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Templo da azulejaria brasileira, casa de Udo Knoff é destruída em Salvador

Cultura

Templo da azulejaria brasileira, casa de Udo Knoff é destruída em Salvador

Ponto de reunião de artistas como Carybé e Jenner Augusto, local vai virar um estacionamento

Templo da azulejaria brasileira, casa de Udo Knoff é destruída em Salvador

Foto: James Martins / Metropress

Por: James Martins no dia 02 de novembro de 2023 às 10:25

Atualizado: no dia 03 de novembro de 2023 às 08:31

A casa-atelier do ceramista Udo Knoff, na avenida Dom João VI, em Brotas, foi derrubada para dar lugar a um estacionamento. O crime consiste no fato de que o imóvel, considerado "o berço da azulejaria autoral criada na Bahia" pela pesquisadora Eliana Mello, coordenadora executiva do Projeto SOS Azulejo Brasil, é de evidente interesse público. Dali saíram inúmeros azulejos que marcam a memória visual da cidade e constituem um verdadeiro patrimônio histórico.

"Estou devastada com a notícia, no chão mesmo. Isso é inadmissível e precisamos fazer o que for possível para ajudar a salvar o que ainda pode ser salvo. A importância daquele lugar é inestimável", disse Eliana, de Belo Horizonte, em conversa com o Metro1.

A partir do contato da reportagem, Eliana, que há 12 anos dedica-se ao estudo e preservação da azulejaria contemporânea brasileira, tema que desenvolve em seu doutorado, no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Bahia (PPGAU-FA/UFBA), acionou Renata Alencar, coordenadora do Museu Udo Knoff de Azulejaria e Cerâmica, e também o diretor da Dimus (Diretoria de Museus), Pola Ribeiro, que imediatamente se dirigiram ao local na tentativa de interromper o processo de destruição e salvar as peças remanescentes.


Muro lateral, salvo pela intervenção. Foto: James Martins 

“Graças à informação recebida e à mobilização imediata por parte da Renata e do Pola, foi possível chegar a tempo de solicitar à empresa responsável pela obra, que a equipe do IPAC, vinculada à Diretoria de Projetos, obras e restauro (DiPro) e à Coordenação de Restauro de Elementos Artísticos (CORES), pudesse realizar, com segurança, a retirada dos azulejos que ainda permanecem integrados aos muros lateral e frontal. E esse trabalho já foi iniciado”, declarou.

Sobre a importância do imóvel, agora totalmente perdido, Eliana lembra que, além de local de trabalho, o espaço também servia a reuniões e trocas de experiências entre artistas: “Historicamente, o atelier de Udo Knoff, ao longo de 40 anos, além de atender as encomendas de azulejos autorais, não apenas de Salvador mas, também, de dezenas de cidades nordestinas, era o endereço para onde convergiam as demandas da preservação dos azulejos antigos, era a sala de aula, extraoficial, frequentada pelos alunos da Escola de Belas Artes em busca de aprimoramento e, por fim, era ponto de encontro dos artistas da terra, e de outras terras, que ali compartilhavam ideias e usavam argila, pigmentos e vidrados em experimentos criativos”.


Muro frontal, detalhe. Foto: James Martins

Em 2016, ela própria esteve no atelier e descobriu positivamente surpresa que "o espaço estava significativamente conservado pois, fornos, azulejos, pigmentos, telas e outros materiais de trabalho permaneciam nas prateleiras como se o ceramista ainda estivesse ali". Naquela altura, o responsável pelo atelier era o ex-genro de Udo, Fred, que após sua morte assumiu o ofício da azulejaria. Porém, o próprio Fred morreu em julho de 2019 e, depois disso, "a família fez do atelier uma espécie de 'bacia das almas', colocando tudo à venda", diz Eliana.

"Fizeram como que uma grande liquidação de quinquilharias e permitiram até que leiloeiros entrassem com makita em punho para cortar da parede azulejos que, posteriormente, eram oferecidos em seus sites, erroneamente, como obras de Carybé”, completa.


Atelier de Udo em 2019. Foto: Eliana Mello / proibida a reprodução

A pesquisadora tentou intervir contra o desmonte, colocou-se à disposição para ajudar na catalogação e preservação, acredita inclusive ter sensibilizado o neto de Udo Knoff, então à frente das negociações, para a importância do legado do avô, mas conclui que "a inércia dos setores do estado, hierarquicamente superiores, inviabilizou as iniciativas para preservação do que ainda restava”.

Em meio aos imbróglios do Leilão da Quinta do Tanque, ao abandono do edifício do Instituto do Cacau, à ruína do Solar Boa Vista, a demolição do atelier de Udo Knoff é mais um capítulo da falta de cuidado com a memória da primeira capital do Brasil. De uma geração que realmente parece não compreender a riqueza da cultura que herdou.  

Udo Knoff nasceu em Halle, na Alemanha, em 20 de maio de 1912, e faleceu em Salvador no dia 7 de junho de 1994. Em 1986 publicou o livro "Azulejos da Bahia", considerado a grande referência no assunto.