Cultura

Historiador decifra sucesso de Dorival Caymmi e importância para a Bahia

Para Vítor Queiroz, aparente ausência de Caymmi o encorajou a escrever sobre a obra do baiano que viveu por quase 100 anos

[Historiador decifra sucesso de Dorival Caymmi e importância para a Bahia]
Foto : Metropress

Por Juliana Rodrigues no dia 22 de Setembro de 2020 ⋅ 13:30

O historiador e doutor em Antropologia pela Unicamp, Vitor Queiroz, falou hoje (22), em entrevista à Rádio Metrópole, sobre o livro "Dorival Caymmi - A pedra que ronca no meio do mar". A obra, que é fruto da tese de doutorado do pesquisador, tenta decifrar o segredo do sucesso do emblemático compositor baiano à luz da negociação de identidades locais e nacionais, além das transformações que teriam ocorrido no âmbito das experiências raciais durante o século XX.

Segundo Queiroz, a pesquisa que deu origem ao livro, orientada pela docente Heloísa Pontes e co-orientada por Luiz Gustavo Freitas Rossi, nasceu de um aparente paradoxo. "O mistério principal pra mim foi que Caymmi é uma pessoa que viveu muito tempo, quase cem anos, e durante grande parte da vida não estava nos palcos, nos estúdios de gravação, ou seja, estava fisicamente ausente. Aí eu estava com isso na cabeça: como é que alguém passa 40 anos fisicamente ausente, mas não fica desconhecido? Muito pelo contrário, o nome dele vai sendo propagado. Essa era minha dúvida inicial: como é que esse corpo ausente consegue adquirir essa expansão. Falei com a família dele, com os amigos, e fui me enfronhando nos documentos para tentar acessar esse mistério. O mistério continuou, na verdade, porque Caymmi foi uma pessoa muito silenciosa e reservada", explicou. 

O título do livro, segundo o historiador, vem de uma música presente no repertório do álbum "Caymmi", de 1972, último disco de estúdio de Caymmi com canções inéditas. O disco, gravado na Bahia, representa um momento importante da trajetória do compositor e da relação dele com a terra natal. "Tem uma relação de amor e ódio não de Caymmi com a Bahia, mas de Salvador em relação a Caymmi. Desde que ele vai pro Rio de Janeiro, jovem, aos 24 anos, quando começa a ter os primeiros sucessos, já naquele momento dizem assim 'cadê ele, que é baiano, que não está aqui?'.

Como Caymmi era uma pessoa muito polida, um gentleman, a gente nunca viu um barraco com ele. Esse momento dessa pequena volta para Salvador representa um drama social, no sentido de uma peça teatral com muitos atores, muito complexa (...). O preço pago por essa mudança para Salvador foi caro, porque o que se esperava tacitamente de Caymmi era que ele virasse um 'músico oficial'. Ele foi incitado a cantar de graça em tudo, e além de tudo virou ponto turístico, as pessoas iam visitar a casa dele", disse.

O pesquisador também falou sobre a importância de Caymmi e de outros nomes importantes da cultura na Bahia do século XX, como o artista plástico Carybé e o escritor Jorge Amado, para construção e negociação do que hoje se conhece como "baianidade". "Essa identidade baiana foi negociada, em grande parte, por esse grupo de amigos de Dorival Caymmi que têm um projeto artístico comum. Por uma série de razões que historicamente deu certo, esse projeto foi oficializado em algum momento, e ao mesmo tempo popularizado. O que hoje a gente toma como identidade baiana é muito parecido com a obra desses criadores. Se a gente imaginasse a identidade baiana em 1910, ia ficar chocado, porque não tem nada de Pelourinho, de negro, de candomblé", afirmou.

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