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Quebrou por quê? Falhas em trios elétricos se tornam desafio para o próximo Carnaval

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Quebrou por quê? Falhas em trios elétricos se tornam desafio para o próximo Carnaval

Com alto número de defeitos e desistências de artistas por falta de estrutura, defeitos nos veículos impactam na fluidez dos circuitos

Quebrou por quê? Falhas em trios elétricos se tornam desafio para o próximo Carnaval

Foto: Tacio Moreira e Aldair Lima/ Metropress

Por: Duda Matos no dia 19 de fevereiro de 2026 às 08:23

Do Furdunço à terça-feira de Carnaval, a folia deste ano em Salvador foi marcada não apenas pela multidão de sempre nas ruas da cidade, mas por uma sequência de falhas técnicas e cancelamentos a reboque da baixa qualidade dos trios elétricos em 2026.

O alto número de ocorrências geradas por problemas mecânicos, quedas de energia e limitações estruturais colocou em xeque a capacidade, a solidez e a eficiência de um dos principais símbolos da festa.

O problema não é pequeno quando se olha o gigantismo do Carnaval de Salvador. Segundo dados coletados pelo sistema de reconhecimento facial da Secretaria de Segurança Pública, a folia reuniu mais de nove milhões de pessoas nos seis dias oficiais.

Durante o período, centenas de trios passaram pelos principais circuitos Dodô (Barra/Ondina), Osmar (Campo Grande) e Batatinha (Pelourinho). Obviamente, as falhas apresentadas por eles ficaram à vista de todo mundo.

Ponta do iceberg

O primeiro alerta apareceu no Furdunço, ainda no pré-Carnaval. O trio da banda Pagodart apresentou problemas logo no início do percurso: a parte frontal do veículo cedeu por excesso de peso, de acordo com os órgãos responsáveis pela vistoria. Por sorte ou milagre, a falha não resultou em tragédia,    

Segundo o relatório técnico, a superlotação comprometeu a estabilidade estrutural do trio e gerou risco à integridade de artistas, trabalhadores e público. A produtora da banda e o proprietário do trio foram autuados.

Também no pré-Carnaval, em plena Melhor Segunda-Feira do Mundo, o trio de Xanddy Harmonia apresentou queda de energia e relatos de fumaça após permanecer parado por longo período.

Assim não dá! 

Antes mesmo da abertura oficial, as deficiências nos trios provocaram duas baixas da folia. O cantor Edcity anunciou que não desfilaria no Circuito Dodô porque o trio disponibilizado não possuía a estrutura necessária para abrigar sua equipe. Seria a primeira apresentação no Carnaval após o retorno da turnê de 20 anos da banda Fantasmão, da qual Edcity é ícone.

No mesmo diapasão, o cantor Oh Polêmico também cancelou a participação na Barra e Ondina por igual motivo. Em nota, a produção do artista informou que “não foi possível garantir que a apresentação ocorresse dentro do padrão de qualidade e entrega artística do cantor, em um trio elétrico que comportasse toda a sua estrutura de banda e técnica”.

Circuitos travados

Diante da escalada de problemas, o Departamento Estadual de Trânsito (Detran) passou a vistoriar trios, minitrios e carros de apoio na quarta-feira (11), véspera da abertura oficial. Ainda assim, ao longo dos dias, foram registrados diversos problemas mecânicos e elétricos que impactaram diretamente a fluidez dos circuitos.

No primeiro dia oficial, quinta-feira (12), o trio da Timbalada ficou no escuro, registrando queda de energia. O que interrompeu momentaneamente a apresentação na Barra. Já no Campo Grande, sexta-feira 13, Tony Salles precisou encerrar o desfile antes de completar o percurso por falha técnica.

No mesmo dia, a cantora carioca Anitta chegou a interromper o show e criticou o congestionamento de trios no Circuito Barra-Ondina, fazendo com que os foliões fossem pressionados contra grades e pisoteados. Depois do desfile, a artista sugeriu nas redes sociais “maior espaçamento entre as saídas”.

Deficiências permanecem até a reta final da festa

No fim de semana, Tatau cancelou a apresentação no mesmo circuito após problema no sistema de áudio do trio reservado para ele. Mais tarde, Bell Marques reclamou da retenção do bloco Camaleão na Barra-Ondina e atribuiu o atraso a um problema envolvendo o caminhão do Olodum. O cantor disse que manteve o trio parado para evitar compressão excessiva do público.

Em nota, o Olodum reconheceu que o trio apresentou falhas logo na abertura do desfile, após identificar dois pneus esvaziados em um carro de apoio. A banda afirmou que, a pedido da Polícia Militar, ficou alguns minutos sem tocar devido à grande concentração de pessoas, como medida preventiva.

Na segunda-feira (16), o circuito Dodô viveu novo impasse. O trio de Daniela Mercury atrasou após apresentar problemas técnicos e precisou fazer uma manobra de improvido, ficando encostado no largo do Farol da Barra. Durante a retenção, o trio do Psirico ultrapassou a artista.

Pouco depois, o trio comandado por Márcio Vitor, líder do Psirico, também apresentou falhas, congestionando o circuito. A organização pediu nova reorganização da fila, com Daniela retomando à frente. 

Até tu, Maga?

Antes de finalizar a festa da capital baiana, o trio elétrico da cantora Margareth Menezes, ministra da Cultura, gerou um atraso de quatro horas de atraso na programação do Campo Grande, após o sistema de sonorização do trio apresentar falhas graves. Assim que Maga começou a cantar, o áudio foi tomado por chiados intensos, impossibilitando que a música chegasse com qualidade ao público. 

Mercado limitado

Durante a festa, o prefeito da capital, Bruno Reis (União Brasil), reconheceu dificuldades para contratar trios elétricos. Segundo ele, houve aumento no número de atrações, mas o total de trios de alta qualidade permaneceu o mesmo. “Tem um número maior de artistas se apresentando, e naturalmente há menos trios de uma qualidade melhor disponíveis. Todos querem se apresentar no ‘trio A’ (o melhor)”.

O coordenador da Central de Vistorias, tenente-coronel PM Sérgio Almeida, afirmou que 116 veículos estão oficialmente aptos a desfilar nos circuitos Barra-Ondina e Campo Grande, entre trios, carros de apoio, minitrios e pranchões, e que houve redução de cerca de 10% nas ocorrências técnicas em relação a 2025. Só não apresentou números para comprovar a tese e reduzir a percepção de que os defeitos foram maiores este ano. 

Segundo Almeida, os principais registros envolveram pneus furados, desgaste de embreagem e quebras de diferencial traseiro, todos solucionados ainda durante a operação. Para ele, os problemas foram pontuais. No entanto, o tenente-coronel defende a necessidade de reavaliar o tamanho dos trios, embora sustente que, tecnicamente, a frota atual atende à demanda da festa.

Procurados pela reportagem, a Saltur e a Associação Baiana de Blocos e Trios (ABBT) não responderam os questionamentos da reportagem sobre o surto de falhas nos veículos até o fechamento desta edição. O que sugere a incapacidade de entidades com expertise no ramo para entender os motivos dessa onda de defeitos em trios.