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Praça do Reggae completa 25 anos amargando abandono em pleno Largo do Pelourinho

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Praça do Reggae completa 25 anos amargando abandono em pleno Largo do Pelourinho

O local já recebeu shows de nomes como Edson Gomes Gregory Isaacs, Denis Brown, Adão Negro, Israel Vibration e hoje acumula lixo e mato

Praça do Reggae completa 25 anos amargando abandono em pleno Largo do Pelourinho

Foto: James Martins / Metropress

Por: James Martins no dia 10 de junho de 2024 às 10:10

Atualizado: no dia 12 de junho de 2024 às 19:40

Inaugurada em 1999, a Praça do Reggae comemora 25 anos em 2024. Porém, o equipamento cultural, localizado em pleno Largo do Pelourinho, e que nos tempos áureos recebeu shows de Edson Gomes, Gregory Isaacs, Denis Brown, Israel Vibration, Adão Negro e outros grandes nomes do gênero jamaicano, está desativado e abandonado desde 2011, numa demonstração de descaso e incompetência gritantes em relação ao patrimônio artístico. “Já tem mais tempo fechada do que passou aberta. Quer dizer, fechada, não. Fechada é pouco. A palavra certa é abandonada, destruída”, declara Lili Bezerra, ex-frequentadora do local.

"A praça vivia lotada, com gente saindo pelo ladrão. Já teve show com 1.200 pessoas dentro, a lotação máxima, e mais 3.000 fora", lembra Albino Apolinário, fundador do primeiro bar de reggae do Pelourinho, pioneiro de uma movimentação que levou à revitalização do bairro.

Atualmente, contendo ironia, o único aspecto positivo que se poderia vislumbrar no estado da Praça do Reggae seria o ecológico: como se o matagal crescente fosse um tipo de reflorestamento na capital cada vez mais desmatada. Mas, na verdade, nem isso. A vegetação traz insetos e outras pragas e incentiva que pessoas sem boa educação usem o local como lixão. "O mal cheiro que exala aí de dentro espanta os turistas e inferniza a vida da gente que trabalha aqui", desabafa a trançadeira Bel do Pelô, que tem ponto bem em frente.


Há 5 anos, painéis fotográficos disfarçavam o abandono... (Foto: Tácio Moreira).


Hoje nem isso. O local inspira moradores ao descarte de lixo e outros dejetos...

No ano passado, Albino criou esperanças de ver o espaço reativado a partir de uma emenda parlamentar do deputado federal Valmir Assunção (PT). Segundo ele, a verba teria chegado ao Instituto de Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac), vinculado à Secretaria Estadual de Cultura (Secult), para execução do trabalho. Isso, porém, já tem mais de um ano e nada. “A má vontade do PT com o Pelourinho é notória. As coisas são amarradas”, diz do agitador cultural e comerciante Carlos Augusto, o popular Big.

A responsabilidade sobre a Praça do Reggae, aliás, é um eterno jogo de empurra dentro do governo, entre o já citado Ipac e a Diretoria do Centro Antigo de Salvador (Dires), da Conder.


Nos bons tempos, lotada de gente por dentro e por fora...

Dono do bar Cravo Rastafári, hoje localizado na Rua das Flores, mas que já fez parte do complexo da Praça Reggae, Wilson Cravo não se conforma com o abandono do equipamento. “Perdi um público de mais de mil pessoas por culpa dessa má gestão”, afirma. Vale lembrar que o local não servia apenas aos artistas de reggae, mas já sediou, por exemplo, diversas temporadas de ensaio do bloco Cortejo Afro. Seu palco já recebeu artistas dos mais variados estilos, incluindo Caetano Veloso, Arnaldo Antunes, Mariene de Castro e Arto Lindsay.

Houve tempo em que painéis fotográficos se esforçavam para disfarçar um certo bem estar. Fingir que por detrás não havia apenas descaso. Hoje, porém, nem isso. Uma parte da estrutura do gradil desabou e foi completada com concreto. Lá dentro, o que se vê é, de fato, muito mato e lixo. A ex-Praça do Reggae inspira tanto desprezo que, mesmo do lado de fora, tem servido de ponto de descarte de lixo por parte de moradores do Centro Histórico. Nas grades que ainda restam, faixas protestam e clamam pela revitalização. “DEVOLVAM A PRAÇA DO REGGAE!”, pede uma delas, em letras garrafais.

Um pouco de história: Em 2009 (!), o então e atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou um aporte financeiro de R$ 4,4 milhões que seriam investidos, através do PAC das Cidades Históricas, em um palco móvel na Praça do Reggae. Por má ou nenhuma gestão, o recurso não foi aplicado e retornou para Brasília. Para se ter uma ideia do valor desperdiçado, basta lembrar que o mesmo plano direcionou R$ 1,1 milhão (¼) para recuperação das instalações do Terreiro do Gantois e da Igreja São Pedro dos Clérigos.