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Dos cravos ao Chega: Em meio ao avanço da extrema direita, Portugal completa 50 anos de democracia

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Dos cravos ao Chega: Em meio ao avanço da extrema direita, Portugal completa 50 anos de democracia

Liderado pelo jurista André Ventura, o partido de extrema direita Chega saiu de 12 para 48 cadeiras no Parlamento Português

Dos cravos ao Chega: Em meio ao avanço da extrema direita, Portugal completa 50 anos de democracia

Foto: Reprodução/Youtube/Chega TV

Por: Daniela Gonzalez no dia 24 de abril de 2024 às 15:37

Atualizado: no dia 24 de abril de 2024 às 19:23

No ano em que a Revolução dos Cravos completa 50 anos, movimento que marcou a volta da democracia após a queda do regime ditatorial que perdurou quase cinco décadas, o partido Chega, de extrema direita, avança no poder, quadruplicando o número de cadeiras no Parlamento português.

O levante, rápido e pacífico, encerrou o mais longo autoritarismo do século 20 na Europa, coordenado em sua grande parte pelo ditador António de Oliveira Salazar, de orientação fascista. Naquele abril de 1974, Portugal era um país pobre, antidemocrático, conservador, colonialista e isolado do resto do mundo. Opiniões contra o regime e contra a guerra eram severamente reprimidas pela censura e pela polícia.

No entanto, o mundo segue atento ao avanço da ultradireita em Portugal. O Chega rompeu a alternância de poder entre direita e esquerda moderadas que vigorava no país desde o fim da ditadura. De 12 cadeiras no Parlamento em 2022, a sigla pulou para 48 na eleição deste ano. A ascensão meteórica tem explicações na figura do jurista André Ventura, líder do partido.

Essa é matéria faz parte da série especial de reportagens sobre os 50 anos da Revolução dos Cravos. Na próxima quinta-feira (25), data que marca a derrubada da ditadura salazarista, o Metro1 terá uma reportagem especial sobre o levante que acabou com os 48 anos de um regime autoritário no território português.

“Bolsoluso”

Apelidado de “Bolsoluso”ou “Bolsonaro português” por seu alinhamento ideológico com o ex-presidente brasileiro, Ventura chegou a chamar Lula de “ladrão”. Também endossou as falas do empresário Elon Musk, dono do X, com uma série de críticas ao ministro Alexandre de Moraes (STF). Em março deste ano, antes das eleições, após o presidente Lula anunciar que visitaria Portugal, Ventura disse que, se eleito primeiro-ministro, proibiria sua entrada no país europeu.

Uma das primeiras brasileiras a acompanhar a trajetória política do líder da ultradireita é Carla Risso, doutora e professora da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Facom/Ufba). Ela conta que, antes de fundar o Chega, em 2019, Ventura era do partido centro-direitista PSD. No entanto, após alguns descontentamentos internos, decidiu sair do partido e fundou a sigla, que atualmente é a terceira maior força de Portugal. 

O político, que concluiu doutorado na Irlanda, chegou a ganhar popularidade discutindo segurança pública na TV. Apesar das comparações com o ex-presidente Bolsonaro, Risso chama a atenção para o perfil político construído por Ventura.

"Ele descobriu uma insatisfação muito grande de uma determinada parte da população portuguesa que não se vê representada. Então, Ventura começou a fomentar o ódio contra os imigrantes. Atacou os ciganos, fez publicações preconceituosas, e com isso ele começou a ter uma projeção política, pois o discurso dele reverberava", explicou. 

Instrumentalização política

Apesar do crescimento em apenas cinco anos, Risso pondera que, ao analisar o sistema parlamentarista, ainda estamos longe de ver um perfil como o de André Ventura ocupar o cargo de primeiro-ministro.

O cientista político Antonio Lavareda, do Ipespe, instituto de pesquisas brasileiro, participou das projeções eleitorais no último pleito portugês. Pela primeira vez, a CNN de Portugal decidiu incluir institutos estrangeiros. Em entrevista concedida ao Metro1, Lavareda explicou que o Chega tem a mesma instrumentalização política das demais organizações da ultra direita populista europeia.

"Na França, Marine Le Pen tem hoje grande chance de ganhar a próxima disputa presidencial. Na Itália, a ultradireita triunfou e governa o país. Na Áustria, Suíça, Holanda, e em menor grau na Alemanha, os populistas da extrema direita têm crescido", declarou.

Para Lavareda, não devemos presumir que a trajetória do Chega será encerrada em breve. Pelo contrário, os movimentos de ultradireita, além de terem afinidades, possuem uma forte articulação internacional, através de organizações que contribuem para sua estratégia e financiamento.

"A Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC) desempenha esse papel. Ventura e a família Bolsonaro desenvolveram uma grande proximidade. Em 2023, estava previsto um encontro da extrema direita de todo o mundo em Lisboa, com a presença de Bolsonaro".

Em discurso de encerramento durante um congresso do Chega em novembro de 2021, Ventura apropriou-se do lema de Salazar, "Deus, pátria e família", acrescentando a palavra "trabalho”.