
Cultura
\"Imoral é o descaso com o humano\", critica Manno Góes em sessão sobre censura na Câmara dos Deputados
O compositor e baixista baiano Manno Góes esteve em Brasília nesta quinta-feira (23), na Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados, para participar da discussão sobre o Projeto de Lei 3291/15, que pretende estabelecer no Código Penal que manifestações artísticas não podem ser tipificadas como apologia ao crime. [Leia mais]

Foto: Renato Araújo/Câmara dos Deputados
O compositor e baixista baiano Manno Góes esteve em Brasília nesta quinta-feira (23), na Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados, para participar da discussão sobre o Projeto de Lei 3291/15, que pretende estabelecer no Código Penal que manifestações artísticas não podem ser tipificadas como apologia ao crime. O deputado João Carlos Bacelar (Podemos-BA) é o autor do projeto, e Jean Wyllys (PSOL) é o relator.
O principal exemplo utilizado pelo grupo e comentado por Manno foi o Queermuseu, que foi aberto em agosto deste ano no museu Santander Cultural, em Porto Alegre (RS), e menos de um mês depois fechado, após manifestações que criticavam a exposição e a acusavam de apologia à pedofilia, zoofilia e desrespeito a objetos e símbolos cristãos.
\"A gente é movido por sentimentos, expressões e interpretações, e muitas vezes se choca com muitas coisas que ouve porque vai de encontro a coisas que a gente pensa e imagina. Nessa discussão o que está em xeque é o tema da moralidade. Em nome da moralidade, já foram feitas muitas coisas criminosas, ruins. A gente não pode cercear o direito da liberdade através de um senso moral pessoal\", argumentou Manno, que também é diretor da União Brasileira de Compositores (UBV).
O compositor ainda criticou a seletividade da revolta de determinadas parcelas da população, que, segundo ele, revoltam-se com exposições de arte, mas não demonstram tanta comoção com os reais problemas enfrentados pela população. \"Eu gostaria muito que a gente estivesse aqui discutindo sobre proteção às nossas crianças. Que a gente se indignasse, tanto quanto vejo pessoas se indignando com exposições de arte, com aquela criança de 8 anos que desmaiou de fome na escola\", disse. Manno citou ainda outro exemplo: \"A gente deveria ter essa mesma indignação quando tiveram, lá no Rio, tiroteios na favela e as crianças precisaram passar por cadáveres para ir para a escola. Isso, sim, é uma ofensa à nossas famílias, às nossas crianças, aos nossos brasileiros\".
Durante sua fala, Manno ainda criticou o governo Michel Temer, que, de acordo com ele, não é legitimo. \"[Se indignasse] com essa situação atual do país, de falta de sensibilidade social que esse governo tem. Esse governo que não foi eleito, que está sendo empurrado goela abaixo da população brasileira, que tem 97% de rejeição, e que faz da causa social a sua menor pauta\".
Ainda falando sobre o momento político do país, Manno encerrou sua participação salientando a necessidade da liberdade nas manifestações artísticas. \"O conceito de moralidade varia muito de ponto de vista, mas há um senso comum de que o imoral é o descaso ao ser humano. É o desamor, o ambiente corrupto movido por lucros, por desejos pessoais, por votos. A gente que faz arte quer falar de libertação\", disse Manno, pedindo que as religiões sejam entendidas também como cultura, e como forma de liberação.
📲 Clique aqui para fazer parte do novo canal da Metropole no WhatsApp.

