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Tensão na Bolívia se intensifica com onda de protestos contra o governo de Rodrigo Paz

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Tensão na Bolívia se intensifica com onda de protestos contra o governo de Rodrigo Paz

Manifestações e bloqueios já deixaram mortos, agravaram o desabastecimento em La Paz e aumentaram a pressão pela renúncia do presidente, que está no cargo há seis meses

Tensão na Bolívia se intensifica com onda de protestos contra o governo de Rodrigo Paz

Foto: Agência Efe/Folhapress

Por: Metro1 no dia 22 de maio de 2026 às 13:36

Atualizado: no dia 22 de maio de 2026 às 15:24

Quatro pessoas morreram e mais de cem foram detidas em meio à onda de protestos na Bolívia que pressiona pela saída do presidente Rodrigo Paz, no cargo há apenas seis meses. A crise começou em 1º de maio, quando a Central Operária Boliviana (COB) convocou uma greve geral por tempo indeterminado a partir do dia seguinte. O movimento, inicialmente focado em pautas econômicas e sociais, acabou se transformando em uma mobilização pela renúncia do presidente.

As primeiras reivindicações incluíam reajuste salarial de 20%, melhora na qualidade dos combustíveis, suspensão das privatizações de estatais deficitárias e revogação de mudanças na legislação fundiária. Apesar de o governo ter atendido parte das exigências, os atos cresceram e passaram a incluir 22 bloqueios de estradas ao redor de La Paz.

Nesta quinta-feira (21), o ministro do Trabalho, Edgar Morales, pediu demissão afirmando que a decisão ajudaria a “pacificar o país”. Um dia antes, Rodrigo Paz anunciou uma reforma ministerial para tornar o governo “mais ágil e mais próximo dos cidadãos”. O presidente também informou a criação de um Conselho Econômico e Social para discutir demandas populares, entre elas a geração de empregos.

Mesmo após as mudanças, a COB voltou às ruas com uma marcha entre El Alto e o centro de La Paz. Diferentemente do que ocorreu na segunda-feira (18), não houve confrontos. Naquele dia, sindicalistas, camponeses e apoiadores do ex-presidente Evo Morales entraram em confronto com a polícia durante um ato marcado por saques e agressões contra civis, jornalistas e agentes de segurança.

Na quarta-feira (20), centenas de pessoas participaram de um protesto contrário aos bloqueios que cercam La Paz. Com bandeiras bolivianas, os manifestantes ocuparam a Praça Murillo, em frente ao Palácio Quemado e ao Palácio Legislativo, para reclamar do desabastecimento provocado pelas interdições nas estradas.

O governo boliviano também denunciou o caso à Organização dos Estados Americanos (OEA), afirmando que “os protestos e as greves ameaçam a ordem democrática e violam os direitos fundamentais dos cidadãos”. Segundo o Executivo, estão comprometidos direitos como a liberdade de circulação e o acesso a alimentos, combustíveis e medicamentos.

Escassez de alimentos e combustíveis

Os bloqueios têm dificultado a chegada de produtos a La Paz e provocado falta de carne, frango, ovos, verduras e laticínios. A escassez de combustíveis gerou filas extensas nos postos, com motoristas esperando mais de cinco horas para conseguir gasolina ou diesel. Nos hospitais, o fornecimento de oxigênio começou a ser racionado. 

A crise também afeta cidades como Oruro, Potosí, Cochabamba e Santa Cruz. O governo tenta abrir corredores humanitários temporários para garantir o transporte de mercadorias essenciais. A Cruz Vermelha conseguiu liberar a passagem de dois caminhões carregados com cilindros de oxigênio medicinal, mas o volume ainda é insuficiente.

A Argentina enviou um avião Hércules para transportar toneladas de alimentos e produtos básicos até La Paz. Já o Chile, apesar de não manter relações diplomáticas com a Bolívia, também doou alimentos. Segundo a Câmara de Indústrias da Bolívia, as perdas no setor fabril já ultrapassam US$ 600 milhões.

Origem dos protestos

As manifestações começaram após a promulgação da Lei 1720, em 10 de abril. A medida autorizava pequenos proprietários rurais a recategorizarem voluntariamente suas terras para utilizá-las como garantia em empréstimos bancários.

Críticos da proposta afirmaram que a mudança transformaria as terras em ativos financeiros sujeitos à execução judicial. Embora o governo tenha garantido que territórios indígenas não seriam atingidos, movimentos sociais alegaram que a lei colocava terras ancestrais em risco em caso de dívidas. Também criticaram a falta de consulta prévia prevista pela Constituição.

Com o avanço da crise, professores, profissionais da saúde, mineiros e sindicatos do funcionalismo aderiram aos atos e passaram a protestar também contra o ajuste econômico. A inflação fechou 2025 em 20,4%, enquanto o acumulado de 2026 até abril chegou a 14,18%, antes mesmo do fim do câmbio fixo que mantinha o dólar em 6,96 bolivianos desde 2014.

O governo negociou reajustes com professores e mineiros e revogou a lei de terras em 13 de maio, o que reduziu parte das tensões. Ainda assim, os protestos se radicalizaram. Manifestantes passaram a chamar o presidente de “incaPaz”, em referência ao sobrenome de Rodrigo Paz e à falta de tranquilidade na capital.

Nesse cenário, Evo Morales voltou ao centro da crise ao liderar uma marcha de 190 quilômetros até La Paz. Na chegada à Praça Murillo, manifestantes lançaram pedras e dinamites usadas em minas, enquanto a polícia respondeu com gás lacrimogêneo.

A mobilização promovida por Morales coincidiu com uma segunda ordem de prisão contra ele por não comparecer ao julgamento em que responde à acusação de manter relação com uma menor durante seu governo, entre 2014 e 2015.

Rodrigo Paz sustenta que os protestos têm o objetivo de desestabilizar sua gestão e acusa Evo Morales de financiar o movimento com recursos ligados ao tráfico de drogas. Segundo o presidente, o ex-mandatário já teria usado estratégias semelhantes para chegar ao poder em 2005 e para pressionar o governo interino de Jeanine Áñez em 2019.

Países governados pela direita, como Argentina, Chile, Paraguai e Estados Unidos, declararam apoio a Rodrigo Paz e denunciaram uma tentativa de ruptura democrática. Já governos de esquerda, como o da Colômbia, consideraram as manifestações uma reação legítima ao ajuste econômico. O presidente colombiano, Gustavo Petro, classificou os protestos como uma “insurreição popular”, o que levou à expulsão da embaixadora da Colômbia em La Paz.