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Explosão do consumo de vapes reverte avanços históricos no combate ao fumo

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Explosão do consumo de vapes reverte avanços históricos no combate ao fumo

Dados preliminares do Ministério da Saúde apontam um crescimento de 9,3% para 11,6% na proporção de adultos fumantes entre 2023 e 2024

 Explosão do consumo de vapes reverte avanços históricos no combate ao fumo

Foto: Folhapress/Folhapress

Por: Ismael Encarnação no dia 31 de dezembro de 2025 às 06:30

Atualizado: no dia 31 de dezembro de 2025 às 07:14

Matéria publicada originalmente no Jornal Metropole em 31 de dezembro de 2025

A febre das canetas emagrecedoras e seus riscos podem até ter roubado os holofotes. Mas, encobertos por uma névoa conhecida e que chegou até a ser vendida como símbolo de liberdade e salvação, os vapes avançaram em silêncio. Entre vapores aromatizados e promessas leves como fumaça, os dispositivos eletrônicos conquistaram um feito nada etéreo: depois de quase duas décadas de queda consistente, conseguiram empurrar para cima o número de fumantes no Brasil.

O país que virou vitrine internacional no combate ao tabagismo agora assiste ao retorno de um velho conhecido — dessa vez, embalado em menos fumaça e mais vapor, repaginado, moderninho, colorido e com cheiro de fruta. 

Dados preliminares do Ministério da Saúde,apresentados pela pasta em um evento da pasta em Brasília, apontam um crescimento de 9,3% para 11,6% na proporção de adultos fumantes entre 2023 e 2024. Esse é o primeiro salto desde 2006 e a maior proporção de fumantes nos últimos 11 anos.

Retrocesso saborizado

O aumento pode até parecer discreto, mas funciona como aquele cheiro de fumaça que ninguém sabe de onde vem e sempre anuncia problema. O Brasil conseguiu, com muito esforço, expulsar o cigarro das propagandas, dos ambientes fechados e do imaginário do “charme”. Vieram campanhas duras, impostos salgados e avisos pouco convidativos nos maços. Funcionou. Até não funcionar mais. Enquanto as políticas comemoravam o sucesso, o vício evaporou, mudou de forma e voltou a circular.


Trocou de roupa, de aura e voltou pela porta da frente 

Se entre as décadas de 1940 e 1970 fumar era um gesto de charme vendido por Hollywood, hoje o apelo é outro: tecnológico, descolado, aromatizado e vendido como “menos nocivo”. É essa fumaça retórica que sustenta a nova onda, alerta o pneumologista Álvaro Cruz. “Os cigarros eletrônicos passam a falsa ideia de que não fazem mal”, afirma. O resultado é um modismo que avança sobretudo entre jovens, mais preocupados com pertencimento social do que com avisos de risco.

Nova embalagem, mesmos riscos

No consultório, porém, o discurso se dissipa rápido. O pneumologista Álvaro Cruz explica que os dispositivos eletrônicos mantêm a nicotina, substância altamente viciante, e acrescentam uma série de compostos químicos potencialmente cancerígenos, muitos deles sequer são conhecidos. Já há registros de intoxicações pulmonares graves e mortes associadas ao uso desses produtos. “É uma narrativa perigosa”, resume o pneumologista, ao destacar que doenças cardiovasculares, câncer e lesões respiratórias seguem no pacote – com ou sem brasa com ou sem LED.

Falha na calculadora

Desde 2009, a Anvisa proíbe a importação, publicidade e comercialização dos dispositivos eletrônicos para fumar. No ano passado, manteve a proibição mesmo sob a pressão da indústria do tabaco, que já fareja novos mercados. Ainda assim, há quem defenda liberar geral, com discurso embalado em arrecadação e controle. Em 2024, um projeto da senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS) tentou transformar vapor em receita, sob o argumento de que regular seria melhor do que proibir.

O problema é que essa conta não fecha nem com fumaça. Para cada R$ 1 de lucro da indústria do tabaco, o Brasil gasta R$ 5 tratando doenças associadas ao consumo. No total, são R$ 153 bilhões por ano evaporando em custos de saúde, um rombo que não cabe em nenhum cartucho.

Fiscalização frouxa

Apesar da proibição, o sanitarista fundador da Anvisa, Gonzalo Vecina, associa o aumento do tabagismo à fragilização da fiscalização. Para ele, é preciso reforço no combate ao contrabando, nas multas aos pontos de venda ilegais e nas restrições ao fumo em espaços públicos. Assim como foi feito com o cigarro branco. Mas o que ele rechaça completamente é a equiparação regulatória de cigarro tradicional e os dispositivos eletrônicos. 

“Muitos dos países que equiparam a regulação do cigarro branco ao eletrônico já estão reconhecendo o erro, só que não têm condição de voltar atrás agora. O cigarro eletrônico não reduz o consumo do cigarro tradicional, não substitui o uso do cigarro tradicional e se transformou em uma sofisticação do vício de fumar na juventude”. 

Apesar da proibição, o fundador da Anvisa, Gonzalo Vecina, associa o aumento do tabagismo à fiscalização frouxa. Para ele, é preciso reforçar o combate ao contrabando, multar pontos de venda ilegais e endurecer restrições ao fumo em espaços públicos — semelhante ao que foi feito com o cigarro tradicional. O que ele descarta completamente é regulamentar o vape como o cigarro branco.

“Muitos dos países que equiparam a regulação do cigarro branco ao eletrônico já estão reconhecendo o erro, só que não têm condição de voltar atrás agora. O cigarro eletrônico não reduz o consumo do cigarro tradicional, não substitui o uso do cigarro tradicional e se transformou em uma sofisticação do vício de fumar na juventude”.
No fim, a lição é simples: o glamour virou vapor, a fumaça mudou de cheiro, mas o prejuízo continua bem sólido e nada etéreo.