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A última cena do Gamboa? Teatro tenta escapar da estatística de casas de espetáculo fechadas em Salvador
Dados da Secretaria Municipal da Fazenda (Sefaz) indicam que 224 casas de espetáculo e espaços culturais fecharam as portas nos últimos anos em Salvador

Foto: Divulgação/Fabio Bouzas
Materia publicada originalmente no Jornal Metropole em 11 de setembro de 2025
Manter um espaço cultural aberto em Salvador hoje exige mais do que paixão pela arte: exige investimento, criatividade e, muitas vezes, um esforço sobre-humano. Enquanto teatros históricos permanecem fechados para reformas e novos espaços se tornam cada vez mais caros ou simplesmente inexistem, instituições independentes como o Teatro Gamboa se veem na linha de frente de uma batalha diária. Resistir virou luxo porque, para sobreviver, é preciso não apenas fazer arte, mas também lutar contra a especulação imobiliária, custos elevados e o descaso público.
E um dos palcos mais emblemáticos da cena independente em Salvador está sob ameaça: aos 50 anos de história, o Teatro Gamboa, localizado na Rua Gamboa de Cima, vive o desafio de permanecer aberto diante da venda do imóvel onde funciona. A Associação que gere o espaço há 18 anos tenta comprar a sede e lançou uma campanha coletiva para arrecadar os recursos.
Um território de resistência
O Gamboa não é apenas um teatro: é um território de resistência. Desde sua fundação, tornou-se ponto de encontro para artistas criarem e experimentarem. Sob gestão da Associação Teatro Gamboa, construiu uma política contínua de apoio à classe artística independente.
50 anos de história à venda
Esse modelo de gestão, raro no Brasil, é um dos motivos que explicam o vínculo profundo da comunidade artística com o Gamboa. Reconhecido como entidade de utilidade pública desde 2007, o teatro é contemplado há 13 anos pelo Programa de Apoio às Ações Continuadas de Instituições Culturais da Secretaria de Cultura da Bahia (SecultBA). O convênio assegura atividades até 2027, mas, sem o imóvel, todo o ciclo de profissionalização e inovação corre o risco de ser interrompido.
Produtor cultural do teatro, Ícaro Pithon conta que o imóvel está avaliado em mais de R$ 900 mil, mas, após longas negociações, foi firmado um acordo simbólico com os proprietários, sensíveis à relevância do espaço. A Associação tem prioridade na compra, mas precisa reunir rapidamente os recursos para garantir a aquisição. Para isso, lançou uma campanha. O montante também cobrirá tributos, custos jurídicos e reparos estruturais.
Mais fácil achar um condomínio de luxo do que um teatro
A situação do Gamboa escancara um problema antigo em Salvador: a escassez de espaços culturais. A produtora cultural Piti Canella aponta que, enquanto teatros históricos como o Castro Alves e o Vila Velha seguem fechados para reforma, os poucos que resistem ficam sobrecarregados e os ingressos encarecem. “A cena teatral baiana é fortíssima, mas faltam equipamentos à altura. Manter um teatro custa caro, e a cidade sofre há anos com a ausência de espaços adequados”, afirma a produtora Piti Canella.
Apagão cultural
Os números confirmam o alerta. Dados da Secretaria Municipal da Fazenda (Sefaz) indicam que 224 casas de espetáculo e espaços culturais fecharam as portas nos últimos anos em Salvador. Entre eles, estão equipamentos simbólicos como o Teatro Eva Herz, encerrado em 2021, e o antigo Teatro Acbeu. O Gamboa pode ser mais um. E as perdas não significam apenas menos opções de lazer: representam a limitação de oportunidades para artistas e a redução de territórios de encontro e convivência cultural para o público.
Apoio público insuficiente
A SecultBA afirma que mantém diálogo constante com a diretoria do Gamboa. Em nota, a secretaria destacou que acompanha a situação e reafirmou a parceria histórica. Apesar disso, o cenário exige mais do que declarações de apoio.
O que está em jogo
O risco de o Gamboa desaparecer não se limita ao fechamento de um teatro. Significa abrir espaço para que o imóvel seja transformado em empreendimento comercial, condomínio de luxo ou, pior, se torne mais um prédio ocioso no Centro. Em qualquer dessas hipóteses, é a cultura que perde. E é nesse ponto que a campanha coletiva ganha sentido: não se trata apenas de manter uma sala aberta, mas de assegurar que Salvador preserve um patrimônio vivo.
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