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Cultura

Em livro, escritor analisa 'entrelinhas' do discurso da mídia entre 2011 e 2020

Segundo Francisco Fernandes Ladeira, veículos vendem imagem de "aparente neutralidade", mas estão alinhados aos interesses do capital

[Em livro, escritor analisa 'entrelinhas' do discurso da mídia entre 2011 e 2020]
Foto : Metropress

Por Juliana Rodrigues no dia 01 de Março de 2021 ⋅ 09:10

O mestre em Geografia, professor e escritor Francisco Fernandes Ladeira, autor do livro "10 anos de Observatório da Imprensa: a segunda década do século XXI sob o ponto de vista de um crítico midiático", falou hoje (1º) sobre a obra, em entrevista a Mário Kertész, no Jornal da Bahia no Ar, da Rádio Metrópole. Segundo Ladeira, o volume busca fazer uma crítica sobre a cobertura midiática a respeito dos mais diversos acontecimentos entre 2011 e 2020, período no qual ele escreveu no site Observatório da Imprensa.

"A preocupação não é bem fazer uma retrospectiva desse decênio. É analisar como a mídia cobriu diversos acontecimentos emblemáticos ao longo dessa década recém-terminada. Principalmente as questões políticas, como o impeachment e as manifestações de junho de 2013, e analisar qual foi a postura da mídia durante esse período. Nos discursos jornalísticos há uma ideia de neutralidade, mas a questão não é bem assim. A intenção desse livro é reunir 51 artigos escritos ao longo da década, com 10 temáticas diferentes, sobre o que a mídia estava falando, quais eram as intenções implícitas nesse discurso midiático, de uma aparente neutralidade, porém nós sabemos que tem interesses econômicos, sociais por trás desse discurso. O objetivo é tentar desvelar o que a mídia quer dizer nas entrelinhas", explicou.

Entre os assuntos analisados pelo livro, está o alinhamento da grande mídia com os interesses do capital, bem como o posicionamento político assumido pelos veículos em dois momentos distintos: a primeira metade da década, com o governo Dilma Rousseff, e a metade seguinte, com os governos Michel Temer e Jair Bolsonaro.

"Na mídia, em âmbito nacional, tivemos aqui durante a primeira metade da década, 2011-2015, um governo à esquerda. Durante esse período, como a direita brasileira estava inviável sob aspecto eleitoral, coube à grande mídia cumprir esse papel de oposição, tendo inclusive uma atuação muito importante durante o processo de impeachment, ao convocar inclusive às pessoas a irem às ruas. (...) O que eu analiso naquela campanha de 2018 é que a princípio o Jair Bolsonaro não era o candidato de preferência do grande capital e também da grande mídia, mas à medida em que o candidato do PSL vai se colocando como o único nome capaz de derrotar o PT nas eleições, há um apoio meio que envergonhado ao governo de Jair Bolsonaro, a partir da escolha de Paulo Guedes como ministro. Bolsonaro é eleito e encontra dificuldade de implantar essa agenda neoliberal. Aí é que existe o grande choque entre a grande mídia e Bolsonaro, a questão dos costumes bate de frente com a imprensa. Na questão do neoliberalismo, a imprensa está fechada com ele", disse.

Ladeira ainda avaliou que a mídia perdeu a prerrogativa de "ditar a agenda pública nacional" após a ascensão das mídias sociais e classificou a abordagem da imprensa sobre a pandemia como "ambígua": "Ao mesmo tempo que defendem as medidas sanitárias, o isolamento social para evitar a propagação do coronavírus, pede a abertura das escolas. A gente vê que essa campanha midiática pela volta às aulas presenciais é orquestrada. (...) A imprensa também tem que atender aos interesses do capital, e a abertura das escolas é a última fronteira que o capital ainda não adentrou nesse período de pandemia", pontuou.

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