Cidade

Instituição centenária, Colégio Soledade inicia campanha virtual para reforma do telhado

O colégio, que completou 281 anos, está com problemas relacionados a estrutura; dos R$ 630.000 orçados para o reparo, a vaquinha arrecadou, até o momento, somente R$ 13.000

[Instituição centenária, Colégio Soledade inicia campanha virtual para reforma do telhado]
Foto : Divulgação

Por Luciana Freire no dia 24 de Setembro de 2020 ⋅ 10:02

No dia 15 de setembro, dia de Nossa Senhora da Soledade, o Colégio Soledade, localizado no centro histórico de Salvador, comemorou 281 anos. Na verdade, sua data de fundação é 28 de outubro, mas foi convencionado comemorar o aniversário do colégio no mesmo dia da santa porque a instituição filantrópica é gerenciada pela ordem das irmãs ursulinas. Em missa solene, transmitida nas redes sociais dadas as circunstâncias da pandemia, o colégio centenário celebrou sua história (entrelaçada à história da Bahia) e a resistência ao tempo — em especial, resistência à crise que recai sobre o instituto nos últimos cinco anos.

Desde 2016 com desequilíbrio financeiro ligado à inadimplência, o colégio conseguiu se organizar disponibilizando descontos de 50% em sua mensalidade. No entanto, problemas relacionados à estrutura física do edifício preocupam a gestão.

“O problema é o nosso telhado, já foram feitas as manutenções, mas com o passar do tempo nós perdemos a capacidade de fazer essa melhoria”, explica a diretora Rita Brandão. E continua, “não é que o telhado vai cair em cima de alguém, nada disso, mas a gente precisa recuperar. É uma casa que tem muita madeira, vai caindo chuva, vai molhando essa madeira, pode chegar o momento que realmente vira um risco”.

No ano passado o colégio já havia se movimentado para arrecadar dinheiro para a reforma do telhado, promovendo uma Feijoada Beneficente. Há um mês, deu-se início à campanha Ação Solidária Soledade, uma vaquinha virtual. 

Dos R$ 630.000 orçados para o reparo, a vaquinha arrecadou, até o momento, somente R$ 13.000. Segundo Rita, a mensalidade termina sendo para custear luz, água, telefone, internet e folha de pagamento. A diretora admite que a escola tem outras necessidades estruturais, como a fachada do colégio, mas “não está degradaaada (sic), o mínimo que conseguimos arrumar de dinheiro a gente vai fazendo”, disse. 

Questionada se é possível a escola parar de funcionar caso não seja feita a reforma dos telhados, Rita Brandão afirma que “não existe essa possibilidade”.

Os casarões da soledade, porém, localizados na ladeira e no largo, têm um histórico recente de desabamento. Em 2017, o sobrado n° 150, que desabou na ladeira, causou a morte de três pessoas e deixou outros feridos. Os acontecimentos prejudicaram os alunos do Colégio Carneiro Ribeiro Filho, administrado pelo governo do Estado, com a suspensão das aulas e transferência temporária dos alunos para outra unidade. 

O fato é que o bairro centenário, que faz parte do centro histórico de Salvador, não é cuidado pelos gestores na condição de patrimônio histórico. Isso reflete diretamente no incentivo à preservação do Colégio Soledade, que mesmo não tendo vinculação com o Estado, resguarda a história da Bahia. Protagonista, por exemplo, daquele 2 de julho de 1823, quando os baianos festejaram a consolidação da Independência: foram as irmãs Ursulinas do Convento da Soledade que confeccionaram as coroas de louro entregues aos heróis pelo padre Antônio José Gonçalves de Figueiredo.

Ou seja, todo aquele patrimônio arquitetônico, incluindo o Colégio Soledade, reivindica atenção à altura de seu legado histórico-cultural. “O Convento da Soledade sempre se avantajou aos demais no preparo de doces, sendo frequentes as encomendas para fora do Estado, e até para o estrangeiro”, anotou Manuel Querino em “A Arte Culinária na Bahia”. E ali pertinho, no 131, moraram o jornalista-abolicionista Augusto Guimarães, vice-presidente da Província da Bahia, cunhado de Castro Alves, e sua esposa Adelaide, irmã do poeta. Seu nome, aliás, batiza a própria rua em placa afixada na fachada da Igreja da Soledade, anexa ao colégio. Também na ladeira hoje carcomida viveu seus últimos anos o romancista Xavier Marques, membro da Academia Brasileira de Letras, autor de “O Feiticeiro”.    

Pandemia

A pandemia de coronavírus provocou mudanças em todos os setores da sociedade. No caso dos colégios, as aulas presenciais foram suspensas, como se sabe. Desde abril o Colégio Soledade mantém suas atividades com aulas online. Segundo a diretora, foi mantido o desconto de 50% e os pais que não tem condição de arcar com essa parcela pagam o que podem. “A escola não demitiu nenhum professor, procuramos manter todos os funcionários, ajudar os alunos. Por conta da pandemia a gente tem tido mais dificuldade”, diz Rita.

Quem quiser ajudar o colégio pode aderir à campanha da vaquinha virtual através do link. Porém, muito além de colaborar com o Soledade nessa questão pontual, é importante que a sociedade baiana em geral atente para a importância histórica de toda aquela região, que pede atenção constante e que diz muito de quem somos.

Notícias relacionadas