Cultura

Restaurante Mini Cacique fecha e deixa a Bahia mais pobre

Fundado em 1974, o local era da predileção de Carybé, Pierre Verger, Dimitri Ganzelevitch e tantos apreciadores da boa comida

[Restaurante Mini Cacique fecha e deixa a Bahia mais pobre]
Foto : Dimitri Ganzelevitch / Divulgação

Por James Martins no dia 06 de Novembro de 2020 ⋅ 12:03

A pandemia abateu um dos mais importantes equipamentos culturais de Salvador: o restaurante Mini Cacique. Fundado em 1974 por Caline Sena e Luis Martinez Esteves, o local da preferência de Carybé, Pierre Verger, Dimitri Ganzelevitch e tantos apreciadores da boa comida e boa receptividade baianas, situado na rua Ruy Barbosa, nº 29, não voltou com a reabertura do comércio.

E se é verdade, como pretendeu Câmara Cascudo, que o nível de uma civilização se mede pela qualidade de sua comida e seus modos à mesa, a verdade é que, sem o Mini Cacique, Salvador fica mais pobre. Sobretudo o Centro Histórico, cada vez mais entregue ao esquema dos restaurantes/lanchonetes apressados, insossos, distantes e distintos de nosso modo de ser. "Resta o Porto do Moreira, mas o fechamento do Mini Cacique é realmente uma tristeza enorme, é desolador", diz o marchand Dimitri, apreciador especial da rabada das terças-feiras.

O carro-chefe do cardápio de Dona Caline, porém, era o cozido das quintas. Mas tudo ali era especial. Ou melhor, especialmente trivial (ou trivialmente especial) desde a famosa paella até a decoração com jeitão de casa da gente. E por falar nisso, o Mini Cacique, mesmo na rua dos antiquários e dos sebos, sabia muito bem equilibrar o tradicional ao contemporâneo, nos fazendo pensar nas sábias palavras de Manuel Bandeira: "O que ninguém lhes poderia dar é aquele aspecto tradicional, tão diferente do das velhas cidades mineiras, porque na Bahia a tradição está viva, integrada no presente mais atual, dominando estupendamente o progressismo apressado, sovina e tapeador que tem desfigurado as nossas cidades litorâneas".

Está dado o recado. O imóvel onde funcionou por 46 anos o Mini Cacique está à venda. Que seu fim seja compensado por outras casas de pasto que, se não precisam nem devem mimetizar o passado, tampouco deveriam render-se às regras do "progressismo apressado, sovina e tapeador". O Centro Histórico clama por ações criativas a partir de nós, compreensivas daquela tradição viva que encantou o poeta. 

Por fim, uns versos de Guerra Junqueira citados pelo professor Bernardino José de Souza, à guisa de prefácio ao pioneiríssimo "A Arte Culinária na Bahia" (1929), livro de outro grande Manuel, o Querino:

"Bom estômago e ventre livre — um patrimônio.
A vida é boa ou má, faz rir ou faz chorar,
Conforme a digestão e conforme o jantar.
Toda filosofia, pode crê-lo, Doutor,
Ou tristonha, ou risonha, ou alegre, ou sombria
Deriva em nós, tão orgulhosas criaturas,
De gastrointestinais combinações obscuras".

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