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8/01: data entrou para história como o dia em que a democracia correu perigo

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8/01: data entrou para história como o dia em que a democracia correu perigo

Há exatos três anos, o ataque coordenado aos Três Poderes expôs a trama golpista que tentou derrubar na marra a República e levou, pela primeira vez, um ex-presidente e integrantes da cúpula militar à prisão por atentado ao Estado Democrático de Direito

8/01: data entrou para história como o dia em que a democracia correu perigo

Foto: Agência Brasil

Por: Daniela Gonzalez no dia 08 de janeiro de 2026 às 08:47

 

Matéria publicada originalmente no Jornal Metropole em 08 de janeiro de 2026

As imagens correram o mundo como um alerta em letras garrafais: a democracia brasileira estava sob ataque. Não era metáfora, não era exagero. Era concreto, filmado, transmitido ao vivo e compartilhado em tempo real. Vidros estilhaçados, obras de arte destruídas, símbolos da República profanados. O que se viu naquele 8 de janeiro de 2023 foi a tentativa explícita de esmagar, na marra, o resultado das urnas, e fazer isso diante das câmeras.

Era um domingo. E como em outros momentos sombrios da história, o ataque começou com aparência de marcha cívica. Convocados por redes sociais e alimentados por meses de acampamento em frente ao Quartel-General do Exército, grupos de golpistas avançaram pela Esplanada dos Ministérios. Não pediam diálogo, não reivindicavam direitos: caminhavam para destruir o coração do Estado brasileiro.

O primeiro alvo foi o Congresso Nacional. O Salão Negro virou corredor de invasão; o Salão Verde, palco de vandalismo. Vidros, móveis e obras de arte foram quebrados sem cerimônia. No plenário do Senado, cadeiras foram pisoteadas, a mesa diretora ocupada, a rampa da tribuna virou escorregador de um espetáculo grotesco. A liturgia democrática foi tratada como entulho.

Marcha da insensatez 

Quase simultaneamente, outro grupo avançava sobre o Palácio do Planalto. Com pedras e paus, invadiram o prédio sem resistência. Gabinetes depredados, quadros e esculturas destruídos, o relógio histórico vandalizado, a galeria de ex-presidentes profanada. O símbolo máximo do Poder Executivo virou cenário de devastação — um retrato explícito da tentativa de apagar a institucionalidade à força.

O Supremo Tribunal Federal também não escapou. A fachada foi quebrada, o plenário destruído, estátuas, móveis e poltronas dilacerados. Uma porta de armário do ministro Alexandre de Moraes foi arrancada como troféu. Tudo registrado pelos próprios golpistas, que pareciam orgulhosos de atacar o último bastião institucional capaz de contê-los. A ironia histórica é cruel: quem gritava “liberdade” tentava silenciar o Judiciário à base do vandalismo.

A Polícia Militar só conseguiu isolar a Praça dos Três Poderes no início da noite, quando a destruição já estava feita. Durante os ataques, o recém-empossado presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estava em São Paulo. Ao retornar a Brasília e ver o Planalto devastado, decretou intervenção federal na segurança pública do Distrito Federal, medida extrema para um dia que também foi extremo.

Perplexidade Global

O mundo assistiu atônito. Veículos internacionais compararam o ataque em Brasília à invasão do Capitólio, em Washington, em 6 de janeiro de 2021. Trataram o episódio como o maior ataque à democracia brasileira desde o fim da ditadura pós-1964. Internamente, a resposta institucional veio com atraso, mas veio. A maioria dos ministros do STF concluiu que os atos tinham objetivo claro: derrubar um governo democraticamente eleito por meio da violência, em favor do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), com atuação coordenada e organizada.

Três anos depois, as investigações seguem mirando organizadores e financiadores. O prejuízo material ultrapassa R$ 26 milhões apenas nos prédios dos Três Poderes. Até agora, o Supremo condenou mais de 890 pessoas pelos crimes de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado, deterioração de patrimônio tombado e associação criminosa.

O 8 de janeiro não foi um surto coletivo, nem um domingo fora da curva. Foi um projeto. Um ataque calculado contra a democracia, transmitido ao vivo para o mundo inteiro. E três anos depois, a memória desse dia não serve apenas para lembrar o que foi destruído, mas para reforçar o que precisa ser permanentemente defendido.

Quando o intocável virou réu

O país assistiu pela primeira vez em toda sua história a um roteiro que parecia improvável demais para se concretizar: militares de alta patente e um ex-presidente da República julgados ao vivo, sob os olhos atentos de uma sociedade historicamente treinada a esperar pela impunidade dos poderosos, por tramarem um golpe de estado. 

As investigações do Supremo escancararam que o 8 de janeiro não ocorreu por improviso. Tratava-se de uma operação organizada em núcleos com funções bem definidas: do Núcleo 1, identificado como o comando da organização criminosa sob liderança direta de Bolsonaro, ao Núcleo 2, que teria gerenciado ações, minutas golpistas e coordenação operacional, passando pelo Núcleo 3, composto pelos militares das Forças Especiais conhecidos como “kids pretos”, acusados de planejar ações táticas e um plano de assassinato de autoridades para forçar o caos e permitir a ruptura institucional: incluindo alvos como o presidente Lula, o vice Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes. 

E não terminou aí: o Núcleo 4 atacou a democracia pela tecla, alimentando uma máquina de desinformação com fake news sobre o sistema eleitoral e até o uso de estruturas paralelas de inteligência para ameaçar e desmoralizar instituições, uma estratégia que o Judiciário entendeu como parte do esforço golpista. Diante desse desenho criminal, o Judiciário acelerou o passo, centralizou inquéritos, autorizou prisões, quebras de sigilo e denúncias numa resposta calculada para enterrar a ideia, amplamente disseminada, de que “não daria em nada”. Deu! 

A própria figura do ex-presidente foi transformada em condenado por tentativa de golpe; 29 pessoas já foram condenadas, dois absolvidos, duas tiveram denúncias rejeitadas, uma aguarda julgamento e dois seguem foragidos. A Justiça deixou de ser promessa abstrata e passou a operar como sinal político e institucional de que atacar a democracia tem custo real, ainda que tardio, ainda que imperfeito, mas, desta vez, impossível de ignorar.