
Economia
Conflito no Oriente Médio pode pressionar preços globais de alimentos
Alta já aparece em carnes e óleos vegetais e especialistas alertam para possível impacto maior caso guerra se prolongue

Foto: Canva imagens
O conflito geopolítico no Oriente Médio ocorre em um momento em que o preço médio internacional dos alimentos voltou a subir após cinco meses consecutivos de queda. Até agora, as pressões mais fortes estão concentradas em carnes e óleos vegetais, mas especialistas avaliam que um prolongamento do confronto envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã pode provocar uma nova onda de inflação alimentar no mundo.
Um cenário semelhante foi observado em 2022, após a invasão da Ucrânia pela Rússia. Naquele ano, os preços internacionais dos cinco principais grupos monitorados pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), cereais, carnes, açúcar, óleos vegetais e lácteos, registraram aumento médio de 15% em relação a 2021. A queda na produção ucraniana, problemas logísticos no transporte de alimentos, aumento do diesel e de insumos agrícolas, além da alta no frete e nos seguros, contribuíram para a escalada dos preços.
Analistas alertam que efeitos semelhantes podem ocorrer caso o novo conflito se estenda, principalmente se houver interrupções no tráfego do Estreito de Hormuz, rota estratégica para o transporte global de energia.
Alta em fevereiro
De acordo com a FAO, a alta registrada em fevereiro ainda não está relacionada diretamente aos ataques envolvendo o Irã. O avanço foi puxado principalmente pelos preços de carnes e óleos vegetais. No caso das carnes, os valores atingiram o nível anual mais alto da série histórica da entidade em termos nominais.
A demanda segue forte em grandes mercados consumidores como China e Estados Unidos. Ao mesmo tempo, importantes fornecedores globais enfrentam limitações na oferta. Os EUA têm atualmente o menor rebanho bovino em 75 anos, o que deve aumentar as importações. A China, mesmo com cotas de importação, continua sendo um dos maiores compradores mundiais.
Outros produtos afetados
Outros produtores também apresentam restrições de oferta. A Austrália registra menor disponibilidade de carne bovina, enquanto o Brasil, maior produtor e exportador mundial, não prevê expansão significativa da produção neste ano. Um dos sinais dessa pressão é o preço recorde da arroba do boi gordo no país, que chegou a R$ 353, refletindo a entrada em um novo ciclo pecuário.
Os óleos vegetais também enfrentam valorização global, impulsionados pelo aumento da demanda para produção de biocombustíveis. O Brasil ampliou recentemente a mistura de biodiesel ao diesel, enquanto os Estados Unidos estudam elevar em 67% a participação de biodiesel e diesel renovável na matriz de combustíveis fósseis.
Caso a proposta da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) seja aprovada, o país poderá consumir cerca de 5,61 bilhões de galões de biodiesel e diesel renovável. Esse aumento deve elevar o esmagamento de soja para 74,5 milhões de toneladas, ante 70 milhões no ano passado, segundo estimativas de consultorias do setor.
A maior demanda por óleos também está ligada às políticas energéticas de países como a Indonésia, grande produtora de óleo de palma, que pretende ampliar o uso de óleo vegetal em combustíveis, reduzindo a oferta no mercado internacional.
Entre os cereais, os preços subiram 1,1% em fevereiro, embora ainda estejam 3,5% abaixo do patamar registrado há um ano. O milho permanece estável, enquanto sorgo e arroz voltaram a registrar alta diante da maior procura internacional.
No segmento de lácteos, houve queda de 1,2% em fevereiro em relação a janeiro, acumulando retração de 19,2% em doze meses. Ainda assim, produtos como leite em pó integral e desnatado começam a reagir devido à menor oferta da Oceania. No Brasil, após nove meses de queda, o preço do leite voltou a subir no campo, com alta de 1% em janeiro, segundo dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea).
Já o açúcar segue no menor nível anual em seis anos, de acordo com a FAO, pressionado pela maior oferta global. Mesmo assim, especialistas apontam que mudanças na produção brasileira, como maior destinação de cana para etanol, podem influenciar os preços no mercado internacional.
Apesar de os estoques globais de grãos estarem mais equilibrados do que no início da guerra entre Rússia e Ucrânia, analistas avaliam que um conflito prolongado no Oriente Médio ainda pode elevar os preços dos alimentos, principalmente devido a possíveis problemas logísticos e ao aumento nos custos de produção.
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