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Flávio Bolsonaro pagou R$ 600 mil a empresa que oferecia IA para manipular eleições nos EUA
Eleições 2026
Flávio Bolsonaro pagou R$ 600 mil a empresa que oferecia IA para manipular eleições nos EUA
Segundo o Intercept Brasil, a Elytron recebeu pagamentos da campanha presidencial e do PL; empresa nega oferecer serviços de manipulação política, e não há provas de que a tecnologia tenha sido utilizada nas eleições deste ano

Foto: Vittor Sales/Campanha Flávio Bolsonaro
A campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência pagou R$ 600 mil à Elytron, empresa de segurança digital que tentou vender nos Estados Unidos um sistema de inteligência artificial voltado à manipulação de eleições. A informação é de uma reportagem exclusiva do Intercept Brasil, publicada nesta sexta-feira (16).
Segundo o site, o PL, partido de Flávio, também registrou um pagamento de R$ 131,9 mil à mesma empresa, em julho, por “serviços técnico-profissionais”. Não há provas de que o sistema tenha sido usado pela campanha ou pelo partido nas eleições deste ano.
O que diz a denúncia
Os documentos foram entregues ao Intercept pelo empresário norte-americano Vincent Edward Reed, que trabalhou como consultor da Elytron entre 2024 e 2025. Ele afirma ter intermediado a apresentação do sistema a pessoas ligadas à campanha de Donald Trump em 2024. A tecnologia chegou a ser demonstrada, mas não há confirmação de que tenha sido contratada.
Em uma apresentação confidencial em inglês, reproduzida pelo Intercept (veja nas imagens), a empresa descreve o serviço em etapas. Primeiro, define-se o objetivo político. Depois, a operação se divide em três frentes: ações psicológicas, como a infiltração em redes de opositores; operações especiais, que incluem espalhar informações falsas pela imprensa e desacreditar adversários; e o gerenciamento de opiniões nas redes. Por fim, o conteúdo, que pode incluir imagens, memes e deepfakes, é distribuído de forma coordenada em blogs, redes sociais e veículos de imprensa.

Outra página do material fala em criar uma força para silenciar opositores e na atuação de um “exército digital”. Também lista como objetivos tornar ataques e interferências imperceptíveis e transmitir ao cliente uma imagem de poder e controle. Um terceiro documento explica como plantar opiniões em grupos muito polarizados, separados por região, idade e engajamento político, com o uso de perfis automatizados e técnicas de guerra psicológica. A empresa também oferecia emplacar reportagens em veículos internacionais, como The New York Times, Reuters e CNN.

Uma especialista em desinformação ouvida pelo site avaliou que o plano descrito nos documentos corresponde, de ponta a ponta, ao que se define como operação de influência.
Reed diz que se afastou da empresa por considerar o sistema antiético e ilegal, e que chegou a denunciar o caso ao FBI e a uma comissão da Câmara dos Estados Unidos, sem que as apurações avançassem. Segundo o Intercept, foi ao ver os pagamentos da campanha de Flávio que ele decidiu procurar a imprensa brasileira.
Os pagamentos
No sistema de prestação de contas da Justiça Eleitoral, constam três notas fiscais da Elytron: duas de R$ 500 mil, emitidas em 16 de setembro, uma delas cancelada, e uma de R$ 100 mil, de 2 de outubro. Na prestação de contas parcial entregue no fim de setembro, porém, a campanha declarou uma despesa de R$ 1 milhão com a empresa. As notas descrevem o serviço de forma genérica, como consultoria em tecnologia, com atividades como monitoramento e testes de segurança.
Conexões
A reportagem aponta que a Elytron tem um braço em Portugal e que executivos ligados à empresa diziam ter relação com o xeque Tahnoon bin Zayed al-Nahyan, conselheiro de segurança nacional dos Emirados Árabes Unidos. No Brasil, segundo o site, dirigentes da empresa têm ligações com o entorno de Pablo Marçal, que integra a equipe de campanha de Flávio desde setembro. O lutador Renzo Gracie, aliado da família Bolsonaro, aparece como sócio de executivos da empresa em outro negócio.
O que dizem os citados
A campanha de Flávio Bolsonaro afirmou ao Intercept que não contrata serviços que violem a legislação eleitoral. Disse ainda que a Elytron foi contratada apenas para proteger seus sistemas contra ataques cibernéticos, que a contratação seguiu os procedimentos regulares, e classificou como eleitoreira a tentativa de associá-la a manipulação política.
Jorge Remígio e Ludgero de Sousa, que se apresentam como executivos da Elytron para Europa, Oriente Médio e África, confirmaram o contato com Reed, mas negaram reuniões com a campanha de Trump e disseram que a empresa não oferece manipulação política nem deepfakes. Remígio afirmou que a empresa europeia é diferente da que atua no Brasil.
Renzo Gracie disse que é sócio de dois dos executivos em outra empresa, mas que não tem relação com a Elytron. A Elytron no Brasil e seu CEO, João Brasio, não responderam ao site até a publicação.
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