O Vitória caminha para ser reconhecido como um clube democrático, com seus associados tendo direito ao voto. No entanto, antes disso acontecer, situação e oposição precisam encontrar um denominador comum. Não parece estar tão distante assim, mas... O buraco é um pouco mais embaixo de onde está o Barradão.
Ainda mais depois da reunião de apresentação do projeto de reforma do estatuto, que aconteceu na última segunda (16) no estádio. O projeto nem teve espaço para ser analisado. Debates acalorados e discussões atrapalharam o andamento da reunião. Pessoas que estavam presentes na reunião, inclusive, chegaram a dizer que o ex-presidente Alexi Portela, num momento mais exaltado, teria chamado o clube de “merda”. Ele nega.
Na reunião, o deputado José Rocha (PR), presidente do Conselho Deliberativo, afirmou que “o melhor texto que poderia ser feito é o que foi apresentado”. “Faltou mais compreensão por parte dos conselheiros”, declarou. A proposta de mudança [ver quadro] é exatamente o maior entrave da discussão. Desde 2006 no poder, o grupo do ex-presidente Alexi Portela se mantém no comando rubro-negro com a ajuda de um estatuto que dificulta a articulação da oposição — que, por sua vez, agora parte para a briga.
Articulador, Alexi portela até admite voto de sócios, mas só de uma minoria
Alexi Portela — que, embora não tenha cargo no clube atualmente, é o principal articulador político da situação rubro-negra — disse ser a favor do voto direto no Vitória, mas quer restringir o privilégio aos sócios contribuintes — muito mais antigos e em bem menor número do que os sócios-torcedores e Sou Mais Vitória (SMV). “Sou a favor das eleições, desde que haja uma diferenciação entre o sócio-torcedor e o contribuinte. Uma coisa é ter acesso ao estádio, outra é poder votar”, disse.
Ele nega representar o atraso e alega ser responsável por abrir o clube: “Se o sócio Sou Mais Vitória hoje vota, foi por conta da minha gestão”, disse. Na verdade, o sócio SMV vota apenas na chapa do conselho e não diretamente para presidente.
Projeto foi apresentado com só 48h de antecedência
Ainda será necessário algum tempo para a reforma sair do papel, uma vez que Portela admite sequer ter lido a proposta. “Eu estava ocupado com a Seleção Brasileira na Argentina”, ponderou, referindo-se à delegação da partida pelas Eliminatórias da Copa de 2018, da qual fez parte.
“Falei com José Rocha. A reunião aconteceu em um momento inoportuno, pois ainda não subimos para a Série A. Nosso foco deveria ser o jogo de sábado”, reclamou Portela. Rocha, presidente do Conselho, concordou. O projeto foi apresentado com pouco mais de 48h de antecedência à reunião.
“Alegar falta de tempo é uma insensatez”
Enquanto se debate a reforma do estatuto, Augusto Vasconcelos, do movimento de oposição Frente 1899, afirma que na reunião do Conselho “existiam setores que queriam impedir a reforma, dizendo que a democracia não faria bem ao clube”. Ele disse ainda que o debate pela democracia é antigo. “Alegar [falta de tempo] é uma insensatez. Não vamos admitir tentativas de inviabilizar a aprovação do estatuto com a democracia”, concluiu.
Redes sociais esquentaram
O estopim para a popularização do debate pela democracia no Vitória foi a circulação de frases creditadas a Alexi Portela durante a reunião. São elas: “A torcida do Vitória é uma merda! A verdade é essa”; “Fui eu e Rodrigo [Portela, seu filho] que tiramos ele [o ex-presidente Carlos Falcão, que renunciou este ano], com as notas na imprensa”; “Torcedor quer é bola na rede, não democracia”; “Se democracia fosse bom, todas as prefeituras eram superavitárias”; e
“11 mil num jogo importante como esse [contra o Ceará, no sábado (14)], é porque o torcedor do Vitória é uma merda”. Alexi nega tudo.
Ao menos uma das frases, porém, Portela reproduziu à Metrópole, embora com outras palavras. “Eu acho que a torcida, que cobra tanto que o Vitória tenha jogadores melhores, tem que comparecer ao estádio. Achei pouco só 11 mil torcedores num jogo decisivo contra o Ceará”, declarou na quarta (18).