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Na chuva para alagar: excesso de cimento e retirada de vegetação contribuem para transtornos da chuva em Salvador

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Na chuva para alagar: excesso de cimento e retirada de vegetação contribuem para transtornos da chuva em Salvador

Só nas últimas segunda e terça-feira, a Defesa Civil de Salvador registrou mais de 900 ocorrências

Na chuva para alagar: excesso de cimento e retirada de vegetação contribuem para transtornos da chuva em Salvador

Foto: Secom/Jefferson Peixoto

Por: Daniela Gonzalez no dia 11 de abril de 2024 às 00:58

Atualizado: no dia 11 de abril de 2024 às 09:54

Matéria publicada originalmente no Jornal Metropole em 11 de abril de 2024

O caos que se repete. Cada nova temporada de chuvas sempre deixa o mesmo questionamento: por que Salvador sofre tanto com os alagamentos, enchentes e deslizamentos de terra? Só nas últimas segunda e terça-feira, a Defesa Civil de Salvador registrou mais de 900 ocorrências. Difícil encontrar alguém que não tenha sofrido com algum transtorno. Já a resposta para esta pergunta não é tão simples encontrar. A situação é desafiadora devido à degradação dos espaços verdes, como parques, solo nu ou vegetação rasteira, gramados e arbustos, somada ao aumento de áreas cobertas por concreto e asfalto.

Ao Jornal Metropole, o arquiteto e urbanista Leandro Santana faz um alerta: além dos desafios da própria urbanização, a intensificação das chuvas é possivelmente um processo sem volta, assim, a falta de permeabilidade do solo e a ausência de vegetação continuarão contribuindo para eventos catastróficos. O efeito do concreto na chuva é simples: ele impermeabiliza o solo, que passa a enfrentar extrema dificuldade de absorção da água, enquanto em um ambiente vegetado o processo é diferente.

“O solo com vegetação tem capacidade de absorver, alimentando o lençol freático. O volume que não foi absorvido pelo solo encontrará na vegetação uma barreira, reduzindo a sua velocidade, dando tempo para o solo ganhar novamente capacidade de absorção”, detalha.

Plano eficiente?

Se não há capacidade de absorver, é preciso conduzir essas águas. Para essa alternativa, são necessários os sistemas de drenagem, sarjetas e bocas de lobo. No entanto, Santana questiona: “Onde está o plano de drenagem de Salvador e o manejo de águas pluviais? Se a condução está deficiente, a água fica acumulada e provoca danos”.

“Esse volume que não foi reduzido fica na superfície e, por não encontrar vegetação, não tem a velocidade reduzida”, esclarece o urbanista. Nesse cenário, bairros são atingidos em um curto espaço de tempo, provocando verdadeiros estragos.

Na segunda-feira, com a chuva, todas as 14 sirenes do Sistema de Alerta foram acionadas. Elas fazem parte da lista de 164 localidades consideradas de área de risco em Salvador. Os moradores precisaram deixar suas residências. Mas o que o urbanista pondera é que, considerando a identificação desses pontos como áreas de risco, é natural presumir a existência de um mapeamento e um plano correspondente. Surge aí a necessidade de questionar a transparência de atuação dos órgãos públicos.

“Existe realmente esse mapeamento? Em que medida ele está sendo implementado? Qual foi o diagnóstico? As áreas identificadas pelas sirenes são resultado desse plano? Quanto progresso foi feito até agora? Quais foram as recomendações?”, indaga.

Diante da crescente preocupação com o colapso climático, surge a necessidade de analisar como as autoridades estão se preparando para enfrentar cenários de chuvas, altas temperaturas e outros eventos extremos. Para Leandro, o Plano Diretor de Salvador — pacto social que define os instrumentos de planejamento para reorganizar os espaços da cidade e garantir a melhoria da qualidade de vida da população — precisa se atualizar.