
Cultura
Sincretismo religioso influenciou festa de Iemanjá, diz pesquisador
Em entrevista à Rádio Metrópole, Nelson Cadena falou sobre as transformações pelas quais a celebração passou através dos anos

Foto: Matheus Simoni / Metropress
O jornalista e pesquisador Nelson Cadena relatou, em entrevista a Mário Kertész, na Rádio Metrópole, o processo histórico que fez com que a festa de Iemanjá, realizada no dia 2 de fevereiro, se tornasse o que é atualmente. Cadena participou do Jornal da Bahia no Ar, na manhã de hoje (1º).
Segundo o pesquisador, o culto a Iemanjá, realizado pelos seguidores de religiões de matriz africana, é anterior ao surgimento da festa e acontecia em local e data diferentes dos atuais. "O culto original ocorria em Itapagipe, nas imediações do Forte Mont Serrat. Ele era realizado em setembro ou dezembro e reunia até 2 mil pais e filhos de santo, segundo Manuel Querino, no final do século XIX. O presente era colocado em uma talha grande de cerâmica e levado ao mar. Era uma festa que durava uma, duas semanas", explicou.
Cadena também contou que a mudança de data só aconteceu no momento em que o culto a Iemanjá foi sincretizado com a tradição católica. "2 de fevereiro é uma das datas mais importantes da igreja católica no mundo ocidental, porque é a data que se celebra a Purificação de Nossa Senhora", afirmou. De acordo com o pesquisador, a festa deixou de ter relações com o catolicismo nos últimos anos.
A tradição de realizar a festa no Rio Vermelho se fortaleceu depois que uma temporada de pesca desfavorável fez com que os pescadores rendessem homenagens à Rainha do Mar. Nos primeiros anos, apenas as classes populares participavam da celebração. De acordo com Cadena, a classe média começa a chegar no Rio Vermelho no final da década de 1850.
"Por volta de 1840, era impossível se ter pessoas de fora do Rio Vermelho, porque não tinha transporte. Só se chegava no Rio Vermelho pelo mar, e assim mesmo em uma situação muito difícil, porque ali o mar não é favorável à chegada de barcos. O Rio Vermelho começa a se tornar um lugar importante depois da epidemia de cólera de 1855. Essa epidemia fez com que muitos baianos fossem para aquela região, porque se dizia que tinha ares ótimos, bons ventos", relatou o pesquisador.
No entanto, Cadena frisou que a classe média não participava da celebração de matriz africana, e sim de sua contraparte sincretizada pelo catolicismo, a festa de Nossa Senhora de Santana. As oferendas a Iemanjá permaneceram na clandestinidade até 1937, quando aconteceu o Congresso Afro-Brasileiro.
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