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Memória do Bonfim: saiba por que a Arquidiocese decidiu fechar igreja para a Lavagem
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Memória do Bonfim: saiba por que a Arquidiocese decidiu fechar igreja para a Lavagem
Confusões, excessos e ‘capetices’ fizeram a Cúria proibir manifestação tradicional dentro do templo da Colina Sagrada no fim do Século 19

Foto: Metropress
Bebedeiras, danças "diabólicas", algazarra e brigas ocorriam no século 19 dentro da Igreja de Nosso Senhor do Bonfim durante a lavagem do templo no período da novena dedicada ao santo, em janeiro. Os excessos de alguns participantes, considerados desrespeitosos e sacrílegos pela cúria baiana, foram fundamentais para a Arquidiocese proibir a festa dentro da igreja. Cronistas do passado traçaram um cenário bizarro do que ocorria na lavagem do piso do templo na quinta-feira, com a desculpa de preparar a igreja para as missas do domingo que encerram a parte religiosa da festa.
Carlos Alberto de Carvalho, no seu livro “Tradições e Milagres do Bonfim”, publicado em 1915, descreveu a lavagem como um “assalto” ao templo por “uma horda de mulheres e homens do povo, carregando potes d’água à cabeça e empunhando vassouras de piaçava”. Eram os adeptos do sincretismo que cultuavam Senhor do Bonfim e Oxalá. Após despejarem o líquido, “as vassouras zigue-zagueavam de um modo infernal sobre as lages”, enquanto as pessoas cantavam benditos e ladainhas, misturando com chulas e sambas.
“As mulheres, seminuas, os homens [com as calças] arregaçadas até acima dos joelhos, bailavam diabolicamente; de vez em quando distribuíam-se copos de aguardente pelos lavadores”. Quando muitos se embriagavam, “o respeito falecia, o decoro asfixiava-se e o reinado do deboche ia-se acentuando pouco a pouco” a ponto de ocorrerem brigas. Depois de enlamearem o piso em vez de lavarem, largavam as vassouras na sacristia e não recolhiam os cacos dos potes d’água que quebravam na entrada da igreja. Cabia a alguns moradores do Bonfim a tarefa de, no dia seguinte, finalmente limpar o templo para ser reaberto, permitindo a realização das missas. Essa limpeza real é o que ocorria antes do início da tradição do povo invadir a igreja para promover a algazarra descrita acima.
Proibição data de 1889
Diante dos abusos, o então arcebispo de Salvador dom Luiz Antonio dos Santos baixou uma portaria, em 9 de dezembro de 1889, fechando a igreja durante a lavagem, que passou a ser feita no adro e nas escadarias. Outro cronista, Xavier Marques, no entanto, indicou que as acusações de “selvageria” e “africanismos” que eram lançadas aos participantes da festa não constituía comportamento exclusivo dos baianos.
No artigo “Tradições Religiosas da Bahia”, publicado em 1929, cita um decreto do arcebispo de Elvas, Portugal, do Século 16, que proibia as pessoas de comer, beber, cantar e bailar dentro e no adro das igrejas da cidade onde ocorriam também “ajuntamento sobre coisas profanas” e jogos, justificando que tais atos abalariam “aqueles que não estão muito firmes na fé católica”.
Decisão de dom Lucas reacende polêmica
A Lavagem do Bonfim, que com o tempo se transformou na segunda maior festa popular de Salvador (perdendo apenas para o Carnaval), também enfrentou oposição do clero no final dos anos 80, após dom Lucas Moreira Neves ser nomeado Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil. Em 1989 ele queria proibir o acesso das baianas com os potes com água de cheiro ao adro da igreja. Dom Lucas pediu à Irmandade do Bonfim para fechar o gradil do adro, restringindo a lavagem às escadarias. Recebeu fortes críticas de segmentos da sociedade baiana e alguns artistas ameaçaram levar para a festa faixas pedindo ao Vaticano que transferisse o religioso para outra arquidiocese.
A reação fez dom Lucas recuar e liberar o adro para a lavagem, mas solicitou que a polícia militar isolasse o local após a saída das baianas para evitar que a área virasse palco para carnaval. No ano seguinte, como uma reação à festa profana, dom Lucas criou a Romaria Penitencial do Bonfim, realizada dois meses após a lavagem, que passou a atrair milhares de pessoas para a caminhada quando alguns se confessavam, cantavam músicas religiosas e, no final, assistiam a missa campal no Largo do Bonfim.
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