Itapuã há mais de 30 anos, João Cabral, após lembrar do tempo em que ainda podia levar a filha para pescar e brincar na lagoa, lamenta o projeto da Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia (Conder) aprovado pelo Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema). "É a coisa mais absurda de que eu tenho notícia nos últimos tempos aqui na Bahia", disse ele, que faz parte do grupo popular que se opõe à obra e tem promovido protestos e propostas. 

No último dia 28, uma manifestação em defesa do Abaeté aconteceu no Rio Vermelho. A antropóloga Clara Domingas, nascida em Itapuã e uma das organizadoras, assegura que o projeto da EEE tem inúmeras irregularidades. "Não foram apresentados dados nem estudos para justificar, é tudo feito às pressas para não perder os recursos do PAC [Plano de Aceleração do Crescimento implantado nos governos petistas]", diz. E continua: "Sem falar que esse modelo de Elevatória é reproduzido pela Conder há muito tempo e temos várias evidências de extravasamento. Eles justificam que dessa vez será aplicada uma tecnologia diferenciada, alemã, mas a empresa que vai realizar, a San Juan Engenharia, não é sequer licenciada para construir esse equipamento". 

A justificativa da Conder para a construção é destinar à estação elevatória os esgotos dos estabelecimentos comerciais e públicos do Parque do Abaeté, como Casa da Música e Casa das Lavadeiras, que hoje caem em fossas sépticas o que, segundo o órgão, "representa um risco de poluição na APA Dunas do Abaeté". Os coletivos envolvidos na discussão, como Abaeté Viva e Guardiões do Abaeté, no entanto, sugerem a adoção de bacias de evapotranspiração, as wetlands, que seriam mais corretos do ponto de vista ambiental e mais baratos, do ponto de vista econômico.

Aliás, em audiência pública online realizada no início de agosto pela Câmara de Vereadores de Salvador, o próprio Wladmir Conceição, engenheiro técnico da Embasa (que aprovou a proposta da Conder), admitiu que um projeto a partir da rede de esgoto existente seria mais viável, pois a EEE pode gerar diversos problemas operacionais. E Clara Domingas, que também faz parte do Fórum Permanente de Itapuã, enfatiza que jogar na rede também não é a melhor solução e volta a defender as "wetlands". Ela ponta ainda casos concretos de extravasamento em elevatórias aqui mesmo na Bahia: na praia de Itapuã, que monitora desde 2015, e no Rio Sapato, em Lauro de Freitas, onde, em três anos, houve piora de 80% no nível de poluição. "É indefensável a proposta da Elevatória, precisamos agora é parar a obra e discutir a sério o assunto, que é a nossa proposta", diz. Para isso, os coletivos recorreram ao Ministério Público e a estratégias mais à mão, como atividades na lagoa.

“A ideia de Abaeté tem que ser expandida para além da lagoa”, defende o coletivo Abaeté Viva, pretendendo incluir e engajar a comunidade da Baixa da Soronha como ponto fulcral da questão. Até porque, a proposta de canalizar o esgoto para a rede da Embasa impacta diretamente o local. Uma das formas que os coletivos encontraram para a aproximação (e para frear a obra) é a ocupação propositiva que desde segunda-feira (7) está acontecendo na lagoa com aulas de ioga e aterramento, oficinas de origami e percussão (com Mônica Millet) e outras atividades.

“A dificuldade de engajar a comunidade é que há um grande temor, desde o assassinato de Antônio Nativo”, lembra Clara. Ela se refere a Antônio Conceição Reis, ambientalista e criador do grupo Nativos de Itapuã, alvejado na frente de sua casa no dia 9 de julho de 2007. Foi ele o primeiro a denunciar o risco de uma Estação Elevatória de Esgoto no Parque do Abaeté, ainda em 2005, além de criar obstáculos para a realização de grandes shows na lagoa. Oficialmente, porém, a proposta da EEE surge em 2009, como parte de um projeto de revitalização da área.

A luta por Abaeté sensibiliza também artistas famosos, como Jorge Vercillo, Margareth Menezes, Tonho Matéria e Guilherme Arantes. "Estamos numa corrente, apelando ao governo do estado que tenha uma visão mais madura e mais moderna sobre a preservação desse ambiente, que não pertence a uma geração, mas à humanidade", disse Maga em vídeo divulgado nas redes sociais. "É inacreditável precisar dessa grita popular para que um projeto assim seja feito com responsabilidade", bradou Guilherme, que há décadas adotou a Bahia como morada e é bastante engajado em questões ambientais.

“Qualquer cidade do mundo gostaria de ter um parque igual o do Abaeté, com várias lagoas, vegetação linda… É um lugar sagrado, nós temos que respeitar”, enfatiza Cabral. Na música “Você é Linda”, lançada em 1983, Caetano Veloso canta a certa altura: “No Abaeté, areias e estrelas não são mais belas / do que você, mulher das estrelas…”. Hoje, corremos o risco de mutilar os versos pela metade: “No Abaeté, areias e estrelas não são mais belas”. Por ora, mesmo com todo descaso, ainda são. Que a Bahia saiba cuidar, sem descanso, mas sem pressa.

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