Cultura

Caetano Veloso 78: 7,8 coisas que você não sabia (mesmo) sobre ele

O cantor e compositor comemora com live lendária suas quase oito décadas de vida e segue mais ao vivo que nunca

[Caetano Veloso 78: 7,8 coisas que você não sabia (mesmo) sobre ele]
Foto : Divulgação

Por James Martins no dia 07 de Agosto de 2020 ⋅ 08:00

Caetano Veloso comemora 78 anos hoje (7). Com direito a show ao vivo online: live! Para aquecer, decidi enumerar 7 (na verdade 7,8 – com um bônus) coisas que o leitor e a leitora não sabem (mesmo) sobre o leão. 

São comuns na internet essas listas de 10, 20, não-sei-quantas coisas que você não sabia a respeito de fulano de tal. Na grande maioria dos casos, porém, à exceção daquelas pessoas que realmente não sabem de nada, todo mundo já sabia de tudo ou quase tudo que aparece nas tais listas. Daí o “mesmo”, desta.

Não que sejam fatos realmente e/ou totalmente desconhecidos de todos. São, contudo, certamente menos manjados, sabidos talvez por um ou outro fã mais ardoroso do grande cantor e compositor santoamarense. Dizer que ele é sant’amarense, por exemplo, não foi sequer cogitado, obviamente.

Eventos pouco divulgados, outros esquecidos. Outros, ainda, inéditos de fato, a respeito de Caetano. 7 apenas, contados nos dedos. Melhor: 7,8 – com um bônus. Eis:

1 – ESTUDOU NO SEVERINO VIEIRA

O primeiro item é mais um pretexto para publicar essa foto maravilhosa da carteirinha de estudante de Caetano nos tempos de Severino. O colégio, para quem não sabe, fica no bairro de Nazaré, em Salvador, onde ele e Bethânia moravam quando vieram à capital para estudar.

"Adorei ver. Nem me lembrava como era… Estou bem indiano. Eu amava o Severino”, disse ele ao ser reapresentado por mim à imagem. Foi no Severino Vieira que Caetano, aluno da professora Neide Candolina (ela mesma consagrada a nome de colégio, depois, no Pau Miúdo), se safou da recuperação ao tirar 10 em uma prova oral de Português. Ele também homenageou a docente na canção “Neide Candolina”, gravada em “Circuladô” (1991).

2 – FOI COREÓGRAFO E DANÇARINO DE CHÁ-CHÁ-CHÁ NO GINÁSIO EM SANTO AMARO

Pois é, pouca gente sabe que entre os muitos talentos do autor de “Muito” está esse. Mas, como se pode ver no vídeo abaixo, Caetano e Bethânia chegaram mesmo a fazer apresentações dançando cha-cha-chá no colégio e nas casas de amigos e parentes, ainda muito jovens, em sua cidade natal. Com direito a babados de rumbeira e ensaios em cima da mesa. Bem fechativas!

As imagens, gravadas no terreiro do Gantois, em Salvador, foram captadas para o documentário “Circuladô” (1992), de José Henrique Fonseca e Walter Salles Jr., sobre os 50 anos de CV.

3 – SOFREU ATENTADO A BOMBA E A BALA


Foto: Jornal O Globo / Reprodução

Na época, o caso provocou rebuliço e ganhou os noticiários, é óbvio. Mas, hoje quase ninguém se lembra de que a casa onde Caetano Veloso morava com Paula Lavigne, ainda em Ondina, antes mesmo do nascimento de Zeca, o primeiro filho do casal, sofreu um atentado por coquetel molotov e tiros de revólver.

Aconteceu no dia 26 de janeiro de 1990. Coincidência ou não, 15 dias antes o cantor tinha feito críticas públicas ao então prefeito da cidade, o ex-radialista Fernando José – considerado à época “o mais impopular” do país.

Doído com as queixas do artista contra a gestão de seu apadrinhado político, o empresário espanhol Pedro Irujo, radicado na Bahia e então dono da TV Itapoan, usou o veículo de comunicação para esculhambar o artista a quem chamou de “mau-caráter e descarado”.

Caetano, evidentemente, ficou assustado com o atentado. Ele disse à imprensa: “Se alguém queria me intimidar, conseguiu. Estou com muito medo, mas não deixarei de fazer as críticas que acho necessárias”. Ninguém ficou (fisicamente) ferido.
    
4 – JÁ DIRIGIU UM FILME (E ESCREVEU CRÍTICAS DE CINEMA)

O filme se chama “O Cinema Falado” (1986) e, como muitos lançamentos musicais de Caetano (até mesmo muito mais que muitos desses), provocou a maior confusão.

Lançado no Fest-Rio, na mostra não-competitiva, não faltou quem quisesse falar mal do cinema falado, mesmo antes de vê-lo. O cineasta Arthur Omar foi um dos críticos mais agressivos. Assim como a diretora Suzana Amaral. Como sempre, o baiano não comeu calado: “Burrice agressiva contra o que me interessa eu não perdoo nunca”.

