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Crise e esvaziamento do centro colocam Porto do Moreira na corda bamba; clientela inicia campanha

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Crise e esvaziamento do centro colocam Porto do Moreira na corda bamba; clientela inicia campanha

Família anuncia possível venda do imóvel onde funciona o restaurante octogenário, no Largo Mocambinho, mas campanhas para sanar dívidas e aumentar movimento já começaram nas redes e nas ruas

Crise e esvaziamento do centro colocam Porto do Moreira na corda bamba; clientela inicia campanha

Foto: Tácio Moreira/Metropress

Por: James Martins no dia 16 de dezembro de 2022 às 15:27

Reportagem publicada originalmente no Jornal da Metropole em 15 de dezembro de 2022

O imóvel onde funciona o restaurante Porto do Moreira, um dos mais tradicionais de Salvador, na rua Carlos Gomes, está à venda. A se confirmar a transação, a venerável casa de pasto que funciona há 84 anos ininterruptos, será fechada, para tristeza da cidade e de clientes que se espalham pelo mundo, mas que não têm sido capazes de sustentar a saúde financeira do estabelecimento. “Infelizmente a pandemia mudou por completo a situação financeira das pessoas… até mesmo os hábitos alimentares e afins… mudou tudo. O movimento no Centro de Salvador caiu muito, muito mesmo. Aí você coloca também a violência e acaba por esvaziar mais ainda o Centro”, explica Cristina Sotelino, 46, filha de Chico Moreira, co-responsável pela gestão do restaurante. O fato é que, apesar de toda fama, referendada até mesmo na obra de Jorge Amado, o Porto do Moreira não consegue pagar as próprias contas.

Entre as dívidas enumeradas, encontram-se impostos, férias de funcionários, empréstimos e outras pendências naturais de qualquer empresa, mas que o caixa diário do restaurante não consegue sanar. “Muitos dos nossos fregueses antigos deixaram de vir. Claro que chegou público novo, mas não são tão assíduos como os antigos”, diz Cristina, ainda refletindo sobre o movimento atual e a crise. Ela enfatiza que a possibilidade de fechamento não é realização de um desejo seu nem de seu pai, mas o duro encarar da realidade. “Algumas pessoas estavam achando que era brincadeira quando falávamos da nossa situação financeira. Com a notícia da venda é que eu acredito que irão enxergar nossa realidade”, completa.

Por outro lado, amigos do Moreira já começaram o movimento no sentido de não permitir o fechamento do restaurante. O primeiro deles é Humberto Santiago, que até criou uma conta bancária para arrecadar doações. “Não podemos deixar este patrimônio morrer, como já aconteceu com o Colón e o Mini Cacique”, afirma.
 
Fama internacional e aconchego de família

No livro Dona Flor e Seus Dois Maridos, Jorge Amado conta que a protagonista saiu de casa para a missa de um mês de morte de Vadinho e: “Veio andando da igreja por entre a curiosidade do povo. Do balcão do bar, Mendez a cumprimentou, e seu Moreira, o português do restaurante, com um berro, advertiu a mulher, ocupada na cozinha: ‘Depressa, Maria, vem ver a viúva’”

O grifo é nosso. Mais à frente, o restaurante é citado novamente, quando Dr. Teodoro, se fretando para a Flor, “deu de almoçar e jantar no restaurante do português Moreira, rondando pelo Cabeça, pelo Maciel, pelo Sodré, como se não pudesse abandonar as redondezas da viúva”. Citações à parte, o Porto do Moreira faz parte realmente da vida de muita gente. Ou melhor, de nossa gente. “O fechamento seria como perder um membro de minha família. Pior ainda, um membro que reúne outros membros. Inconcebível”, define a poetisa Vitória Régia Sampaio. Mas a grande família do Porto do Moreira não vai permitir. Ou vai?

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