Cultura

Em novo livro, Lilia Schwarcz compara Gripe Espanhola e Covid: ‘O presente está lotado de passado’

A historiadora ressaltou que a obra tem um capítulo inteiro voltado para desmentir a informação, amplamente difundida, de que o então presidente da República, Rodrigues Alves, morreu de gripe espanhola

[Em novo livro, Lilia Schwarcz compara Gripe Espanhola e Covid: ‘O presente está lotado de passado’]
Foto : Divulgação

Por Juliana Rodrigues no dia 13 de Outubro de 2020 ⋅ 13:11

A escritora e historiadora Lilia Moritz Schwarcz apontou, em entrevista a Mário Kertész, hoje (13), na Rádio Metrópole, as semelhanças entre a pandemia de gripe espanhola e a atual crise da Covid-19 no Brasil. Durante o isolamento social, em parceria com a também historiadora Heloísa Starling, Lilia escreveu o livro "A Bailarina da Morte: a gripe espanhola no Brasil", recém-lançado em formato físico e digital.

"O presente está lotado de passado mesmo. Existem muitos paralelos. Primeiro, o negacionismo. As pessoas diziam 'esse é um país tropical, aqui não chega'. Depois, também, a gripe espanhola foi muito utilizada pelos políticos para fins ideológicos. Quem estava na posição negava. quem estava na oposição destacava. Mas tem uma coincidência que eu acho maravilhosa e maluca, é que na época, em 1918, as autoridades brasileiras primeiro começaram a indicar sal de quinino, que era um remédio indicado para malária. E já naquele contexto os médicos diziam que não funcionava, dava taquicardia, problemas cardíacos. A composição do sal de quinino é a mesma da nossa cloroquina. Nós achamos uma propaganda em Belo Horizonte vendendo a cloroquina. A mesma batalha, os governos querendo saída fácil, querendo remédios milagrosos e as autoridades médicas dizendo que não funciona. Veja como a realidade se repete", afirmou.

Mesmo com a postura negacionista inicial, no entanto, Lilia avaliou que a população mostrava maior tendência a seguir as orientações médicas, ao contrário do que ocorre hoje: "O Brasil ainda não estava federalizado, mas as pessoas seguiram um pouco a capital federal, que na época era o Rio de Janeiro. Seguiram orientações de médicos sanitaristas, como o próprio Carlos Chagas. Muito diferente de agora, que temos, a mando do presidente, um general na pasta da Saúde, que não tem nenhuma especialidade em saúde pública. Neste quesito andamos para trás".

A historiadora ressaltou que a obra tem um capítulo inteiro voltado para desmentir a informação, amplamente difundida, de que o então presidente da República, Rodrigues Alves, morreu de gripe espanhola. "Os documentos, inclusive publicados nos jornais da época, diziam que Rodrigues Alves morreu de uma arritmia muito forte. E a gente via que nos jornais aparecia o diagnóstico dos médicos, mas também aparecia maior a questão da gripe espanhola. Começamos a conjecturar sobre a criação desse boato. Nossa hipótese é que Rodrigues Alves foi eleito para o segundo turno quando já estava muito doente, e foi eleito em nome da política do Café com Leite. Então, a melhor política foi dizer que o presidente morreu junto com seu povo, em meio à gripe espanhola. Foi uma grande fake news ampliada pelos historiadores", disse.

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