O filme, estruturalmente inspirado no romance “Três Tristes Tigres”, do cubano Cabrera Infante, todo escrito com monólogos justapostos, tem longas cenas separadas por capítulos como “Música”, “Cinema” e “Pintura”. No elenco estão, entre outros, Hamilton Vaz Pereira, Paulo César de Souza, Regina Casé, D. Canô e Maurício Mattar.


Caderno de anotações do jovem Caetano (Rodrigo Veloso: acervo pessoal).

A fase crítico de cinema de Caetano Veloso começou em Santo Amaro, onde ele escrevia para o jornal “O Archote”, entre 1960 e 1962. Segue um trecho, sobre “Rocco e Seus Irmãos” (1960), de Visconti: “É o maior dos grandes filmes modernos. A objetividade com que encara os problemas do homem atual, discutindo dialeticamente o seu drama social, faz dessa obra um dos maiores acontecimentos artísticos do mundo moderno”.

E sobre “Juventude Transviada” (1955): “Talvez quem dá a maior dose de autenticidade ao drama é James Dean que sabe tirar proveito de sua beleza revolucionária (se podemos dizer assim), construindo um personagem em cuja expressão facial angustiada e cínica se encontra revoltada denúncia que o filme não teve coragem de fazer: a denúncia contra uma sociedade burguesa decadente que causa, com sua falsidade moral e religiosa, todo o desespero ético e metafísico da geração nova”.

5 – NUNCA FEZ COMERCIAL

E também jamais permitiu que nenhuma de suas composições virasse jingle.

Essa atitude, da parte de um artista que sempre defendeu e mesmo exaltou a saúde do mercado; que colocou na contracapa-roteiro do disco “Tropicália – ou Panis et Circenses” a pergunta-provocação: “Como receberão a notícia de que o disco é feito para vender?” (feita, no entanto, a si mesmo e aos seus); que mencionou pioneiramente a coca-cola em letra de canção; ganha ainda mais em potência informativa.

O que quer, o que pode esse artista comercial?

6 – PERDEU UMA FILHA

E como nem tudo é só alegria na vida de um super-herói, mesmo que seja o Superbacana, a sexta coisa que você não sabia (ou já não lembrava) sobre o nosso aniversariante é um anti-aniversário: a triste morte de Júlia, filha de Caetano com Dedé que morreu logo após nascer prematuramente, no início de 1979.

À época o jornalista Reynivaldo Brito conseguiu falar com o cantor por telefone e fez uma matéria para a revista Manchete. “Vocês podem fazer um pequeno registro de que estamos arrasados com o que houve. Porque esperávamos que ela sobrevivesse. Mas a vida é assim mesmo. E vamos pra frente”, disse Caetano, que agora tem três filhos adultos e acaba de ganhar um neto do mais jovem, Tom.


Foto: Revista Manchete / Reprodução

7- DUBLOU ARMANDINHO CANTANDO ‘BELEZA PURA’

Essa história hilária e maravilhosa ouvi do cineasta e compositor Jorge Alfredo. Aconteceu em um ensaio do Afoxé Badauê, no início dos anos 1980. Jorge, Caetano e outros artistas foram convidados para uma canja. Tudo lindo! Embora o som fosse playback. Jorge Alfredo, ele próprio, foi lá e deu sua dubladinha. Os outros todos, idem. E no final, para alegria, alegria geral da nação, a estrela maior da noite sobe ao palco: Caetano Veloso. 

Ele se preparou para cantar/dublar “Beleza Pura”, aquela que fala em “moço lindo do Badauê”. Soltaram o som e... tchan-tchan-tchan-tchan: era a gravação d’”A Cor do Som”, na voz de Armandinho.

Tão pensando que Caetano se fez de rogado? Nada. Dublou tudo direitinho até o final, como se nada tivesse acontecido, e todo mundo ficou satisfeito. Depois, segundo Jorge Alfredo, o cantor lhe disse algo assim: “Essa gente é tão boa conosco, eu não iria magoá-los por causa de um detalhe”.

Para quem, por ventura, já sabia e lembrava de tudo e só perdeu tempo aqui, enganado pelo “mesmo”, peço desculpas. Para a maioria, no entanto, sei que foi um modo interessante de lembrar a passagem dos 78 anos desse grande artista brasileiro. E se preparar pra o show de hoje. Por fim, o prometido bônus:

7,8 – ESTACIONOU O CARRO E ATRAVESSOU A RUA NO LEBLON

Esse é, na verdade, e infelizmente, o fato mais lembrado. E já fez até aniversários também. O mais engraçado é que saiu no “Terra”, talvez para evocar “as tais fotografias em que apareces inteira, porém lá não estavas nua, e sim coberta de nuvens”. Parabéns!

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