Cultura

Mabel Veloso conta que foi discriminada por ter pele mais escura: 'Ninguém me dava muita atenção' 

Filha de Dona Canô, ela relembrou, em entrevista à Rádio Metrópole, a infância em Santo Amaro e como começou a publicar seus escritos

[Mabel Veloso conta que foi discriminada por ter pele mais escura: 'Ninguém me dava muita atenção' ]
Foto : Matheus Simoni/Metropress

Por Juliana Almirante no dia 20 de Novembro de 2019 ⋅ 12:40

Com 34 livros publicados, a educadora, escritora e poeta Mabel Veloso disse, em entrevista à Rádio Metrópole hoje (20) que não recebia atenção na escola, porque tinha a pele mais escura do que a de seus colegas. Apesar de escrever desde pequena, ela acabava escondendo sua habilidade.

"Comecei a escrever desde cedo. Tudo que me aborrecia eu escrevia e guardava. Tinha vários cadernos. Tinha caixas cheias de papéis, onde escrevia tudo, de bom e ruim, mas não mostrava a ninguém. Um dia, minha prima Lindaura pegou um papel, perguntou quem escreveu. Ela ficou intrigada e disse que eu escrevia muito bonito. Mas no colégio ninguém me dava muita atenção. Estudava em colégio das freiras, em Santo Amaro. Nesse tempo eu era classificada como preta, escura e me deixavam de lado. Tinham filhos de espanhois. Eu era moreninha e me sentia diminuída", relata.

Filha de José Veloso e Claudionor (Dona Canô) Viana Teles Veloso, Mabel é irmã dos cantores Maria Bethânia e de Caetano Veloso. A infância da escritora foi na cidade de Santo Amaro, no recôncavo baiano. Ela lembra de um episódio em que gostaria de ficar no altar da igreja local, mas foi rejeitada por conta da cor da pele. 

"Santo Amaro é a cidade da Bahia com mais negros. Eu era menina e não deixaram subir no altar porque eu era mais escura. Será que nossa senhora escolhe a cor dos seus anjos? Aquilo me prejudicou", recorda. 

Mabel só começou a publicar seus escritos aos 46 anos, depois de um divórcio. Ela mostrou o que escrevia para Maria Bethânia, que a incentivou a escrever, mas esbarrou na avaliação da mãe, Dona Canô. 

"Com livro pronto, minha mãe disse: 'Você se expôs demais'. Eu fiquei arrasada. (...) Mas depois me lembrei que Caetano escreveu: 'Não me importa com quem você se deita, que você se deleite seja com quem for'. Porque ele disse isso e eu não posso? Porque sou mulher? Vou dizer", declarou. 

"Aí saiu (o livro) Pedras de Seixo. Foram pedradas que a vida me deu e consegui pegar algumas e fiz de brilhantes e pedras preciosas. A vida continuou e vou vivendo, vou feliz. Graças a Deus, aquela coisa triste que vivia em mim passou", completou.

Também escritora de livros infantis, Mabel afirma que decidiu começar a escrever para crianças porque queria representar os pequenos daqui, que não se enxergavam nos contos europeus.

"Comecei a me preocupar quando ensinava em Santo Amaro e meus meninos, na maioria, eram negros. Só ouviam falar em Branca de Neve e as meninas tinham trança de nagô. Eu não queria isso e comecei a contar minhas histórias. Comecei a escrever para as crianças, porque elas não gostavam de ouvir as histórias. Eu dizia: 'Porque não gosta'? 'Porque nenhuma conta meu nome'. Não se identificavam. Aí comecei a criar histórias onde os meninos pudessem entrar", justifica. 

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